#EuMulherNegra

Movimento negro precisa eleger bancada no Congresso, defendem militantes

Representação parlamentar seria o meio mais eficiente de garantir continuidade das pautas para negros. “Precisamos agora dar esse passo além para ter a igualdade que procuramos”, diz especialista

Thais Mallon / Marcha das Mulheres Negras
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Marcha das Mulheres Negras em 2015: luta por direitos e para que a sociedade mude de postura e derrube preconceitos

São Paulo – Mulheres do movimento negro defenderam ontem (18) que é necessário que os militantes construam e elejam uma bancada de parlamentares no Congresso Nacional para defender pautas e políticas públicas específicas para o povo negro. “Queremos nos sentir parte do país de forma plena, não com resquícios que fazem com que tenhamos que lutar o tempo todo por direitos sociais”, disse a integrante da União de Negros pela Igualdade (Unegro) Rosa Anacleto, durante programação ao vivo no Facebook sobre mulheres negras, organizada por entidades do movimento.

Até às 22h houve transmissões de manifestações, debates, pesquisas e mobilizações das mulheres negras em diversas cidades do país. O conteúdo pode ser seguido com as hashtags #EuMulherNegra #MarchadasMulheresNegras1Ano e #Rumoao20deNovembro ou na página do Núcleo Impulsor do Estado de São Paulo da Marcha das Mulheres Negras.

“Precisamos construir candidaturas negras de homens e mulheres. Vimos que uma bancada da bala consegue fazer as coisas acontecerem como querem. Nós não vamos conseguir fazer nossas pautas avançarem se não estivermos lá, com outros parlamentares progressistas. Precisamos agora dar esse passo além para ter a igualdade que procuramos no nosso país como cidadãos brasileiros”, afirmou Rosa.

A deputada Leci Brandão (PCdoB) afirmou, em outra mesa, que é mais do que nunca o momento de os negros ocuparem os espaços de poder, “gerenciando e comandando”, segundo a deputada. “Nossa ancestralidade sofreu muito para que a gente chegasse onde chegou. Vamos invadir universidades, tomar conta das empresas, lutar pelo empreendedorismo nesse país e ajudar nossas famílias e ter consciência de que a gente pode.”

O movimento negro pretende levar um milhão de manifestantes às ruas neste domingo (20), Dia da Consciência Negra, em diversas cidades do país, com a 13ª Marcha da Consciência Negra.  A programação nas redes sociais ocorre para marcar o aniversário do primeiro ato específico das mulheres negras em comemoração ao 20 de novembro, que foi realizado a exatamente um ano, quando milhares de mulheres saíram às ruas para reivindicar direitos.

O principal mote do ato de domingo será o “Fora, Temer!”, em alusão à saída do presidente do cargo. Militantes do movimento afirmam que, com ele à frente do governo federal e com sua política de corte de investimentos, as ações afirmativas para garantir direitos à população negra devem estagnar. “Nossos direitos estão realmente ameaçados e os negros serão os primeiros a sofrerem as consequências disso”, disse Rosa, lembrando que os negros são maioria entre os pobres do país. “Os direitos democráticos estão ameaçados e quando não tem democracia as pautas sociais não avançam.”

“Essa marcha do ano passado permitiu que entregássemos uma pauta de reivindicações para (a então presidenta) Dilma Rousseff. Pensávamos que haveria diálogo. Tudo mudou com Temer”, disse a coordenadora nacional de Entidades Negras, Sandra Mariano, em bate-papo transmitido online. “Nós, enquanto movimento social, vemos as coisas paralisadas. Que cenário teremos até a eleição de 2018 sem Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, sem o Comitê Técnico de Saúde da População Negra e sem a Secretaria de Políticas para as Mulheres”, pergunta. Esses órgãos foram extintos pelo governo de Temer.

Leci Brandão lembrou que o legado positivo deste período é a mobilização dos jovens para valorizar a cultura negra e as políticas de inclusão social. “Nada vai ser permanente. Muita gente que pensava que tinha muito poder de uma hora para outra perdeu. Nós também temos que ter a esperança que vamos reconquistar nossos direitos”, disse,  lembrando que o racismo ainda é muito presente na sociedade brasileira. “Tenho amigos negros que tiveram a oportunidade de comprar um carro e são parados em todas as blitze. Isso é racismo. Prestem atenção na mídia: os negros não são inseridos. As crianças não têm referencia, não veem ninguém da cor da sua pele, só em situações negativas.”

“Não dá para tratar os diferentes de maneira igual. Por séculos foram-nos negados direitos, não há como as políticas de habitação, saúde e juventude serem as mesmas para todos”, reivindicou a também diretora da Unegro, Mari Mendonça, ao participar da programação. “Os pais e mães devem verificar se há ensino da cultura negra no plano político das escolas, porque não temos uma história eurocêntrica. Tenho que saber de onde eu vim e quem são meus heróis. É triste só descobrir depois de adulta que Mário de Andrade e Machado de Assis eram negros.”

Desigualdade em Dados

O número de homicídios de mulheres negras aumentou 54,2% entre 2003 e 2013, passando de 1.864 para 2.875, segundo o Mapa da Violência 2015. Nesse período, o total de assassinatos de mulheres brancas caiu 9,8%. As mulheres negras são também as maiores vítimas de estupros e de violência doméstica no Brasil, representando 60% das agredidas por pessoas conhecidas em 2013, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE.

A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Anualmente, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são mortos. A taxa de homicídios entre jovens negros é quase quatro vezes a verificada entre os brancos, segundo dados do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Assassinato de Jovens no Senado, encerrada em junho deste ano.