Memória

Volks divulga relatório sobre ditadura. Ex-funcionários decidem não ir

Investigada pelo Ministério Público e acusada por trabalhadores, multinacional pretende anunciar apoio a entidades de direitos humanos

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Ex-funcionário da montadora, Lúcio Bellentani foi preso na fábrica em 1972 e levado para o Dops: fichado e torturado

São Paulo – A Volkswagen divulgará nesta quinta-feira (14) os resultados de um estudo sobre a atuação da empresa durante a ditadura brasileira. A divulgação deverá ser feita simultaneamente aqui e na Alemanha, país sede da companhia. A montadora informou que também anunciará apoio a entidades que promovem os direitos humanos. Alguns ex-funcionários – incluindo um trabalhador preso na própria fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em 1972 – decidiram não comparecer ao evento.

O estudo teve à frente o professor Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, contratado para esse trabalho. Ele estará presente ao evento na unidade do ABC, ao lado do presidente da Volks na chamada Região SAM (América do Sul, América Central e Caribe), Pablo Di Si, que assumiu esse cargo e o de presidente e CEO no Brasil em outubro, vindo da Argentina.

Em algumas ocasiões, o historiador já apontou evidências da participação da montadora na colaboração com a ditadura. Um documentário divulgado recentemente na Alemanha trouxe mais detalhes à história. Recentemente, relatório do perito Guaracy Mingardi e do advogado Martin Carone dos Santos apontou a existência de “conluio” ente a Volks e a repressão, entre outras empresas do setor automobilístico. As conclusões foram incluídas em inquérito do Ministério Público Federal.

Dois anos atrás, ex-trabalhadores da Volks, ao lado de centrais sindicais e juristas, entregaram ao MPF uma representação em que denunciavam a empresa por graves violações de direitos humanos. “Desde então, mesmo com toda a repercussão no Brasil e no exterior, a empresa praticamente não tem se manifestado no inquérito”, diz nota divulgado pelo IIEP (Intercâmbio, Informações e Estudos e Pesquisas). “As únicas manifestações oficiais no inquérito acrescentaram muito pouco à documentação que já havia sido apresentada pelos trabalhadores. Não há qualquer sinal de disposição da empresa para colaborar com as investigações e o devido andamento do inquérito no MPF.”

Para o grupo de ex-funcionários que assina o documento, o relatório a ser divulgado por Kopper “deverá ser somado” ao do perito Mingardi, contratado pelo MPF, que segundo eles “compromete irreversivelmente a Volkswagen naquilo que ela foi acusada de violações de direitos humanos, criação de grupos com outras empresas com a contratação de militares para vigiar e perseguir trabalhadores e até mesmo a população das regiões onde estão instaladas suas fábricas”.

Um dos signatários é Lúcio Bellentani, operário e então militante comunista que foi preso dentro da fábrica, em julho de 1972, fichado no Dops e torturado durante meses. Ele quer que a empresa peça desculpas formalmente. 

 

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