Você está aqui: Página Inicial / Cidadania / 2017 / 07 / Corrente no WhatsApp usa dados errados para criticar carga tributária do país

informação falsa

Corrente no WhatsApp usa dados errados para criticar carga tributária do país

Texto compartilhado em redes sociais baseia-se em números falsos ao defender que o Brasil tem a maior carga tributária do mundo
por Patrícia Figueiredo, da Agência Pública publicado 13/07/2017 10h17
Texto compartilhado em redes sociais baseia-se em números falsos ao defender que o Brasil tem a maior carga tributária do mundo
José Cruz/Agência Brasil
sonegometro.jpg

Sonegômetro instalado na área central de Brasília aponta a evasão de impostos no país desde o início do ano

Agência Pública – Uma longa mensagem com críticas aos impostos cobrados no Brasil tem circulado pelo aplicativo WhatsApp e aparecido também em páginas no Facebook. Apesar de o texto trazer algumas variações, a corrente tenta provar que “o Brasil tem a maior carga tributária do mundo”. O conteúdo lista as taxas supostamente cobradas em produtos diversos e também faz um ranking com os dez países onde mais se trabalharia para pagar tributos. Argumentos como esses têm servido para contestar o valor dos impostos no país, classificados como muito altos diante da qualidade dos serviços públicos oferecidos.

Truco – projeto de checagem da Agência Pública – procurou a origem dos números citados, com o objetivo de analisar a veracidade da mensagem. A reportagem concluiu que a maioria dos dados está errada. Por isso, a corrente foi classificada como falsa. A autoria do texto é desconhecida, ou seja, não é atribuída a nenhum tipo de grupo ou organização. O Banco Mundial, contudo, aparece como fonte de alguns dos números usados.

A reportagem entrou em contato com a sede do Banco Mundial no Brasil para verificar o envolvimento da organização com o ranking que inicia a corrente. A entidade afirma não ter lançado nenhum estudo específico sobre o tempo que uma pessoa gasta trabalhando para pagar seus impostos recentemente. O Truco localizou, no entanto, um estudo da empresa de consultoria PwC feito em parceria com o Banco Mundial em 2015. Nesse documento aparece o dado de 2.600 horas trabalhadas para pagamento de impostos. No entanto, o número é relativo à quantidade de horas empregadas por uma empresa para o pagamento de tributos no ano de 2013. Assim, o número não se refere às horas trabalhadas pelo cidadão para o pagamento de tributos, como sugere a corrente. Trata-se de uma estimativa do gasto anual das empresas com impostos.

Além disso, o ranking citado está desatualizado, uma vez que a PwC já divulgou a edição de 2016 do estudo. O Truco verificou o total de horas empregadas pelas empresas no pagamento de impostos nos dez países citados pela corrente, utilizando o relatório mais recente da PwC, publicado no ano passado e baseado em dados de 2014. Dos dez números indicados na mensagem, apenas um está correto: o total de horas empregadas com tributos no Chade. Veja, nas tabelas a seguir, os números indicados pela corrente e os valores atualizados de acordo com o relatório.

Ranking original da mensagem –

 

“Os 10 países onde MAIS se trabalhou em um ano para pagar impostos”

País Total de horas Posição
Brasil 2.600 1
Bolívia 1.080 2
Vietnã 941 3
Nigéria 938 4
Venezuela 864 5
Belarus 798 6
Chade 732 7
Mauritânia 696 8
Senegal 666 9
Ucrânia 657 10

Fonte: Mensagem do WhatsApp

 

Tabela segundo a PwC –

 

Número de horas empregadas no pagamento de tributos por empresas no mundo

País Total de horas Posição
Brasil 2600 1
Bolívia 1025 2
Vietnã 770 6
Nigéria 908 3
Venezuela 792 5
Belarus 176 Não consta nas 10 primeiras posições
Chade 732 8
Mauritânia 734 7
Senegal 620 10
Ucrânia 350 Não consta nas 10 primeiras posições

Fonte: Relatório Paying Taxes 2016 da PwC

Outras acusações

A mensagem alega ainda que “o Brasil tem a maior carga tributária do mundo”. No entanto, a afirmação é falsa. De acordo com o mesmo relatório da PwC, a carga tributária para as empresas no Brasil fica em torno de 69,2% – esse porcentual representa o Índice Total de Impostos, dado calculado pelo estudo para cada país analisado. O número é muito inferior ao adotado por países como a Argentina, com tributação de 137%, e Eritreia e Bolívia, com tributação de 83% cada. Também é inferior ao da Colômbia, com 69,7%, e muito próximo da porcentagem de países europeus desenvolvidos, como a Itália, onde a taxa é de 64,8%, e da França, com 62,7%.

Portanto, o Brasil não é o país com a mais alta carga tributária do mundo, como afirma a mensagem. Na verdade, o país que tem a maior carga tributária do mundo é Comores, pequena república insular no Oceano Índico, onde a porcentagem é de 216%, segundo o estudo da PwC.

Também está errado dizer que a carga tributária serve para pagar “a maior corrupção do mundo”. De acordo com o Índice de Percepção de Corrupção de 2016, elaborado pela Transparência Internacional, o Brasil ocupa o 79º lugar entre 176 países. Está localizado no meio do ranking, com 40 pontos, igualmente distante tanto dos primeiros como dos últimos colocados. No levantamento de 2015, o país somou 38 pontos e ocupou o 69º lugar (quanto menor a pontuação, maior é a corrupção percebida). Logo, o Brasil está longe de ser o país mais corrupto do mundo.

Outro trecho incorreto da corrente é o que alega que “de 15% a 27,5%” do salário do brasileiro é destinado ao Imposto de Renda. Na verdade, a menor faixa do IR no Brasil é de 7,5%. Esta alíquota incide sobre rendimentos até R$ 2.826,65 mensais. Quem ganha menos do que isso está isento.

Logo depois, a mensagem informa ainda que o brasileiro se compromete com outras despesas como plano de saúde, mensalidade escolar, IPVA, IPTU, INSS e FGTS. No entanto, essas contribuições são facultativas, vinculadas à propriedade de um bem, como imóvel ou veículo, ou pagas apenas por aqueles que contratam funcionários, o que demonstra outro erro.

Carga tributária dos produtos

Em outra parte, a mensagem compartilhada no WhatsApp lista diversos produtos e a carga tributária que incidiria sobre eles no Brasil. O Truco entrou em contato com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) para verificar os números indicados na mensagem. O instituto é reconhecido por estudar, desde sua criação, em 1992, o impacto dos tributos na atividade empresarial brasileira.

A tabela abaixo mostra a carga tributária de cada produto segundo a corrente de WhatsApp e o valor apurado pelo IBPT, atualizado em junho de 2017. Dos 60 produtos incluídos na mensagem viral, nenhum estava com a porcentagem igual à indicada pelo instituto.

PRODUTO CARGA TRIBUTÁRIA SEGUNDO A CORRENTE CARGA TRIBUTÁRIA SEGUNDO IBPT
Carne bovina 18,63% 17,47%
Frango 17,91% 16,80%
Peixe 18,02% 34,48%
Sal 29,48% 15,05%
Trigo 34,47% 17,34%
Arroz 18,00% 17,24%
Óleo de soja 37,18% 26,05%
Farinha 34,47% 17,34%
Feijão 18,00% 17,24%
Açúcar 40,40% 30,60%
Leite 33,63% 18,65%
Café 36,52% 19,98%
Macarrão 35,20% 16,30%
Margarina 37,18% 35,98%
Molho tomate 36,66% 36,05%
Biscoito 38,50% 37,30%
Chocolate 32,00% 38,60%
Ovos 21,79% 20,59%
Frutas 22,98% 21,78%
Álcool 43,28% 32,77%
Detergente 40,50% 30,37%
Sabão em pó 42,27% 40,80%
Desinfetante 37,84% 26,05%
Água sanitária 37,84% 26,05%
Esponja de aço 44,35% 40,62%
Sabonete 42% 37,09%
Xampu 52,35% 44,20%
Condicionador 47,01% 37,37%
Desodorante 47,25% 37,37%
Papel Higiênico 40,50% 39,94%
Pasta de Dente 42,00% 34,67%
Caneta 48,69% 47,49%
Lápis 36,19% 34,99%
Borracha 44,39% 43,19%
Estojo 41,53% 40,33%
Pastas plásticas 41,17% 40,09%
Agenda 44,39% 43,19%
Papel sulfite 38,97% 37,77%
Livros 13,18% 15,52%
Papel 38,97% Não consta
Refresco em pó 38,32% 36,30%
Suco 37,84% 36,21%
Água 45,11% 45,55%
Cerveja 56,00% 55,60%
Cachaça 83,07% 81,87%
Refrigerante 47,00% 46,47%
Sapatos 37,37% 36,17%
Roupas 37,84% 34,67%
Computador 38,00% 33,62%
Telefone Celular 41,00% 39,80%
Ventilador 43,16% 34,30%
Liquidificador 43,64% 43,54%
Refrigerador 47,06% 36,98%
Microondas 56,99% 54,98%
Tijolo 34,23% 34,17%
Telha 34,47% 33,95%
Móveis 37,56% Não consta
Tinta 45,77% 36,17%
Casa popular 49,02% 48,30%
Mensalidade Escolar 37,68% 26,32%

Fonte: IBPT

Apesar de nenhum dos dados de carga tributária indicados pela corrente estar correto, de acordo com os últimos levantamentos do IBPT, muitos deles chegam perto dos indicados pelo instituto, o que demonstra que a origem da corrente pode ser um compilado de dados desatualizados. Dois produtos genéricos citados na corrente, papel e móveis, não constam na apuração do IBPT.

Conclusão

Não foi possível localizar a origem de todos os dados indicados na mensagem que se espalhou pelo WhatsApp. No entanto, fontes como PwC e IBPT mostram erros nos números citados na corrente. Além disso, a mensagem inclui informações incorretas acerca do Imposto de Renda, da carga tributária brasileira e do nível de corrupção em relação a outros países do mundo. Diante das evidências encontradas pelo Truco, a corrente foi classificada como falsa, já que a análise dos dados e de outras fontes comprova diversos erros do texto.