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América Latina: a mídia alternativa contra o ‘grande partido do capital’

Debate em São Paulo reuniu representantes da mídia contra-hegemônica latino-americana e analisou os desafios para se fazer frente ao discurso hegemônico

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‘Grande mídia no Brasil é extremamente conservadora, reacionária e parte de nossa história escravagista’

São Paulo – Representantes de veículos de mídia alternativa se reuniram na noite dessa terça-feira (12) para discutir a situação da imprensa no continente. O debate “A mídia contra-hegemônica na América Latina” aconteceu no teatro Tucarena, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), na zona oeste da capital. “Temos sete famílias no Brasil que controlam a informação. A Veja sai com uma matéria na sexta-feira, a Globo repercute a capa da Veja no Fantástico… No domingo e na segunda, o Estadão e a Folha repercutem o Fantástico. Está completa a agenda”, disse o jornalista José Arbex Jr.

Arbex é professor da universidade e coordena os cursos de pós-graduação em jornalismo. Ele foi responsável pela mediação do debate, que contou com uma plateia lotada de alunos e professores da instituição. Na mesa, discutiram o tema o coordenador do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, o Miro; o diretor da revista Caros Amigos, Wagner Nabuco; o jornalista do periódico mexicano La Jornada, Roberto Gonzales, e o diretor do jornal uruguaio La Diária, Lucas Silva.

“Esse evento é importantíssimo para o momento que vivemos em todo o mundo. A mídia é um fator fundamental e esse debate é atualíssimo”, disse Mariângela Wanderley, chefe de gabinete da reitoria da universidade, responsável pela apresentação da mesa de debates.

Na sequência, representando a revista Caros Amigos, Nabuco fez uma análise sobre as dificuldades da produção jornalística contra-hegemônica, que faz contraponto à imprensa comercial. “Estamos há 20 anos na luta para tentar se colocar contra a grande mídia no Brasil, que é extremamente conservadora, reacionária e parte integrante de nossa história escravagista. Representantes de uma elite cruel que não têm vontade e nem respeito com o povo humilde. Não é que ela seja alinhada, ela é parte desse DNA”, disse.

“Então, aqueles que como nós estão na luta, no campo da esquerda em toda sua amplitude, enfrentamos uma batalha como a de Dom Quixote contra imensos moinhos de vento”, completou Nabuco, ao falar sobre as dificuldades de financiamento nesta vertente jornalística.

A mídia, o ultraliberalismo e a negação da política

O tema do financiamento da imprensa contra-hegemônica também foi parte da fala dos demais presentes. “Há vários anos que perguntas e incertezas rondam o jornalismo. Isso é o dia a dia. Não há semana que não saibamos de veículos que fecham ou reajustam modelos de negócios para enfrentar tempos difíceis. Ao mesmo tempo, nunca antes tantas pessoas estiveram tão atentas aos meios que estão com a maior audiência da história”, analisou o jornalista mexicano Roberto Gonzales.

“Neste momento complexo, veículos dominantes trabalham para levar dados para um determinado espectro político. Nos perguntamos como aumentar o alcance dos meios que mostram os outros lados, como garantir a sobrevivência financeira e conservar a qualidade dos trabalhos, dando condições de vida dignas para os trabalhadores da mídia. Nos fazemos estas perguntas cotidianamente há 32 anos no nosso jornal”, completou Gonzales, que ressaltou o caráter perene de crises vividas pela mídia alternativa. “Quando nascemos, na década perdida de 1980, o principal acionista da Televisa, maior rede de TV do país, dizia ser ‘um soldado do PRI’, o partido hegemônico do México”, disse.

O mexicano evidenciou o cenário de seu país, onde o poder político e midiático se fundem. “Políticos empregam mecanismos de controle sutis na mídia. Utilizam de amizades, controle financeiro, publicidade oficial e chantagens”, disse. Altamiro Borges ratificou as palavras de Gonzales ao dizer que “as grandes empresas de comunicação têm interesses econômicos e políticos”, mostrando congruências entre os distintos países latino-americanos.

“São um duplo poder. Na história, empresas sempre tiveram um papel muito negativo no que se diz respeito ao bem-estar social. É só lembrar de Gramsci (pensador italiano marxista Antonio Gramsci), que dizia que a imprensa era o ‘grande partido do capital’. Nesta fase de hoje, esses interesses são bem marcantes em nosso continente”, continuou Borges.

Em sua fala, o coordenador do Barão de Itararé se preocupou também em demonstrar o alinhamento das grandes empresas produtoras de jornalismo. “Todas apoiaram golpes militares em nossa região. Todos os grandes grupos, por interesses políticos, também apoiaram a onda neoliberal dos anos 1990. Todos os grupos, o Clarín (Argentina), Mercúrio (Chile), Globo, todos tiveram papel decisivo no desgaste de governos reformistas nos últimos anos. Fizeram todos os esforços e estão em uma grande ofensiva dupla de um movimento de ultraliberalismo e de negação da política”, apontou.

Para ele, a negação da política pode ser perigosa, ao dar fôlego a ideias autoritárias. “Os meios de comunicação estão em uma ofensiva brutal, o que tem gerado uma onda, um estímulo perigoso ao fascismo. Não falo de jornalismo ou de jornalistas, sim dessas empresas que controlam a mídia.”

Borges vê resultados da mídia contra-hegemônica no país, ao incomodar o outro lado. “Acho que temos conseguidos êxitos. Contrapontos importantes em experiências como rádios comunitárias, redes de TV do movimento social, a TVT; no impresso, com a Caros Amigos e a Carta Capital. Também incomodamos na internet, não é para menos que o (José) Serra fala dos ‘blogs sujos’. Não é à toa que Michel Temer fechou a torneira da ‘merreca’ do financiamento dos meios alternativos”, disse.

O contexto uruguaio

Por sua vez, o jornalista uruguaio do La Diária, Lucas Silva, apresentou um outro modelo de mídia alternativa, que encontrou em seu país um terreno diferente para atuação. “Começamos em 2006, um ano depois da chegada da Frente Ampla ao governo, com o presidente (Jose) Mujica. Em algum ponto, somos parte deste processo, pois a ideia partiu de um grupo de jornalistas que trabalhava em outras mídias e considerou que faltava a perspectiva de esquerda não oficialista no país”, relatou.

“Na nossa origem, tivemos investidores, entre eles o Eduardo Galeano, além de doações de diversos uruguaios. Hoje, somos uma cooperativa integrada por 110 trabalhadores. Consolidamos este modelo e temos cerca de 10 mil assinantes, algo considerável para o Uruguai. Somos o segundo jornal mais vendido do país, superados apenas pelo El Pais“, disse.

Para o jornalista, a ação da mídia alternativa tem que ser pautada na criação de uma nova agenda, que supere a voz das grandes empresas. “Agora que o inverno chegou, é importante pensar no que erramos. As circunstâncias nos obrigam a ocupar um papel marginal, mas não pode ser um pensamento editorial. Temos um continente dominado por meios hegemônicos e nós nunca trabalhamos dizendo que o El Pais mente. Quando repetimos que o Clarín e a Folha mentem, colocamos a agenda deles no centro. Temos que criar nossa própria agenda, como fizemos no Uruguai com a defesa do casamento igualitário, com a descriminalização da maconha”, completou.