Profeta da coragem

Como nos velhos e dolorosos tempos, dom Paulo leva multidão à Catedral da Sé

Corpo do religioso foi enterrado nesta sexta, após três dias de velório. 'Viemos em marcha porque foi isso que ele nos ensinou: a caminhar', disse entre lágrimas Raimundo Bonfim, da Frente Brasil Popular

Alice Vergueiro/Folhapress
Dom Paulo

“Viemos em marcha porque foi isso que Dom Paulo sempre nos ensinou: a caminhar”, diz coordenador da Central de Movimentos Populares

São Paulo – Durante o período mais agudo da ditadura, nos anos de 1970, dom Paulo Evaristo Arns desafiou o regime celebrando na igreja lotada da Sé lutas por justiça e liberdade. Vidas como as de Alexandre Vannuchi, Vladimir Herzog e Santo Dias da Silva, foram, em diferentes momentos dos anos de chumbo que os levaram, celebradas ali. Hoje (16), a Catedral da Sé estava mais uma vez repleta, desta vez em memória à luta e à vida de dom Paulo.

Coragem e esperança foram algumas das palavras mais pronunciadas, lembrando ensinamentos repetidos ao longo de toda vida pelo cardeal – morto na última quarta-feira, aos 95 anos. O corpo do religioso, ícone na luta pela democracia, liberdade e por direitos humanos no país, foi enterrado na cripta da igreja após 68 horas de velório em caixão aberto.

A missa de exéquias, que presta as honras fúnebres, foi presidida pelo arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, na catedral lotada. Nos bancos e corredores da igreja dividiam espaço, de forma bastante emotiva, trabalhadores da construção civil ainda de uniforme, moradores de rua, militantes de movimentos sociais.

Participaram da cerimônia autoridades com histórico de defesa dos direitos humanos. Entre elas a ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina, em cuja gestão se descobriu a vala de Perus, onde haviam sido encontrados restos mortais de presos políticos. E o atual prefeito, Fernando Haddad – que publicou ontem um histórico pedido de desculpas pelos crimes da cometidos pela prefeitura durante a ditadura. Outras autoridades não conhecidas exatamente pelo trato com direitos humanos, como o governador Geraldo Alckmin e o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, também estiveram na Sé.

O coordenador da Pastoral do Povo de Rua, Julio Lancelotti, foi um dos padres que rezaram a missa. Compareceram também líderes religiosos judeus, muçulmanos e ortodoxos.

No lado de fora da igreja, dezenas de pessoas acompanhavam em dois telões instalados na entrada da igreja. Mulheres idosas, lideranças de movimentos sociais e trabalhadores em geral se ajoelhavam nos degraus, com as mãos estendidas ao céu, e rezavam e cantavam para prestar a última homenagem a dom Paulo.

“Passaram por aqui moradores de rua, que ganharam mais respeito e visibilidade por causa do senhor. Passaram soropositivos que o senhor acolheu e mostro que o que mata é o preconceito. Passaram sem teto, desempregados, torturados que o senhor arrancou das mãos dos carrascos, jornalistas que o senhor defendeu, juristas que denunciaram casos de violência ao senhor”, disse visivelmente emocionado um dos religiosos que tomou fala na cerimônia.

Por volta das 14h, pelo menos 400 integrantes de movimentos sociais como a Pastoral do Povo de Rua, da Central de Movimentos Populares, da Frente Brasil Popular saíram em procissão da Rua Riachuelo, também no centro da cidade, em direção à catedral, bradando palavras de ordem como “coragem!” e “Dom Paulo vive!”. Ao chegarem, entraram na igreja, estenderam bandeiras e aplaudiram efusivamente em diversos momentos.

“Viemos em marcha porque foi isso que dom Paulo sempre nos ensinou: a caminhar. É um momento de despedida, mas com a certeza que vamos continuar o trabalho dele”, disse entre as lágrimas, o coordenador da Central de Movimentos Populares, Raimundo Bonfim. Na juventude, ele foi um dos agentes pastorais recrutados por dom Paulo para mobilizar trabalhadores das periferias. O salário era pago com o dinheiro da venda do palácio episcopal, onde moravam os bispos, em um dos episódios mais marcantes da Igreja Católica paulistana. A verba também foi usada para comprar terrenos para centros das Comunidades Eclesiais de Base.

Uma área da catedral foi reservada para as flores enviadas por organizações, entidades e pessoas anônimas para a missa. Entre elas um arranjo do presidente da República, Michel Temer – que não compareceu pessoalmente em nenhum dos dias temendo vaias – demonstrando gratidão ao “guerreiro do amor”. Foram enviadas homenagens do grupo Tortura Nunca Mais, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da Universidade Estadual de Campinas e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, agradecendo ao “cardeal do diálogo”.

“Olá, você é jornalista? Eu gostaria muito de falar um pouco sobre dom Paulo”, pediu, em lágrimas, Ana Dias, viúva do metalúrgico Santo Dias da Silva, assassinado em outubro de 1979 pela Polícia Militar com um tiro nas costas durante a ditadura. Ana Dias participava ativamente da igreja e da Pastoral Operária. Dom Paulo foi com Ana ao Instituto Médico Legal, que estava sitiado pela polícia, e impediu que o corpo fosse retirado de lá. “Dom Paulo foi meu amigo, meu companheiro de luta, minha família. Graças a ele o corpo do meu marido não desapareceu. Ele abriu a Catedral da Sé para o velório, que reuniu milhares de pessoas.”

Antes do início da cerimônia, o bancário aposentado José Antônio aguardava na fila para ver o corpo e dom Paulo segurando uma banqueta, pois no dia anterior tinhas saído de uma cirurgia. Ainda debilitado, fez questão de prestar a última homenagem ao cardeal. “Ele foi amigo dos pobres, profeta da justiça e da fé. Para mim já é um santo”, disse entre lágrimas.

“O principal exemplo que fica é de coragem. Ele enfrentou generais para defender os marginalizados, sempre com uma postura de acolher e abraçar a todos”, lembrou a professora Célia Leme, que conheceu dom Paulo na formatura de um curso de Teologia. “Estou aqui pela gratidão que tenho por ele, porque tudo o que fez pelos mais pobres e pelos mais sofridos”, disse.

Dom Paulo

Nascido em 14 de setembro de 1921 em Forquilhinha, colônia de imigrantes alemães na região de Criciúma, em Santa Catarina, Paulo Evaristo Arns era o quinto dos 14 filhos de Gabriel Arns e Helena Steiner. Entre 1956 e 1966, foi professor de Teologia no seminário franciscano de Petrópolis (RJ), período em que atuou nos bairros pobres e favelas da cidade serrana. Em seu livro autobiográfico de memórias Da Esperança à Utopia – Trajetória de uma Vida, definiria a época em Petrópolis como a mais feliz da sua vida.

Em 1966 foi nomeado bispo, por decisão pessoal do papa Paulo VI. No mesmo ano foi escolhido para ser bispo auxiliar do cardeal de São Paulo, Agnelo Rossi, homem aliado à ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e o enviou para atuar na região de Santana, zona norte da capital paulista.

Ali conheceu a situação dos presidiários da Casa de Detenção do Carandiru, além de criar núcleos da pioneira experiência das comunidades eclesiais de base (Cebs). Um dia, por orientação do cardeal, dirigiu-se ao presídio Tiradentes para checar as condições de frades dominicanos presos por razões políticas, entre eles Frei Betto e Frei Tito, que foi barbaramente torturado. Os episódios marcaram definitivamente a vida de dom Paulo como defensor incansável dos direitos humanos, da justiça e da liberdade.

No início dos anos 1970, Paulo Evaristo Arns assumiu o posto de arcebispo da região metropolitana de São Paulo. Instalou a Comissão Justiça e Paz, para prestar atendimento às vítimas e perseguidos políticos da ditadura. Tendo o jurista Dalmo de Abreu Dallari como primeiro presidente, a comissão funcionava na Cúria Metropolitana e logo se tornou ponto de refúgio para familiares de mortos e desaparecidos. Em 1973, o papa Paulo VI elevou-o a cardeal. Em 1975, após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, comandou na Catedral da Sé um ato ecumênico que entraria para a história da luta pela democracia e o fim da ditadura no Brasil.

Em 1998 o cardeal se afastou do comando da Arquidiocese de São Paulo e, desde então, passou a manter vida discreta, em recolhimento, ao mesmo tempo em que recebia inúmeras homenagens por sua vida dedicada à luta pelos direitos humanos. Em maio de 2012 ainda recebeu visita da então presidenta Dilma Rousseff, na Congregação Franciscana Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos, em Taboão da Serra (SP). No encontro, Dilma falou da instalação da Comissão Nacional da Verdade, criada dias antes.

Foi autor de 56 livros e recebeu centenas de títulos nacionais e internacionais por usa atuação militante. “Dom Paulo era irreverente e alegre. Ele sempre teve lado”, lembrou o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MST) Gilmar Mauro. “Ele defendeu a reforma agrária e a democracia. É uma figura de esperança que serve de inspiração para os movimentos sociais. Continuaremos seu trabalho.”