Moradia

Virada cultural na ocupação Nove de Julho terá lançamento de Ana Cañas

Evento no domingo oferece arte, cultura, encontros e gastronomia. E debate as ocupações como instrumento de transformação solidária do espaço urbano e das cidades

Reprodução/Ana Cañas
Ana Cañas Ocupação Nove de Julho

Clipe da música ‘Viverei’ foi gravado na Nove de Julho

São Paulo – A ocupação Nove de Julho e as ocupações artísticas Casa Amarela Quilombo Afroguarany e Ouvidor 63 – todas na região central de São Paulo – promovem neste domingo (20) eventos artísticos culturais paralelos à Virada Cultural da cidade. As atividades, organizadas com apoio do Comitê de Usuários da Praça Roosevelt de Todos, começam às 11h e devem se estender até as 22h, no prédio habitado por 121 famílias, na Rua Álvaro de Carvalho, 427, a poucos metros do corredor de ônibus da avenida que dá nome à ocupação, organizada pelo Movimento Sem Teto do Centro (MSTC).

Os movimentos populares por moradia travam uma batalha de “narrativas” com a imprensa comercial intensificada após o incêndio e desabamento do edifício Wilton Paes de Andrade, no dia 1º.

Desde então, jornais, revistas, emissoras e sites, que tradicionalmente têm como anunciantes grandes corporações imobiliárias, vêm produzindo reportagens enviesadas, com objetivo de criminalizar lideranças populares e jogar a opinião pública contra os movimentos.

“A intenção é trazer a comunidade para conhecer a ocupação, para tirar um pouco o estigma e a mistificação existentes, e mostrar que é um local seguro, saudável, que preza pela qualidade de vida de quem mora, e que gosta de se relacionar bem com a comunidade do entorno”, diz André Chiarati, voluntário na ocupação Nove de Julho e na organização da “virada”. 

Um dos objetivos das atividades deste domingo é fortalecer o ponto de vista desses movimentos nessa “guerra” da informação. O público poderá ver a ocupação como ela é, ter acesso a diversas atividades. Exposição, oficina de cartazes, de bonecas e até de hip hop, projeção de filmes, debates com moradores de ocupações e especialistas em desenvolvimento urbano, momentos gastronômicos, apresentações musicais estão entre as atrações, planejadas para agradar pessoas de todas as idades, especialmente crianças e jovens.

André destaca a visita guiada com os professores da Escola da Cidade e sobre a exposição que conta um pouco da história do movimento. “A partir do momento que você entra, já se consegue ver como era antes e como está agora, além de alguns dados relevantes sobre as ocupações em São Paulo, como o número de prédios vazios e de famílias sem-teto.

“Os movimentos sociais têm uma atuação legítima em defesa do direito à cidade. Quando o arquiteto e a academia se aproximam deles, se aproxima do compromisso com a vida”, diz a arquiteta e urbanista Carla Caffé, professora da Escola da Cidade, faculdade que tem uma plataforma inclusiva situada na Rua General Jardim.

Para ela, a ocupação de áreas abandonadas que violam a função social da propriedade são um meio criativo de melhorar a vida no centro. “A cidade não existe para servir só quem tem o dinheiro. Sem inclusão, se não for para todos os estratos sociais, a cidade não funciona.”

Segundo os organizadores, a arte, a cultura, os encontros e a ocupação inteligente e solidária do espaço urbano é uma das formas mais eficazes de promover o avanço civilizatório e a transformação das cidades.

De perto é todo mundo normal

A cineasta Eliane Caffé, irmã de Carla, tomou conhecimento da realidade e do componente humano de uma ocupação durante a produção do filme Era o Hotel Cambridge (2016). E nunca mais saiu desse ambiente. O longa envolve personagens ficcionais e reais da ocupação de um antigo hotel abandonado, a pouco metros do Nove de Julho. Segundo ela, ao abrir as portas para o público de fora tomar contato com a vida dentro de uma ocupação, a “virada” promove uma interação “da melhor forma possível”: por meio da cultura e da arte.

“Numa ocupação estão faxineiros, garis, motoristas, porteiros, eletricistas, encanadores, mecânicos, artesãos. Pessoas com menos oportunidades na vida do que os filhos da classe média, mas sem cujos serviços a classe média não vive. No entanto, essa classe média os desconhece”, observa Eliane. 

“É lamentável que numa sociedade com divisão tão acentuada de visões, alimentada por uma impressa que estimula o ódio, a classe não tenha condições de desenvolver um pensamento próprio sobre essa realidade. É sempre induzida. Então, nada melhor do que essa oportunidade de ver e conviver para se abrir para uma nova percepção, em possam pensar com menos violência para as soluções urbanas”, diz a cineasta 

A cantora Ana Cañas, uma das convidadas da agenda musical, compôs uma canção inspirada na história do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e fará na ocupação o lançamento oficial do clipe de Viverei. “A igualdade é uma ideia/ Que nunca se aprisiona/ Tem a veia aberta/ Da gente que sonha”, diz trecho da letra. 

“Ela gravou o clipe lá, com as pessoas da ocupação Nove de Julho. É um clipe de arrepiar. A letra (abaixo) é quase um hino, porque evoca esse sentimento de resistência”, detalha André. 

Colaborou Tiago Pereira, da RBA

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Confira a programação:

Palco Nove de Julho

11h-22h – Exposição: Ocupar Resistir Construir Morar – térreo As palavras de ordem que identificavam o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) nos anos 90 batizam a exposição fotográfica e cartográfica do urbanista belga Jeroen Stevens.

11h – Roda de leitura com o escritor Sidney Bretanha do livro infantil e juvenil E se eu fosse outros?. Sidney conta de maneira leve o que é o amor sob a ótica de Fernando Pessoa em uma linguagem encantadora para crianças e jovens.

12h-17h – Almoço na Ocupação – feijoada tradicional e vegana valor R$ 15 e R$ 7 para quem é da Ocupação. Há opção para viagem.

Quem vai comandar a cozinha é a Cacá Vicente, chef especializada em eventos culturais e em cozinhar para grandes equipes. Foi ela quem comandou a feijoada gratuita para mais de 1000 pessoas na ocupação do MTST na Paulista no ano passado.

14h-15h – Para ouvir e dançar, Fernando Maynart e banda tocam ao vivo um repertório de sambas de Caetano

14h-16h – Oficina de cartazes, bandeiras e estandartes com tecidos, papéis e tintas, feita por artistas, público e afins

15h – Visita guiada: A Escola da Cidade, com os professores Carla Caffé e Luis Felipe Abbud, convida para visita guiada pela ocupação, seguida de roda de conversa

18h – Roda de conversa sobre refúgio e economia criativa Maria Nilda e Rita Nardy do projeto Deslocamento Criativo, conduzem esse bate-papo sobre imigrantes refugiados e o seu papel no desenvolvimento de uma economia criativa em São Paulo

JARDIEL CARVALHO/R.U.A FOTO COLETIVO Cambridge
A líder dos sem-teto Carmen Silva e o ator José Dumont em cena de ‘Era o Hotel Cambridge’

19h – Exibição do filme Era o Hotel Cambridge (foto) seguida de roda de conversa com a diretora Eliane Caffé, a líder do MSTC Carmen Silva (personagem do filme) e Rosana Schwartz, doutora especialista empoderamento feminino e ocupações.

21h30 – lançamento do novo clipe Viverei, de Ana Cañas, do novo single homônimo.

A artista lança seu novo clipe gravado na Ocupação, com personagens da casa, com um pocket show na sequência.

Quilombo Afroguarany Casa Amarela ocupa a 9 de Julho

15h – Oficina de bonecas Abayomi: economia solidária e ancestralidade Wanessa Sabbath conduz essa oficina voltada para crianças e mães resgatando a ancestralidade da mais antiga boneca de pano do mundo e a importância dela para a economia solidária.

16h- Oficina de hip-hop com – Hip Hop no Trem. Eles estarão se apresentando e ensinando aos interessados como a cultura do hip hop transforma vidas

Palco Ouvidor 63

Programação dos Laboratórios da Bienal do Ouvidor 63

16h – Laboratório de Teatro (3º andar) – Facilitadores: Sirius Amém, Bianca e Emer.

* Confirmar presença no email [email protected] // Sujeito a lotação (20 pessoas)

16h – Laboratório de Novas Mídias (5º andar) – Facilitadores: Juliana e Lucas

* Confirmar presença no email

[email protected] // Sujeito a lotação (20 pessoas)

Viverei
(Ana Cañas)

Mesmo que me falte o ar 
Não me calarei 
Mesmo que tirem o chão 
Em pé ainda estarei 
A luta é coração que sangra 
Bate forte a esperança 
De um povo que quer o seu direito 
Todo respeito 
E eu só lhe tenho amor 

Podem me julgar além da lei 
Podem me prender, eu andarei 
Podem inventar o que nem sei 
Podem me matar, eu viverei 

A igualdade é uma ideia 
Que nunca se aprisiona 
Tem a veia aberta 
Da gente que sonha
A liberdade é a glória
Da nossa imensa voz
Guarda na memória
É a história
Eles e nós

 

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