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Com legado de Chico Mendes, seringueiros lutam para preservar floresta

No ano em que a morte do líder seringueiro completa 30 anos, trabalhadores do Acre se reúnem para revisitar a história de ativismo na região e pensar as lutas do porvir
por Gabriel Valery, da RBA publicado 10/03/2018 11h25
No ano em que a morte do líder seringueiro completa 30 anos, trabalhadores do Acre se reúnem para revisitar a história de ativismo na região e pensar as lutas do porvir
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'Chico Mendes foi mais um que foi embora na luta pela reforma agrária, por não se proletarizar, por um outro mundo possível'

São Paulo – "Chico Mendes foi mais um que foi embora na luta pela reforma agrária, por não se proletarizar, por um outro mundo possível." As palavras da geógrafa pesquisadora Pietra Cepero servem como introdução ao legado do seringueiro, ambientalista e ativista político acriano, assassinado em 22 de dezembro de 1988, em sua própria casa. Trinta anos se passaram e sua herança sofre ameaças constantes.

Para marcar a data e relembrar a situação dos povos da Amazônia naquela época, a livraria e biblioteca Tapera Taperá, no centro de São Paulo, recebeu personagens que participaram, e participam, ativamente, da história local. Pietra foi a responsável por mediar o encontro nesta terça-feira (6). A geógrafa passou seis anos estudando o campesinato no Acre, em especial a Reserva Extrativista Chico Mendes.

Dercy Teles da Cunha foi quem iniciou as falas durante o encontro. Em 1980, com apenas 19 anos, a agricultora e posseira foi eleita a primeira mulher presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, criado em 1977 com a ajuda de Chico Mendes. O movimento de organização dos trabalhadores, então, começava a tomar forma. A razão da reunião era a necessidade. O avanço de latifúndios ligados à agricultura e pecuária ameaçava a vida de seringueiros e indígenas, que precisavam da floresta de pé para obter seu sustento.  

O caminho de Dercy não foi fácil. Um dos problemas enfrentados logo no início de sua jornada foi o machismo dentro da própria comunidade. "Sempre digo que vivi duas ditaduras: uma militar e outra dos homens. O sindicato rural era um espaço extremamente masculino. As mulheres só participavam se fossem viúvas. Eu, além de mulher, era jovem. Foi um desafio muito grande, mas conseguimos quebrar com essa cultura de só homens na direção sindical. Quando fui presidente, o sindicato só tinha duas mulheres", contou.

Dercy Teles: "Sempre digo que vivi duas ditaduras: uma militar e outra dos homens"

Naquele momento, o país se encaminhava para o último período da ditadura civil militar (1964-1985). Começavam a eclodir movimentos e ideias de resistência. Uma delas foi aliada de Dercy na luta contra o machismo. "Com o sindicato, veio a Teologia da Libertação. Todas as lideranças tiveram sua formação graças à Teologia da Libertação. Promoviam semanas de treinamentos com análises de conjuntura, todo um estudo que nos proporcionou o conhecimento de nossa realidade (...). Os padres deram muita força para nós nesse momento, enquanto mulheres sindicalistas", disse.

"Enfrentamos muitos desafios. Como era mulher, os homens não queriam nos respeitar. Então, tinha que bater na mesa e dizer que a presidente era eu, que a deliberação era minha e que iríamos cumprir o que a assembleia e o estatuto determinavam. Fomos conquistando aliados (...), o bispo da prelazia local na época nos apoiou (mulheres) e recomendou que tínhamos competência e capacidade para as funções. E assim exercemos."

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Osmarino e Dercy no Tapera Taperá, em São Paulo

Chico Mendes: o diplomata

Ao lado de Dercy, chegou quieto e sentou-se para o debate o extrativista acriano Osmarino Amâncio Teles. Após tomar em suas mãos o microfone, o que os presentes puderam observar foi uma explosão de vigor retórico e uma grande consciência histórica e política. Osmarino foi muito próximo a Chico Mendes, ingressou na luta em defesa da floresta quando sua família foi expulsa do seringal aonde trabalhavam em 1970. Ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, cargo também ocupado por Chico Mendes, o acriano participou das negociações para a criação das reservas extrativistas no estado.

"Nosso movimento na Amazônia começou em 1976. O Chico Mendes assumiu como primeiro secretário no sindicato em 1975. Na época, o IBGE divulgou um censo falando que a Amazônia era um vazio demográfico e que precisava ser ocupada para o progresso e desenvolvimento (...). Mas ali já estava cheio de gente. Tinha muito índio, nós somos descendentes deles. Mas eles chegaram. Rasgaram estradas e desocuparam nossas terras para a criação de gado. Trouxeram chacinas, extermínios e massacres às populações de pescadores, seringueiros e indígenas", lembrou.

Entre os métodos utilizados pelos forasteiros recém-chegados, envenenamentos, incêndios criminosos e ataques com pistoleiros. "Fizeram atrocidades", afirmou Osmarino. "Em março de 1976, com ajuda do Estado, mandaram desocupar os seringais. Então, o Wilson Pinheiro chamou as famílias dos seringais e disse que não teríamos a mínima condição de viver se a floresta caísse", disse sobre o seringueiro que foi o primeiro presidente do sindicato de Brasileia, companheiro de Chico Mendes, assassinado anos antes de seu parceiro, em 1980.

"Se desmatassem a floresta, cairíamos junto das árvores. Então, fomos para o embate. Lutávamos pela reforma agrária", continuou. Osmarino conta que foi nesse cenário que começaram a chegar ambientalistas ao local, o que provocou dúvidas entre os habitantes da floresta, mas também teve sua importância estratégica. "Eles viram nosso enfrentamento. Então, começamos a pensar em uma aliança", disse.

Osmarino contou que ele, pessoalmente, era muito desconfiado dos brancos que chegavam. Outrora, sempre que apareciam, deixavam rastros de destruição entre o povo, retiravam deles o direito à terra e não deixavam outra opção se não a luta.

"Os ambientalistas explicavam para nós que existe uma camada de gelo não sei aonde que se a mata cair vai aumentar a temperatura e o mar vai subir, e o pessoal da beira mar vai ficar sem as cidades. Ora, nós estamos no meio do mato, então esse não era um problema. Também disseram que tinha um lençol no alto que tinham uns buracos nele e que a poluição ia aumentar esse buraco. Era a camada de ozônio. Então, o sol bateria direto nas pessoas brancas e ia dar câncer de pele. Bom, não trabalhávamos no sol e também não somos brancos, então não era nosso problema."

Osmarino: "Sempre tivemos o maior respeito pelo Chico Mendes (...) ele era nosso diplomata"

Osmarino contou que a ideia de alianças estratégicas partiam de Chico Mendes. "Ele dizia: 'Olha, o objetivo deles é outro. Eles estão sofrendo as consequências desse desmatamento e nós estamos sofrendo nossas consequências. Então, é importante fazer a parceria'. O Chico tinha estômago para fazer parcerias e tinha uma facilidade imensa".

"Sempre tivemos o maior respeito pelo Chico Mendes. Ele era um cara muito democrático. Tinham coisas que eu nem deixava ele assumir. Coisas mais polêmicas, eu sempre pulava na frente dele. Não queria que ele fosse atingido, porque ele era nosso diplomata. O que era para acontecer de podre, eu sempre estava na frente. Em uma guerra, precisávamos de ações. Como 30 seringueiros enfrentariam 100 pistoleiros? Tem que ter ação estratégica de luta", disse.

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Pietra: 'O Acre, um estado distante, teve uma experiência política única'

Lutas dos povos da floresta

Para a pesquisadora Pietra, o que Osmarino e Dercy trouxeram foi "um balanço de um momento único das lutas sociais, na Amazônia especialmente. O Acre, um estado distante, teve uma experiência política única e uma construção de via possível de reforma agrária na reserva extrativista, que beneficiou não só os povos da Amazônia. Ao meu ver, esse é um dos grandes frutos dessa luta, que evidencia que o campesinato brasileiro tem diferentes modos de vida".

As reservas extrativistas (Resex) foram frutos dessa luta. São áreas protegidas na floresta que podem ser utilizadas por povos originários, como seringueiros e indígenas, que utilizam do local para extrair sua subsistência, sem exploração agressiva. O objetivo básico desse projeto é manter a cultura e o sustento desses povos. A primeira delas surgiu em 1990 e tem o nome de Reserva Extrativista Chico Mendes. É lá que mora Osmarino, que participou das negociações para sua criação. Hoje, as reservas estão presentes em todas as regiões, e são administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O histórico vitorioso porém é parcial, incompleto, e está cada vez mais ameaçado. "Desde que o Chico Mendes foi para o outro lado, a tendência foi de decair o movimento e as pessoas passaram a viver da história, de contar a história, e abandonaram a base. Tivemos a conquista das reservas extrativistas, mas temos que avançar em um modelo de reforma agrária que atenda as especificidades", disse Dercy.

Mesmo antigos aliados hoje se revelam a serviço dos interesses do capital internacional, como afirmou Osmarino. "A própria WWF, que apoiou o movimento na época, hoje dá curso de como derrubar madeira. Apoia projetos que comercializam o ar como a política do mercado de carbono (...) O que eles querem é entrar nos nossos territórios para implementar biopirataria", criticou.

"Hoje, da forma como estamos vivendo, não temos saída para evitar o extermínio do potencial natural que é a Amazônia. Temos que fazer uma rebelião contra tudo que está acontecendo. Vocês imaginam o que os índios, seringueiros e quilombolas estão passando no Brasil? Os quilombos estão perdendo suas terras, mas nós vamos para a retomada (...). Vemos que aqueles que tramam contra a classe trabalhadora, seja na Amazônia, aqui, contra estudantes, donas de casa, todos os movimentos, eles não dormem. Do jeito que eles tramam, precisamos tramar para combater", disse Osmarino.

O ativista lamenta tanto a situação atual quanto do passado recente. Ele julga que os movimentos da Amazônia foram abandonados por antigos setores que surgiram da base dos trabalhadores. "Imagina a situação de hoje. O exército norte-americano fazendo revoada na Amazônia. No Maranhão, já perdemos a base de Alcântara. A Suíça se apropriando de milhares de hectares, bem como a China. Nosso potencial está indo embora faz tempo, agora em um processo acelerado. E todos ficam ao redor de pessoas achando que vão salvar a situação. Vamos ter que fechar o Brasil para balanço", completou.