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Crescem alertas de invasão de privacidade pelo ‘Pokémon Go’

Comissária alemã diz que jogo é uma máquina gigante de coleta de dados e que pode espionar o usuário; termo de uso do jogo afirma que empresa colabora com governo e agentes privados para cumprir a lei

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‘Pokémon Go’: autorização para identificar e deter atividade ilegal, antiética ou legalmente processável

São Paulo – A comissária para a privacidade no estado alemão de Schleswig-Holstein, Marit Hansen, lançou um alerta sobre o Pokémon Go. Em entrevista ao jornal alemão Handelsblatt publicada ontem (5), Hansen afirmou que o jogo armazena dados “exatos e detalhados” de cada movimento dos usuários pelas ruas. “É uma máquina gigante de coleta de dados”, disse, acrescentando que o aplicativo de realidade aumentada, além de espionar, também pode condicionar o comportamento do consumidor.

O Pokémon Go foi criado pelo norte-americano John Hanke, um dos homens que ajudou a construir o Google Earth. Ele é CEO da Niantic Labs, a empresa que lançou o jogo, e tem também em seu currículo a Keyhole, Inc., empresa comprada pelo Google e usada para desenvolver a tecnologia do Maps, Earth e o Street View.

Uma das empresas ligadas à Keyhole, a In-Q-Tel, foi fundada pela CIA em 1999. Uma reportagem de abril deste ano, no The Intercept, do jornalista Glenn Greenwald, que tem denunciado o golpe no Brasil para o mundo, mostra que a In-Q-Tel, uma “venture capital” da CIA que recebe investimentos de 38 companhias, desenvolve tecnologia por meio de algoritmos que detectam ameaças em potencial, ou “ameaças internas”, e inteligência artificial para peneirar um grande volume de dados. A pesquisa da empresa é voltada para a “mineração” social e vigilância de mídia.

Quando o jogador entra no aplicativo do jogo tem de responder três perguntas: se o usuário permite o acesso a fotos, mídia e arquivos; o acesso a contatos e, ainda, se permite que tire fotos e grave vídeo. A aceitação dessas permissões, mais a habilitação do GPS para o jogo operar, proporciona o uso pleno de suas funcionalidades.

Nos Emirados Árabes, há poucos dias, o governo por meio de seu setor de telecomunicações alertou os usuários do jogo que não ativassem a gravação de fotos e vídeos dentro de casa.

Outro problema relacionado ao jogo é que os monstros a serem capturados podem ser manipulados pelos jogadores. Há uma ferramenta que permite jogar iscas para atrair um jogador para determinado local. Por conta disso, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, proibiu que cerca de três mil criminosos sexuais do estado usem o Pokémon Go. O governador disse que a ferramenta pode ser usada por predadores em busca de crianças. Em sua defesa, a Niantic informa em seu site que a idade mínima para seus jogos é de 13 anos.

O fim da privacidade?

No termo de uso do jogo, ou na “política de privacidade” informada ao usuário, a Niantic afirma: “Nós cooperamos com o governo e forças da lei ou com agentes privados para fazer cumprir com a lei. Podemos revelar qualquer informação sobre você (ou seu filho autorizado) que está em nossa posse ou controle para o governo ou forças da lei ou agentes privados, já que, em nossa única discrição, achamos necessário ou apropriado: (a) para responder as reclamações, processo legal (inclusive intimações); (b) proteger nossa propriedade, direitos e segurança e a propriedade, direitos e segurança de terceiros ou do público no geral; e (c) para identificar e deter qualquer atividade que consideremos ilegal, antiética ou legalmente processável”.

“Eu não acredito que tenha sido criado com o objetivo de espionar as pessoas, mas sim, ao concordar com a instalação do aplicativo, você está dando acesso livre às suas informações pessoais. Mas alguém já parou para avaliar os termos de uso de Facebook e do Google? Dois softwares que usamos diariamente, há anos, e que fazem parte de nossas vidas”, afirma o especialista em games Guilherme Kyoji. “Nunca ninguém leu e ninguém vai ler. Mas eles têm tudo que você pode imaginar. Endereço, telefone, nome, idade, tudo, sua vida toda está nas mãos de diversas empresas. O que faremos? Deixar de usar Google, Facebook?”, pergunta. Para Kyoji, o Pokémon Go radicaliza uma tendência que já vem com as redes sociais, que é o fim da privacidade.