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Ednalva Franco: ‘Foi uma prisão injusta e um ataque contra os movimentos sociais’

Em liberdade, líder sem-teto denuncia, na Rádio Brasil Atual, a criminalização da luta social e expõe as marcas de mais de 100 dias de cárcere
Publicado por Clara Assunção
13:42
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MARCELO CAMARGO/ EBC

"Foi uma prisão injusta e um ataque contra os movimentos sociais", afirma Ednalva Franco

São Paulo – Foram mais de 100 dias em cárcere até que a Justiça reconhecesse, nesta quinta-feira (17), a ilegalidade da prisão preventiva da militante pelo movimento de moradia no centro de São Paulo Ednalva Franco. A única líder sem-teto que permanecia presa desde o dia 24 de junho concedeu entrevista nesta sexta-feira (18) à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, na qual denunciou o intuito do processo que também levou à prisão as lideranças Janice Ferreira – a Preta –, Sidnei Ferreira e Angélica dos Santos Lima.

“Foi uma prisão injusta e um ataque contra os movimentos sociais. Eu não sinto que eu, Ednalva, Preta Ferreira, Sidnei Ferreira e Angélica Lima ficamos presos, ficaram presos os movimentos sociais”, destaca.

Agora fora da prisão, Ednalva, formada em Direito, Pedagogia e Teologia, responsável ainda pelo acolhimento de homens e mulheres em situação de rua e militante desde a década de 1990 cumpre, no entanto, medidas restritivas de liberdade. Dentre elas, a que mais lhe prejudica pode impedir sua participação em audiências públicas, reuniões por conta do trabalho e mesmo sua participação nos cultos da igreja evangélica que frequenta, por não poder ficar depois das 22h fora de sua residência.

Esta é, de acordo com seu advogado Pedro Martinez, só mais uma das arbitrariedades cometidas pelo processo que acusa, ao todo, 19 integrantes de movimentos de moradia da região central paulista por extorsão e agressão no âmbito das investigações do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, em maio de 2018. Acompanhando Ednalva em sua participação na Rádio Brasil Atual, o advogado antecipa que o processo será longo, mas que agora, com a liberdade dos quatro acusados, a defesa irá se dedicar a mostrar que a denúncia apresentada pelo Ministério Público desconhece a atuação autônoma dos coletivos e traz considerações genéricas.

“O Ministério Público pega todos esses movimentos de moradia, junta, e fala que são uma grande organização criminosa, ou seja, literalmente uma criminalização da luta social, especificamente por moradia, e isso é feito com base em declarações que entendemos como mentirosas. A denúncia também  é feita de forma genérica, não individualizam como tem que ser”, contesta Martinez.

Mãe de três filhos, a militante relata que logo no dia da sua prisão foi conduzida de sua casa de forma hostil pelos policiais que a levaram para a delegacia, assustando sua família com bombas de gás lacrimogênio, que, segundo ela, teriam sido lançadas pelos agentes. “Meu filho mais novo tem 14 anos. Ele acordou assustado, vomitando, eu tentando falar com meu filho e eles não deixaram eu chegar perto. Essa foi a pior dor que eu senti, não poder dar um ‘tchau”‘, descreve.

A militante diz também que foi impedida de ter contato com a família e, agora, em liberdade, luta para reconstruí-la depois de encontrar seu marido e filhos “destroçados” e “traumatizados”. “Meus filhos não tiveram condições de continuar na escola”, explica a militante.

Ouça a entrevista completa