Doria e Covas

Prefeitura gastou um terço da verba de combate a enchentes em dois anos

Manhã foi complicada na capital, com interdição da Marginal Tietê e outras vias, e quilômetros de congestionamento. "Foi uma opção política", diz urbanista

Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress)
Por conta dos alagamentos, a Marginal Tietê permaneceu intransitável por toda a manhã, dificultando a vida dos paulistanos

São Paulo – Em 2017 e 2018, a gestão do ex-prefeito e atual governador João Doria e de seu sucessor, Bruno Covas, ambos do PSDB, gastou cerca de um terço de toda a verba orçada para combate a enchentes e alagamentos na cidade de São Paulo. De R$ 824 milhões destinados à realização de drenagens, só R$ 279 milhões (38%) foram gastos. Em obras e monitoramento de enchentes, estavam previstos R$ 575 milhões, mas apenas R$ 222 milhões (35%) foram gastos. Hoje, mais uma vez os paulistanos sofreram com a interdição quase total da Marginal Tietê nos dois sentidos, várias outras vias alagadas e longos congestionamentos.

Às 9h, a cidade ainda registrava quase 100 quilômetros de congestionamentos, apesar do período de férias. O rodízio de veículos foi suspenso e carros com placas de final 9 e 0 puderam circular antes das 10h. Mas não há garantia de que o rodízio será suspenso à tarde – e quem pôde sair de carro de manhã ainda não sabe de terá de circular antes das 17h ou depois das 20h.

A cidade tem outros 20 pontos de alagamento, além de interdição de um trecho da Rodovia Anhanguera. A gestão Covas culpou a chuva. “Nas últimas 24 horas choveu 85 milímetros, quase o dobro do esperado para o mês”, disse o secretário municipal de Mobilidade e Transportes de São Paulo, Edson Caram.

Apenas em 2016, a gestão de Fernando Haddad (PT) gastou R$ 393 milhões da verba de combate a enchentes. O ex-prefeito também iniciou as obras de 26 piscinões, dos quais três foram entregues, 15 estão com as obras em ritmo lento e oito estão paralisados desde que Doria e Covas assumiram a prefeitura. O investimento foi praticamente zerado na área em 2017 e 2018.

A gestão tucana culpa o governo federal pela falta de repasses para conclusão das obras. O que não explica: se há projetos e dois terços do orçamento à disposição, por que a verba não foi utilizada? O gasto com recapeamento de vias, por exemplo,  foi multiplicado seis vezes entre 2017 e 2018: de R$ 44 milhões para R$ 293 milhões.

A urbanista Raquel Rolnik avalia que as enchentes em São Paulo são uma opção política. “Examinando os números da execução orçamentária da prefeitura de São Paulo fica clara não a falta de recursos, mas a decisão do que deve ser priorizado. No caso de São Paulo foram simplesmente zerados os investimentos em obras de combate a enchentes e uma enorme soma foi mobilizada para pavimentação de vias – aliás concentrada em 2018. Parece então que estas – e as enchentes que virão a cada ano – não são uma fatalidade divina, mas claros produtos de opções de política urbana”, escreveu em artigo recente.

Além das ações e obras para combate a enchentes, Doria e Covas também reduziram os gastos com a varrição de ruas, a quantidade de lixo recolhido e a capinação. A coleta de lixo foi reduzia em, aproximadamente, 15%, em 2018. Varrição, capinação e lavagem de ruas foram reduzidas em 19%, no mesmo ano. Ao mesmo tempo, as reclamações por falta de limpeza, por meio da Central 156, subiram 30%. Na sexta-feira, Covas pediu licença da prefeitura por sete dias, “por motivos pessoais”.

Apesar de Doria e Covas alegarem problemas financeiros, ambos foram beneficiados com um significativo aumento da arrecadação de impostos. Entre 2016 e 2018, as receitas correntes – IPTU, ISS, ITBI, ICMS, IPVA – cresceram 12,5%, no conjunto. Apesar disso, a gestão Covas manteve baixos os investimentos na cidade, em áreas como saúde, educação, controle de enchentes, transporte e também os serviços realizados pelas subprefeituras. O caixa da prefeitura, porém, chegou a receber R$ 7,3 bilhões, maior valor dos últimos seis anos.