gestão tucana

Metroviários protestam contra demissão de funcionário vítima de racismo

Trabalhadores do Metrô de São Paulo realizaram um ato pela reintegração imediata de Valter Rocha ao quadro de funcionários da empresa, além de rechaçar o plano privatista de Alckmin

divulgação
valter.jpg

Há 15 anos funcionário do metrô, Valter (dir.) afirma que caso de racismo não foi o primeiro sofrido por ele

São Paulo – “Há 15 anos o Metrô vem mostrando que minha figura é ingrata dentro da empresa”, afirmou Valter Rocha, trabalhador metroviário demitido após sofrer um ataque racista no início da última semana. Em solidariedade a ele, a categoria realizou um ato na tarde de hoje (28), em frente ao prédio da Companhia Metropolitano São Paulo, na região central de São Paulo. Na pauta, além do combate ao racismo, a indignação contra o processo privatista na instituição, capitaneado pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

Após um desentendimento, Valter foi vítima de crime de racismo quando usuários o hostilizaram. O trabalhador, que prestou serviços na instituição desde 2002, reagiu, o que motivou o Metrô a demiti-lo. “O que aconteceu é natural dentro de um plano de privatização e elitização das empresas públicas”, afirma o trabalhador, que vê conexão entre os fatos e defende que o racismo é prática institucional do governo e de sua empresa de transporte público. Por sua vez, a empresa alegou “infração do código de ética com usuário” para o desligamento.

“A privatização é um projeto racista porque a economia é sustentada pela maioria das pessoas, que tem pele escura. O racismo é a prova de que o estado é incapaz de se renovar ou se sustentar sem lançar mão da exploração e da discriminação do povo mais pobre. Está tudo ligado. A privatização não é interessante para o povo, seja usuário, seja trabalhador”, disse.

Para o trabalhador, a permanência do Metrô nas mãos do estado é essencial. “Se o Metrô fosse desde o começo uma empresa privada, eu, com a minha figura, não poderia trabalhar lá. Eu estaria sujeito a uma aprovação visual do proprietário. A privatização encarece o serviço público. O patrão faz o que quer, paga quanto quiser e não se compromete com nada.”

O racismo contra trabalhadores do Metrô não é uma novidade, como afirmou a irmã de Valter, Nadja Bittencourt Rocha. “Desde que meu irmão entrou no Metrô, sempre compartilhou com a família as diversas violências racistas que ele sofreu dentro da empresa. Acho um absurdo. Trabalho desde 2013 com teatro negro, combatendo o racismo em todos os lugares e acho um absurdo ver isso na minha família. Acho importante estarmos aqui porque não podemos nos calar contra o racismo institucional”, disse. Em 2008, Valter, que usa dread locks, recebeu um pedido de superiores hierárquicos para cortar seu cabelo como condição para poder ser promovido. Combativo, negou, recorreu e conseguiu a promoção sem precisar se submeter.

O ativista do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) Lourival Aguiar, demitido do Metrô após aderir a uma greve em 2014, considera a demissão de Valter como “emblemática”. “Mostra não apenas que o Metrô é conivente com o racismo, mas que é cúmplice ao ignorar que o trabalhador havia sido vítima, que foi perseguido em toda sua trajetória de 15 anos trabalhando lá. Precisamos colocar o quanto o Metrô de São Paulo é racista por não combater essa prática que nós, trabalhadores negros, sofremos no dia a dia.”

A reincorporação de Valter ao quadro de funcionários passou a ser parte da pauta de reivindicações do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, que já recorreu contra a demissão. “O Metrô de São Paulo demitiu o companheiro que sofreu um ato de racismo. Nos últimos períodos, o Metrô vem atacando os metroviários e a população que necessita do transporte com demissões covardes. Demissões para levar o Metrô público para a iniciativa privada. O governo do estado, na ansiedade de entregar o Metrô para seus financiadores de campanha demite covardemente os trabalhadores”, afirmou um dos coordenadores do sindicato, Alex Fernandes.

O ato foi marcado para hoje, dia em que haveria uma rodada de negociações para a transferência da Linha 5-Lilás para a iniciativa privada. Entretanto, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) suspendeu a privatização na segunda-feira (25), após pedido de liminar feito pela bancada do PT na Assembleia Legislativa.

 

Leia também

Últimas notícias