censura artística

‘Apagar grafites é uma maneira de silenciar a voz da periferia’

Na gestão Doria, pichos e grafites da cidade estão distantes de serem considerados arte urbana

ernando Frazão/Agência Brasil
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Guerra da prefeitura contra grafiteiros e pichadores pode ter um efeito contrário e intensificar o movimento

São Paulo – “Os muros de São Paulo são oportunidades para expressar, protestar ou se comunicar. Os grafites são condutores para aqueles silenciados pelo cinza da cidade.” Assim define sua arte e seu ofício o grafiteiro Jefferson Juliano Gomes, mais conhecido como Guga. Em entrevista à repórter Camila Salmazio, da Rádio Brasil Atual, ele diz que a guerra declarada pelo prefeito João Doria contra os artistas é “uma maneira de silenciar a voz da periferia”.

“O grafite é liberdade de expressão. A arte do grafite vem desde a arte rupestre. Hoje, ele é uma forma de expressar os sentimentos através dessa linguagem artística”, acrescenta.

Desenhos de anjos negros chorando se tornaram a marca de Guga. Essa foi a maneira que encontrou de fazer a voz das crianças das periferias chegar às regiões centrais da cidade. “A gente busca expressar o sentimento. Eu sempre faço anjos tristes com a condição social da comunidade, então me expresso assim.”

O que é arte na visão de uns, é poluição para outros. Na gestão Doria, os pichos e grafites da cidade estão distantes do que ele considera arte urbana. Além de apagar diversos desenhos, entre os quais o maior mural da América Latina (na Avenida 23 de Maio, uma das maiores vias da capital paulista), o prefeito sancionou na última segunda feira (20) o Projeto de Lei 56/2005, que institui punição administrativa para quem pichar imóveis públicos ou privados. 

Grafiteira desde 2014, Ju Violeta explica que a diferença entre pichação e grafite está apenas na questão de estilo. “Só muda a forma estética. O picho é uma grafia e o grafite é um desenho, mas no começo o grafite também era perseguido e muitos artistas apanhavam. Demorou muito para reconhecer o grafite como arte, então também não será rápido para reconhecer o picho também. Isso é natural da arte, que sempre cria esse debate de longo prazo.”

A guerra da prefeitura contra grafiteiros e pichadores pode ter um efeito contrário e intensificar o movimento, segundo Mauro Neri, detido no mês passado enquanto tentava recuperar um de seus grafites apagados pela gestão Doria. “Com isso ele enaltece os pichadores. Na medida que ele criminaliza, também coloca em evidência, então muita gente que tinha parado de pichar, com essa postura da prefeitura, pretende ir para as ruas fazer o enfrentamento. Ele atiçou um movimento.”

Os grafites tornaram-se instrumento de trabalho para Mauro e Guga. Ambos trabalham na conscientização de jovens em comunidades de São Paulo. “É muito comum você ver um grafiteiro fazendo sua arte no muro e a molecada ao redor querendo aprender. Então, a gente quer influencia-los para o lado do bem através da cultura de rua.”

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