movimentos negros

O exercício da igualdade ainda tem um caminho a percorrer

Num cenário de desigualdades e sarcasmos cotidianos, o ambiente universitário é para a maioria dos alunos afrodescendentes mais do que hostil. É solitário

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São Paulo – O debate sobre implementação das políticas de ações afirmativas para promoção de igualdade desde sempre divide a opinião pública. Para os ativistas dos movimentos negros, as contradições e desigualdades sociais originárias do regime escravocrata ainda podem ser vistas e sentidas pela comunidade afro-brasileira, que representa 53,6% da população. De outro lado, os que se opõem às políticas de cotas para negros em universidades ou concursos públicos entendem que ao sobrepor a cota ao mérito individual, essa política tornaria “desiguais” as oportunidades.

Esse raciocínio é comumente associado ao mito de que “não existe racismo no Brasil”. Um entendimento de quem desconhece que a população negra ainda tem salários muito menores do que a população branca, que o homicídio de jovens negros tem dimensões de genocídio em diversos recortes. De acordo com o Mapa da Violência, por exemplo, a morte de mulheres brancas por casos de violência diminuiu 10% entre 2003 e 2013, período em que a de mulheres negras aumentou 54%.

Os argumentos contrários às cotas, ao alegarem que reiteram a desigualdade e a discriminação entre brancos e negros, não levam em consideração que países como os Estados Unidos, que adotaram ações afirmativas desde 1935, conseguiram formar uma elite intelectual negra e ter afro-americanos representados em diversos setores da sociedade. No Brasil, apenas o debate sobre as cotas raciais só se intensificou a partir de 2003, na primeira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. E vêm desde então apresentando efeitos e resultados nas dinâmicas das famílias e no perfil profissional brasileiro.

Em que pese o fato de que para toda uma nova geração de jovens e adultos, sobretudo das periferias, novas janelas de oportunidade de empregos, serviços e empreendedorismo terem sido abertas, a polêmica persiste – assim como as desigualdades. Ao questionar a divisão de poder e de riquezas, materiais e imateriais, numa sociedade desigual, a ação afirmativa incomoda muita gente.

Atualmente, 128 instituições de ensino superior adotaram o sistema de cotas para tornar menos desigual o acesso de negros, indígenas e pobres nas universidades. Ainda que escassa, a presença de alunos e alunas negras nas universidades causa impacto visual e nas estruturas educacionais.

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A professora Merylin, cotista e mestre na Universidade de Ponta Grossa: ‘a comentário que eu fazia em sala de aula sobre questões raciais, alunos e professores já estavam na defensiva’

Não-lugar

Com mestrado em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Merylin Santos Ricieli, 27 anos, foi cotista na graduação e no programa de pós-graduação da instituição instalada no município paranaense. Embora tenha se formado na área de humanas, onde a presença de alunos negros é massiva, a professora conta “que todo comentário que eu fazia em sala de aula sobre questões raciais, alunos e professores já estavam na defensiva, faziam careta ou comentários mais baixos constantemente e eu via isso como o meu ‘não-lugar’ naquele espaço predominantemente branco”.

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Carmen, poeta, educadora e articuladora cultural: ‘existe uma hostilidade racista, silenciosa e sarcástica projetada aos alunos cotistas’

Olhares, comentários e estranhamento de professores, alunos e funcionários brancos são recorrentes no cotidiano. Para a poeta, educadora e articuladora cultural Carmen Faustino, 37 anos, que integrou a primeira turma de cotistas do ProUni, em 2005, existe uma hostilidade racista, silenciosa e sarcástica projetada aos alunos cotistas. “Vem de alunos, professores e da coordenação. Lembro de não comentar com ninguém sobre minha condição de cotista na universidade, mas algumas vezes fui chamada em sala de aula para comparecer na coordenação, para assinar ou retirar algum documento em relação a bolsa. Alguns colegas de sala questionavam minha permanência enquanto bolsista.”

Passada mais de uma década, os resultados mostram que o desempenho desses alunos é igual ou superior ao dos não cotistas. A evasão dos também diminuiu, contrariando todos os argumentos contrários às políticas afirmativas. Aluno do programa de pós-graduação da UEPG, Renan Fagundes, 26 anos, relata que durante o processo de seleção ouviu piadas de todo tipo “você só precisa colocar o nome na prova que está dentro…”

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Durante o processo de seleção na pós, Renan ouvia piadas como ‘você só precisa colocar o nome na prova que está dentro’

Para Renan, o caminho do negro numa instituição é uma batalha por respeito todos os dias. “Eu, sofria nas aulas de Língua e Texto, pois não tinha uma ‘boa’ escrita como a dos meus colegas que estudaram a vida toda nos colégios particulares. No entanto, quando tive meus primeiros artigos publicados, participações em congressos e eventos, e apresentei trabalhos em outros idiomas, notei que o olhar do outro mudou e eu passei a ouvir: ‘como você é esforçado!’”

A estudante de Pedagogia Karina Galdino, 23 anos, diz que a cobrança e o controle dos professores, alunos e da própria instituição, a Unicid, em São Paulo, sobre o seu rendimento são diários. “Parece que todos os dias eu preciso provar porque mereço estar ali. É tudo velado, silencioso. Mas você consegue distinguir a cobrança entre um aluno cotista e um que paga a mensalidade. Expor o seu ponto de vista, se colocar diante de algumas questões é bem complicado. É complicado lidar com isso, ‘ou joga o jogo, ou bate de frente’. É uma escolha que preciso fazer todos os dias.”

Num cenário de desigualdades e sarcasmos cotidianos, o ambiente universitário é para a maioria dos alunos afrodescendentes mais do que hostil. É solitário. Na busca por espaços de representatividade e troca, os estudantes se organizam em coletivos para discutir e encontrar respiro frente à intolerância. No Núcleo Negro da Universidade Federal de São Paulo (NNUG-Unifesp), unidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, os alunos negros cotistas se reúnem quinzenalmente há dois anos para estudar outras referências além das hegemônicas e eurocêntricas.

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Anna Raquel: ‘Temos de criar formas de nos fortalecer, inspirar, compreender e enfrentar o racismo institucional no qual estamos matriculados’

“O ambiente universitário, acadêmico, não é amistoso com aluno negro, com aluno cotista. Temos de criar formas de nos fortalecer, de nos inspirar, de compreender e de enfrentar o racismo institucional no qual estamos matriculados, para conseguirmos sobreviver e permanecer na faculdade”, define uma das integrantes do núcleo, Anna Raquel da Silva, 21, estudante de História.

Embora 158 instituições de ensino superior tenham aderido a ações afirmativas em seu processo de ingresso no curso, a maior instituição de ensino da América Latina, a Universidade de São Paulo (USP), após muitas reivindicações de movimentos sociais, decidiu adotar neste ano o ingresso de alunos por meio da avaliação do Enem. Para a estudante de música Ana Paula Marcelino, 24, a USP não se abre para as cotas porque não quer ser uma universidade inclusiva, diversa e plural. “A instituição não está disposta às mudanças estruturais que as comunidades negras e indígenas irão propor”, diz.

Para enfrentar o ambiente, segundo ela, “inóspito” da Escola de Comunicação e Artes (ECA), os estudantes criaram o coletivo Opá Negra, formado por alunas de diversos cursos de artes e comunicação. “Criamos a Opá para conseguir nos enxergar, nos ouvir e nos falar. Nos reunimos e discutimos formas de encontrar outras referências bibliográficas, outros meios de atuar. E intervimos simbolicamente no departamento, promovendo seminários periódicos.” Segundo a estudante, o grupo já conseguiu que um professor mudasse a bibliografia do curso e incluísse um livro sobre racismo no cinema.

Desde o início de sua implementação, ações afirmativas, como as cotas, provocaram fortes mudanças sociais. Se antes um jovem negro da periferia estava condicionado a ser pedreiro, segurança ou office-boy, ou as mulheres negras estavam condicionadas ao serviço doméstico ou prestação de serviço, há mais de uma década isso vem se transformando. As periferias brasileiras se transformaram em espaço de experimentação, produção cultural e de pensamento. Existe mais geração de ex-cotistas produzindo e atuando em coletivos jovens, feministas e artísticos e subvertendo a engrenagem de um sistema excludente, desigual e violento.

Por mais que o mercado de trabalho ainda seja segregador e desigual, as filas de empregos, os departamentos de pós-graduação e de recursos humanos das empresas se obrigam a lidar com uma nova realidade: a de ter profissionais negros concorrendo a vagas que antes eram destinadas à população branca. Que tais mudanças incomodam e provocam erupções nos meios conservadores brasileiros, não se tem dúvida. Contudo, como diz a filósofa Djamila Ribeiro em entrevista à Revista do Brasil, tais mudanças não podem parar e tampouco retroceder.