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MPF quer o fim do turismo da escravidão em fazenda no interior do Rio de Janeiro

Trajada como sinhá, proprietária da Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, recebia visitantes com empregados vestidos como escravos
Publicado por Redação RBA
14:00
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IGOR ALECSANDER/THE INTERCEPT
escrava

Funcionária da Fazenda Santa Eufrásia vestida como escrava para servir os turistas

São Paulo – O Ministério Público Federal (MPF-RJ) espera celebrar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Fazenda Santa Eufrásia, localizada em Vassouras, interior do Rio de Janeiro, neste sábado (6) para acabar com a prática, naquela propriedade, do chamado turismo da escravidão. 

Reportagem de dezembro do The Intercept Brasil, reproduzida também pela RBA, demonstrava como turistas eram atraídos com simulações e encenações do período da escravidão, que eram realizadas na fazenda, cujas instalações datam do século 19. Nessas simulações, identificadas como sendo de cunho racista, a proprietária, Elizabeth Dolson, se trajava como sinhá e recebia os hospedes com seus empregados vestidos como escravos.

Geralmente eu tenho uma mucama, mas ela fugiu. Ela foi pro mato. Já mandei o capitão do mato atrás dela, mas ela não voltou (…) Quando eu quero pegar um vestido, eu digo: ‘duas mucamas, por favor!’. Porque ninguém alcança lá em cima.”, dizia Elizabeth, ao recepcionar os turistas.

Após a divulgação da reportagem, o MPF decidiu investigar e constatou a veracidade da situação relatada. Os procuradores identificaram, ainda, violação de direitos fundamentais na programação turística da fazenda, bem como possível violação ao patrimônio histórico, tendo em vista a sua finalidade de educação e reparação simbólica de violações de direitos perpetradas no local em tempos passados. A Fazenda Santa Eufrásia é única propriedade particular tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (Iphan-RJ) no Vale do Café. 

Com o TAC, as encenações estão proibidas, bem como a utilização de vestimentas, por pessoas brancas ou negras, que façam alusão ao passado da escravidão, o que vale tanto para os proprietários e funcionários, como para os visitantes. Os materiais de divulgação também não devem fazer uso desses conteúdos. 

Para que a propriedade receba o selo Fazenda sem Racismo, deverá instalar na área externa à casa, em até 60 dias, em local de fácil acesso aos visitantes, duas placas: uma trazendo o nome das 162 pessoas escravizadas na fazenda até o ano de 1880, e outra explicando a história do local.

Fazenda Santa Eufrásia deverá produzir folhetos educativos tratando da história da população de escravos que viveram na propriedade. Administradores e funcionários responsáveis pela recepção aos visitantes passarão também por curso de capacitação. Em caso de descumprimento do acordo, a multa diária prevista é de R$ 5 mil.

“Com isso, vamos contribuir para a superação da associação da imagem do negro ao ‘escravo’ em nossa sociedade e ainda esclarecer que africanos e seus descendentes foram escravizados e não ‘nasceram escravos’ e que ninguém ‘descende de escravos’, tratando-se de pessoas, de homens e mulheres, de seres humanos que foram criminosa e injustamente escravizados”, explica o procurador da República Julio José Araújo, em nota oficial.