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Dois anos após Doria ter dito que ‘acabou’ a Cracolândia, nada mudou na região

Declaração marcou início da gestão do atual governador na prefeitura. 'Ele deixa a herança da sua ideologia e da falta de preparo para lidar com aquelas questões', diz presidente do Condepe
Publicado por Redação RBA
15:58
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Eduardo Ogata/Secom
Doria na Cracolândia

Para coordenador da ONG É de Lei, projeto anunciado por Doria nunca aconteceu na prática.

São Paulo — Em maio de 2017, o então prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), declarou que o “fluxo” da região conhecida como Cracolândia, no centro da capital paulista, tinha “acabado”. Em 2019, porém, a realidade desmente o atual governador. Na ocasião, Doria substituiu o programa De Braços Abertos, implementado na gestão de Fernando Haddad (PT), pelo projeto Redenção, também com a proposta de acolher a população em situação de rua e com dependência química, porém sem o viés da redução de danos do programa do seu antecessor. Mas os resultados, até o momento, não vieram.

“É um programa que sempre foi apresentado com uma estrutura definida, mas que nunca vimos acontecer na prática. Vimos acontecer, por parte da assistência social, uma descaracterização dos serviços que já existiam, os centros de acolhida, com a implementação dos CTAs, os Centros Temporários de Acolhimento”, explica Leoncio Nascimento, coordenador de Práticas em Redução de Danos da Casa de Convivência É de Lei, em entrevista para a repórter Ana Carrara, da Rádio Brasil Atual

“A mesma coisa aconteceu com o consultório na rua, que recebeu um novo nome, as equipes que trabalhavam foram todas demitidas, sem haver uma articulação entre assistência e saúde. Todas as estratégias tentadas foram construídas de cima para baixo, por pessoas que não tinham contato com o território, e desconsideraram todo um trabalho de vários profissionais de diversos setores, substituindo essas pessoas que já tinham conhecimento da particularidade desse território”, afirma Leoncio Nascimento. 

Para Patrícia Ferreira da Silva, vice-presidenta do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (Cress-SP), o projeto da prefeitura de São Paulo na gestão dos tucanos João Doria/Bruno Covas, vai na contramão do que indica a reforma psiquiátrica. “Esse projeto acaba inviabilizando a implementação da rede de assistência psicossocial, prevista na reforma psiquiátrica. Então a avaliação do Conselho sobre o projeto Redenção é das piores, no sentido, inclusive, da precarização da política pública em saúde mental”, avalia Patrícia Ferreira.

Já segundo o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Dimitri Sales, o projeto de Doria não teve a intenção de incorporar os dependentes químicos como cidadãos, tendo agido de modo irresponsável e movido somente por ideologia. “Ele extinguiu o De Braços Abertos, um programa que apostava na redução de danos, na recuperação da consciência de cidadania dos sujeitos e podia ser um programa passível de críticas, como são todos os outros. Mas (Doria) deixa a herança da sua ideologia e da falta de preparo para lidar com aquelas questões para o seu sucessor Bruno Covas, que não apresenta uma alternativa eficaz para o problema e tão somente prossegue com uma política de violação de direitos, acirrando a violência praticada pela Guarda Civil Metropolitana”, critica o presidente do Condepe.

Ouça a íntegra da reportagem