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Debate sobre 50 anos do AI-5 faz comparações com Brasil pós-eleições

Figuras emblemáticas da luta por direitos humanos se dizem preocupados com a oposição ao futuro governo e acirramento de prisões arbitrárias

MEMORIAL DA DEMOCRACIA
50 anos do AI-5

Adriano Diogo, ex-deputado que presidiu a Comissão da Verdade de SP, define o AI-5 como ‘o golpe dentro do golpe’

São Paulo – O Centro Acadêmico Visconde de Cairu, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, promoveu nessa quinta-feira (22) o debate 50 anos do AI-5: ditadura nunca mais’, reunindo figuras emblemáticas da luta por direitos humanos no Brasil.

Participaram do evento Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, assassinado por agentes da ditadura militar em 1975, o jornalista Juca Kfouri e o ex-deputado Adriano Diogo (PT).

Os debatedores falaram sobre algumas das consequências do Ato Institucional 5, decretado no dia 13 de dezembro de 1968 pelo então general Arthur da Costa e Silva. Além disso, foi feito um paralelo do período sombrio do autoritarismo com o Brasil pós-eleições de 2018.

Francisco Grenmaund, vice-presidente do Centro Acadêmico, destaca que lembrar o AI-5 é importante para que as novas gerações não permitam que algo parecido se repita. “A gente, como integrante do movimento estudantil, tem como função resistir e lembrar o que foi a ditadura militar, sem esquecer dos tempos sombrios, para lutar contra os desafios que virão”, afirma, em entrevista à repórter Ana Rosa Carrara, da Rádio Brasil Atual.

O atual cenário político no Brasil traz a perspectiva de um retorno do cerceamento das liberdades, analisa Leda Maria Paulani, economista e professora da FEA.

“Se gente tem que falar novamente ‘ditadura nunca mais’ é porque isso nos ameaça de alguma forma. Acho que, infelizmente, o presidente eleito não tem apreço pela democracia, além do que a liberdade de pensamento será uma coisa deixada de lado, na melhor das hipóteses”, explica Leda.

O jornalista Juca Kfouri faz uma comparação do AI-5 com o golpe em curso desde 2016, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi destituída do cargo. “O golpe de 2016 foi patrocinado pelas instituições jurídicas, mídias e o Congresso, como o capital financeiro promove seus golpes no mundo. A melhor coisa que aconteceu nas eleições foi na última semana, quando de forma voluntária, houve uma grande mobilização nas ruas, o que mostra nossa capacidade de reagir.”

Por outro lado, Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog que foi assassinado por militares durante a ditadura, lembra a postura do pai quando tomou conhecimento do AI-5 e destacou que o momento atual pede a construção de uma frente democrática no Brasil.

“Em junho de 68 meu pai foi para a Itália fazer um curso de cinema. Na semana em que voltaria teve o AI-5, então os amigos disseram para ele dar mais um tempo. Meu pai disse que seria mais um motivo para voltar. Para a geração futura, não basta só uma frente democrática, é preciso uma agenda ideológica, mostrando os valores que defendemos”, finaliza Ivo.

Ouça a reportagem a partir do 1:03:08