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Cumplicidade

Bolsonaro mente, diz irmão de desaparecido político. Filho de Herzog pede indiciamento do presidente

Advogado Marcelo Santa Cruz se emocionou ao lembrar do irmão, que desapareceu em 1974. E o filho de Vladimir Herzog, morto pela ditadura em 1975, afirma que presidente passou todos os limites
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
18:38
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Reprodução Facebook

Para Marcelo, irmão de desaparecido político, declaração de Bolsonaro mostra crueldade e irresponsabilidade

São Paulo – O advogado Marcelo Santa Cruz, irmão do desaparecido político Fernando Santa Cruz, citado ontem por Jair Bolsonaro, afirmou nesta terça-feira (31) em Recife que o presidente da República age com crueldade e irresponsabilidade em suas declarações, além de mentir. Também hoje, Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, disse que o presidente  age como se a República fosse o quintal da sua casa e se dirige à população como se fosse a seus amigos “embriagados, dementes!”

Marcelo Santa Cruz lembrou que a versão oficial sobre o desaparecimento de Fernando, em fevereiro de 1974, atesta que ele foi morto sob ação violenta de agentes do Estado. Um novo atestado de óbito ratifica essa versão – e será, inclusive, tema de sessão solene no mês que vem, na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

“Nossa família sempre foi marcada pela perseguição política”, disse Marcelo, em entrevista coletiva na tarde de hoje. Ele lembrou que foi expulso da Faculdade de Direito e que sua irmã Rosalina permaneceu um ano presa, sendo “barbaramente torturada”. Por fim, Fernando, quinto de 10 irmãos, foi preso pelo DOI-Codi no Rio de Janeiro e nunca mais foi encontrado. “O que ele (Bolsonaro) falou é de uma crueldade sem tamanho. A agressão não tem limite, é de uma irresponsabilidade a toda prova.”

Marcelo, Fernando e Rosalina são filhos de Elzita Santa Cruz, que morreu há pouco mais de um mês, em 25 de junho, aos 105 anos. Desde 1974, ela tentou descobrir o paradeiro de seu filho. “É como se Fernando tivesse sido morto outra vez”, disse ainda Marcelo sobre a fala do presidente.

Durante a entrevista coletiva, ele lembrou de depoimento de Jair Ferreira de Sá, dirigente da Ação Popular – organização em que seu irmão militava –, dizendo que devia a vida a Fernando Santa Cruz. E se emocionou ao lembrar que outra militante, Doralina Carvalho, deu a seu filho o nome de Fernando, para homenageá-lo. O advogado e ex-vereador lembrou que Fernando, com 26 anos quando preso, tinha militância política, mas não era clandestino – era casado e trabalhava.

Herzog: basta!

“Tudo tem um limite. A fala do presidente afirmando saber o aconteceu a Fernando Santa Cruz Oliveira passa deste limite”, afirma Ivo Herzog, em rede social. “O atual presidente do Brasil age como se o país fosse o quintal da sua casa e, a população, seus amigos embriagados, dementes!”, acrescentou o filho do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, morto sob tortura em outubro de 1975, no DOI-Codi de São Paulo.

Ele lembrou que o Brasil já foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por crimes de lesa-humanidade.  “O chefe desta Nação afirma publicamente que sabe como foram cometidos esses crimes. Não há imunidade àqueles autores de tais atrocidades”, diz Ivo, para quem Bolsonaro deve ser indiciado “por cumplicidade , ocultação de cadáver e outros crimes relacionados a morte de Fernando Santa Cruz Oliveira e outras vítimas”.

“O Brasil é uma democracia com instituições fortes e consolidadas”, afirma ainda Ivo Herzog, presidente do conselho deliberativo do instituto que leva o nome do pai. “Que o Poder Judiciário convoque Jair Bolsonaro para depor sobre seu conhecimento em relação aos crimes cometidos na Ditadura. Que o Poder Legislativo, nas suas duas casas – Câmara dos Deputados e Senado Federal, convoquem Jair Bolsonaro para depor sobre seu conhecimento em relação aos crimes cometidos na Ditadura. Ou que estas instituições se embriaguem no Jardim de Jair Bolsonaro. Basta!”