Democracia em Colapso?

Patricia Hill Collins, autora de ‘Pensamento Feminista Negro’, vem ao Brasil da menina Ágatha

"Mulheres negras resistem cultivando comunidades em que a vida de filhos, de entes queridos e a nossa própria importam", diz Patricia Hills. Ela estará no Sesc, que abre inscrições nesta quarta

Evelson de Freitas e Bruno Ilna/Olhar Complexo
Patricia Hill chegará ao Brasil semanas depois do assassinato da menina Agatha Vitória Félix

São Paulo – Quando Patricia Hill Collins publicou, em 1990, o livro Pensamento Feminista Negro, sua mãe já havia morrido. Filha única de Eunice, uma secretária, e Anthony, um trabalhador de fábrica, Patricia foi a primeira mulher negra a presidir a Associação Americana de Sociologia, em mais de 100 anos de história da entidade. Mas isso sua mãe também não viu. A autora relata que conforme ia escrevendo, falava com ela, por ela e para além dela, “honrando sua memória conforme criava um futuro para mim e para as mulheres e meninas negras, um futuro com o qual ela não teria ousado sonhar para si própria”.

Professora e filósofa, Patricia Hill Collins estará no Brasil em outubro, como palestrante do evento Democracia em Colapso?, parceria do Sesc São Paulo e da editora Boitempo, responsável pelo lançamento de Pensamento Feminista Negro em língua portuguesa. A RBA está entre os veículos correalizadores do evento.

Na edição de 1990, Collins relata no prefácio que aos 5 anos de idade foi escolhida para representar a Primavera no desfile da pré-escola. “Estar rodeada de crianças como eu – filhas e filhos de trabalhadores – afirmava quem eu era”, lembra. Seu bom desempenho a fez sentir-se importante: “Meus pensamentos, sentimentos e conquistas tinham valor”.

Mas, à medida que seu mundo se ampliou, relata, aprendeu que nem todos concordavam com isso. “Fui percebendo que eu era cada vez mais a ‘primeira’, ‘uma das poucas’ ou a ‘única’ afro-americana e/ou mulher e/ou pessoa vinda da classe trabalhadora na escola, na comunidade e no ambiente de trabalho.”

Eirin Nilsen/Universidade de Oslo

Patricia Hill Collins, ativista intelectual do feminismo negro

Vidas negras importam

A escritora observa que alguns detalhes podem ter mudado, desde que o livro foi publicado pela primeira vez, em 1990. “Mas enquanto os problemas sociais enfrentados pelas mulheres negras continuarem a existir, a resistência das mulheres negras persistirá”, afirma. “As mulheres negras resistem, seja compartilhando pequenos momentos de amor umas com as outras na vida cotidiana, seja cultivando comunidades nas quais a vida de nossos filhos, de nossos entes queridos e nossa própria vida importam…”

Patricia chegará ao Brasil semanas depois do assassinato da menina Agatha Vitória Félix. E provavelmente saberá que a menina, também negra e filha de trabalhadores, crescia com a dedicação de seus pais na comunidade Fazendinha, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. Que fazia inglês, balé, era ótima aluna. E talvez tenha até interpretado a Primavera alguma vez na escola.

Há menos de um mês do seminário, é impossível não pensar se, em um mundo onde democracia e oportunidades iguais andassem de mãos dadas, a menina de 8 anos talvez pudesse ter-se tornado uma liderança em sua comunidade, talvez professora, escritora, bailarina. Mas sua mãe não poderá ver nada disso. Agatha foi a 16ª criança morta por arma de fogo no Grande Rio, desde que o governador Wilson Witzel (PSC), eleito com o apoio do presidente Jair Bolsonaro (PSL), assumiu o poder estimulando ações policiais de extermínio.

Inscrições abertas nesta quarta (25)

Não por acaso, o feminismo, mais especificamente o feminismo negro, tem papel de destaque nos debates do seminário que reunirá cerca de 50 convidados nacionais e internacionais, entre eles as escritoras Angela Davis e Silvia Federici. Confira a programação completa do evento que vai da terça-feira, 15 de outubro, a sábado (19) no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195).

O seminário internacional Democracia em Colapso? tem inscrições abertas a partir das 14h desta quarta-feira (25), no site do Sesc e nas centrais de atendimento de todas as unidades no estado de São Paulo. Serão duas modalidades de inscrição: para o curso A democracia pode ser assim: história, formas e possibilidades e para o ciclo de debates. Em ambos os casos, haverá certificado para os participantes que apresentem no mínimo 75% de presença.

Os organizadores informam que as vagas costumam ser rapidamente esgotadas. Então, quem quiser participar do seminário deve ficar atento.

Os valores para o curso vão de R$ 18 (credencial plena do Sesc), R$ 30 (meia para estudantes, servidor de escola pública, mais de 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência) a R$ 60 (inteira). Para o ciclo de debates os valores serão de R$ 27, R$ 45 e R$ 90,  respectivamente. Serão vendidos também ingressos avulsos nos dias dos debates, na bilheteria do Sesc Pinheiros, caso ainda existam lugares disponíveis: a R$ 12, R$ 20 e R$ 40.

É admitida apenas uma inscrição por pessoa, seja pelo site, seja nas unidades do Sesc. O pagamento on-line só pode ser feito com cartão de crédito; pagamento em débito ou dinheiro somente nas unidades do Sesc. Para quem fizer inscrições com meia entrada ou credencial do Sesc, o comprovante e a carteirinha deverão ser obrigatoriamente apresentados no dia do evento. Caso haja disponibilidade, ingressos avulsos para os debates serão vendidos a partir de 9 de outubro, pelo portal Meu Sesc (apenas neste casos, será necessário cadastro prévio no site do Sesc).