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Agressão e censura

Eleição de 2018 fez aumentar a violência contra jornalistas

Segundo relatório, foram 135 casos, envolvendo 227 profissionais. Um deles morreu. Greve dos caminhoneiros também contribuiu para o número crescente. Eleitores superaram policiais entre os agressores
Publicado por Redação RBA
15:37
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Brasil de Fato
atentado caravana

Atentado contra ônibus da Caravana de Lula foi mencionado no relatório

São Paulo – As eleições do ano passado contribuíram para aumentar a violência contra jornalistas no Brasil, segundo o Relatório Violência e Liberdade de Imprensa, apresentado hoje (18) pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). O total de ocorrências chegou a 135, crescimento de 36,36% em relação a 2017, e atingiu 227 profissionais. Um deles foi assassinado: Ueliton Bayer Brizon, editor do site Jornal de Rondônia, morto a tiros há um ano.

Embora não faça parte do total de ocorrências registradas no relatório, houve também assassinatos de outros profissionais ligados à comunicação. Em 2018, quatro radialistas foram mortos, na Bahia, em Goiás, no Pará e na Paraíba.

Segundo o documento, “os números mostram que esse incremento esteve diretamente relacionado à eleição presidencial e episódios associados a ela, como a condenação e prisão do ex-presidente Lula”. Eleitores e manifestantes foram apontados como os principais agressores, com 30 casos de violência contra jornalistas (22,22% do total). Nesse grupo, os partidários de Jair Bolsonaro estiveram envolvidos em 23 casos e os de Luiz Inácio Lula da Silva, que não pôde se candidatar, nos outros sete. 

Agressões físicas representaram o ato mais comum de violência, com 33 casos e 58 vítimas, quase 14% a mais. Cresceu bastante, às vezes mais de 100%, o número de agressões verbais (27 episódios), ameaças e intimidações (28) e impedimentos diversos ao exercício da profissão (19).

Como houve casos em que mais de um trabalhador da comunicação foi atingido, o número de vítimas é maior que o de ocorrências. O relatório lembra o episódio do atentado à chamada Caravana Lula, no interior do Paraná, em que um ônibus foi atingido por balas. Havia 27 jornalistas no veículo.

Outro episódio que impulsionou as ocorrências foi o movimento dos caminhoneiros, em meados do ano. De acordo com o relatório, eles ficaram em segundo lugar na lista, com 23 casos, 17,04% do total.

Com isso, mudou a “liderança” entre os agressores. Os principais autores de violência, em 2018, foram manifestantes favoráveis a um candidato, que agrediram jornalistas durante eventos públicos. De 2013 a 2017, o topo era ocupado por policiais militares e/ou guardas municipais.

Sem apreço pela democracia

“Caminhoneiros e eleitores/manifestantes foram os responsáveis pelo crescimento significativo do número de agressões físicas, agressões verbais, ameaças/intimidações e impedimentos ao exercício profissional. Isso é uma demonstração inequívoca de que grupos e segmentos não toleram a divergência e a crítica e não têm apreço pela democracia”, afirma, na abertura do texto, a presidenta da Fenaj, Maria José Braga.

Segundo ela, os jornalistas também foram vítimas de censura. “Em alguns casos a mordaça partiu das próprias empresas empregadoras, que proibiram seus profissionais de se manifestarem em redes sociais sobre questões polêmicas, política e ideologia. Na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), houve casos de censura na cobertura política e também de outros temas, como o Fórum Mundial da Água”, aponta.

Maria José cita ainda episódios envolvendo juízes e ministros do Supremo Tribunal Federal. “O caso mais emblemático foi a decisão final do presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, de proibir jornalistas de entrevistar o ex-presidente Lula e os veículos de comunicação de divulgar entrevistas que tivessem sido realizadas.”

O Sudeste, onde há maior concentração de profissionais, é também a mais violenta para o exercício da profissão. A região teve 53 ocorrências, 39,26% dos casos do ano passado. Apenas no estado de São Paulo, foram 28, ante 16 no Rio de Janeiro. (Confira mapa que acompanha este texto.)

A maior parte dos casos envolve homens: 105 profissionais foram agredidos em 2018, enquanto 30 mulheres sofreram algum tipo de violência. Segundo a Fenaj, em algumas ocorrências não foi possível identificar os envolvidos ou o episódio envolveu equipes que não tiveram os nomes divulgados. 

Jornalistas a serviço de emissoras de TV foram os mais agredidos, conforme o relatório: 77 deles sofreram com a violência (39,29% do total). Depois vêm os profissionais de jornais, com 41 casos, e aqueles que trabalham em portais, sites e blogs, com 25. Profissionais de rádio somam 17 episódios. Nem todos foram identificados.