Antes da despedida

Espero que as pessoas encontrem na fé um lugar seguro, disse Sabrina Bittencourt

No dia de em que foi noticiada sua morte por suicídio, ativista falou a ato inter-religioso: “Gostaria que as pessoas, ao professar sua fé, tenham segurança de que nada de mal vai acontecer”

Mariko Hanashiro
Sabrina Bittencourt

Lutar contra toda forma de religião que oprime e abusa dos corpos das mulheres é honrar a vida de Sabrina

São Paulo – A última participação, num ato público, da ativista Sabrina de Campos Bittencourt foi em uma roda de conversa com o tema “Meu corpo, minha Fé –Violências e abusos da religião”. Sua intervenção se deu através do Facebook e ocorreu no sábado (2), mesmo dia em que foi anunciada sua morte por suicídio.

Responsável por denunciar episódios de abuso sexual e tráfico de pessoas – incluindo relacionados ao guru Prem Baba e ao médium João de Deus, de Abadiânia (GO) – a circunstância acabou fazendo de Sabrina o principal destaque do evento promovido pelo organização Koinonia Presença Ecumênica. 

Cerca de 130 pessoas lotaram, o espaço, no Centro de São Paulo. A iniciativa do evento partiu de coletivos como Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) e Rede Ecumênica da Juventude de São Paulo (Reju), com o apoio da própria Koinonia e da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Sabrina já havia revelado ter sido abusada desde os 4 anos por membros e líderes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias, conhecida como Igreja Mórmon, que frequentava com a família. Aos 16 anos ficou grávida de um dos estupradores, gravidez que abortou.

Passou a juventude atuando, como ativista, na defesa de mulheres vitimadas por líderes religiosos. Ajudou a criar a ONG Vitimas Unidas, que só no Brasil já recolheu 185 denúncias contra 13 líderes espirituais e que estão sendo apuradas pela Justiça. “Gostaria de deixar claro que meu interesse não é acabar com nenhuma religião. Ao contrário. Gostaria que as pessoas, ao professarem sua fé, possam ter essa segurança e certeza de que ali é um lugar seguro, que nada de mal vai acontecer com elas”, explicou.

As denominações religiosas, defende ela, deveriam criar fundos para o atendimento de vítimas de abusos, e formar equipes técnicas, com a presença de assistentes sociais, psicólogas e advogadas. Sabrina propõe, no vídeo feito exclusivamente para o encontro, a criação de protocolos e manuais no combate à violência sexual dentro das igrejas. E sugere um conselho laico e inter-religioso onde as vítimas sejam acolhidas e atendidas, e não julgadas.

MARIKO HANASHIROAngélica Tostes
Tostes defendeu a criação redes de apoio para mulheres abusadas

Para uma das organizadoras do encontro, Angélica Tostes, 25, a participação de Sabrina foi muito significativa. “Acho que é a dimensão de continuidade. Nós, como religiosas e religiosos, devemos continuar essa luta contra toda forma de religião que oprime e abusa dos corpos das mulheres. É honrar a luta, a vida de Sabrina. Ela não está sozinha”, disse, ainda envolta a um sentimento de perplexidade e tristeza. “Devemos acolher as vítimas, como foi a sua última fala. Como nós devemos criar essas redes de apoio dentro dos nossos próprios movimentos… isso é importante pensarmos”, completou. 

Maioria de evangélicas

De acordo com a assistente social e ativista da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Priscila Queiroz, 30, a maioria das mulheres que procura o serviço do Centro de Defesa e Convivência da Mulher, onde trabalha, na zona leste de São Paulo, é formada por evangélicas. “Fiz um pequeno levantamento de janeiro (2019) das mulheres que atendemos. Das 25 mulheres que entraram na primeira vez na casa procurando o serviço, cinco declararam não ter religião, três se declararam católicas e 17 se denominaram evangélicas.”

MARIKO HANASHIROMeu Corpo, Minha Fé
Autoridade religiosa é uma autoridade quase divina

Para a freira católica Ivone Gebara, filósofa e teóloga feminista, há uma entrega do controle das crenças às figuras masculinas que representam a divindade. “Por isso uma autoridade religiosa é uma autoridade quase divina. A gente transforma aquele que é semelhante a mim em alguém que tem autoridade sobre mim”, destaca.

“Quando a gente encontra representantes religiosos que são tratados como ‘donos da verdade’ no espaço religioso, ou na sua religião específica, eles conseguem colocar as pessoas em situação de vulnerabilidade. A pessoa fica vulnerável a uma pressão e acaba cedendo”, completou a historiadora Samantha Lodi, comunicóloga, doutora em Educação, membro da ABPE (Associação Brasileira de Pedagogia Espírita) e do Coletivo Educacional de Mulheres Maria Lacerda de Moura.

O encontro teve participação de outras representantes religiosas, como Iyá Adriana de Nanã, zeladora do Ilê Axé Omó Nanã e integrante da Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz; Sarah De Roure, da Christian Aid Brasil; Valéria Vilhena, teóloga feminista, pesquisadora e fundadora da Evangélicas pela Igualdade de Gênero; Ester Lisboa e Natália Blanco, do projeto Rede Religiosa de Proteção à Mulher Vítima de Violência da Koinonia Presença Ecumênica.