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Assassinato de liderança indígena revela: Bolsonaro ‘cria ódio contra essas populações’

Ex-governador do Amapá João Capiberibe diz que presidente impulsiona onda de ataques, ao defender exploradores das terras indígenas e atacar os direitos dos povos originários. Etnia Wajãpi denunciou neste sábado invasão de garimpeiros e morte de cacique
Publicado por Clara Assunção
11:44
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Rede de Cooperação Amazônica (RCA)

De acordo com relatos dos indígenas, criminosos, fortemente armados, estão fazendo incursões para expulsar indígenas de seu próprio território

São Paulo – Indígenas da etnia Wajãpi denunciaram neste sábado (26) o assassinato do cacique Emyra Wajãpi, de 68 anos, resultado de um violento ataque de garimpeiros em Pedra Branca do Amapari, no oeste do Amapá. As informações, ainda iniciais, apontam para um grupo de 15 invasores, portando armas de grosso calibre, que estariam tentando intimidar os índios da região para tomar a aldeia, de acordo com documento interno da Fundação Nacional do Índio (Funai) obtido pelo jornal Folha de S. Paulo.

A Funai e as polícias federal e militar chegaram à região no sábado pela manhã para apurar a morte do cacique e as denúncias de invasão relatadas pelos indígenas. Revoltados com a onda de violência que cresce nas comunidades tradicionais, diversos artistas, políticos e intelectuais fizeram apelos às autoridades para que se investigue o assassinato e deem respaldo ao pedido de socorro enviado pelos Wajãpi.

“Eu peço às autoridades brasileiras que em nome da dignidade do Brasil no mundo, ouçam esse grito”, declarou o cantor e compositor Caetano Veloso em um vídeo divulgado em suas redes sociais. A jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, entrevistou nesta segunda (29) o ex-governador do Amapá João Capiberipe. Em contato com o cacique Viceni Waiãpi, ele acredita que os invasores não são garimpeiros e diz que os relatos confirmam que eles estão armados com metralhadoras. “Não é apenas uma invasão, é um grupo de bandidos que assassinaram e aterrorizaram mulheres e crianças”, afirma.

Clima de ódio

Segundo Capiberipe, à época da ditadura civil-militar, os Wajãpi sofreram um genocídio e desde que suas terras indígenas foram reconhecidas, em 1995, a população estava se reconstituindo. Apenas em 2016, com uma medida do governo de Michel Temer que visava a utilização da área para exploração de minérios, os indígenas sentiram-se desprotegidos. Ameaça que volta a cercá-los, mesmo após a anulação do decreto, com o governo Bolsonaro.

No mesmo dia em que o crime ocorreu, Bolsonaro chegou a defender a exploração de minérios em terras indígenas. “Quando o presidente do país dá essas declarações preconceituosas, ele cria ódio contra essas populações. Não há democracia sem respeito às diferenças”, avalia o ex-governador do Amapá.

Em nota de pesar e repúdio aos ataques, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) alertou que os “discursos de ódio e agressão do presidente e demais representantes de seu governo servem de combustível e estimulam a invasão, o esbulho territorial e ações violentas contra os povos indígenas”. Outros órgãos,, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), também manifestaram preocupação com o crime e cobraram providências por parte das autoridades brasileiras.

A violência contra os índios vem crescendo desde 2017, de acordo com Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, mas sofre um acirramento durante o governo Bolsonaro. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostra ainda que houve expansão dos focos de garimpo ilegal no Norte, além de um aumento do desmatamento a partir de janeiro deste ano. Durante audiências com o Ministério da Justiça e da Defesa, o líder indígena da etnia Yanomami, David Kopenawa, alertou que a invasão de garimpeiros chegava a envolver 20 mil pessoas. Atrás de ouro e diamante, esses grupos ilegais se espalham pela região firmando inclusive casas improvisadas.

Com a iminência de um conflito, os indígenas Wajãpi foram forçados a se refugiar na terra vizinha Marity.

Ouça a entrevista completa