Contranarrativa

Jornalistas Livres: disputar a batalha da informação é possível

Para representante do coletivo, movimentos de esquerda precisam parar de falar apenas entre si e romper limites. 'Todos nós podemos ser repórteres'

Danilo Ramos/RBA
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Acesso à internet cumpre papel essencial na resistência ao golpe que levou programa derrotado nas urnas ao poder

São Paulo – Com um exemplo simples, Laura Capriglione, do coletivo Jornalistas Livres, procura demonstrar as possibilidades do alcance das redes sociais, em contraponto aos meios de comunicação tradicionais. “É muito fácil, na Folha de S. Paulo, publicar uma estatística. Estatística não comove ninguém. Quem deu nome ao Amarildo foram as redes sociais. Isso muda a narrativa”, afirma, referindo-se ao pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido no Rio de Janeiro em 2013 durante uma operação policial, cujo episódio ecoou pelo país por meio do bordão “Cadê Amarildo?”. Para a jornalista, com a disputa nas redes sociais é possível tentar equilibrar um jogo marcado pela concentração empresarial.

Ela dá exemplo do próprio coletivo, criado em março de 2015. “Um ano depois, a gente estava atingindo 20 milhões de timelines, 20 milhões de pessoas no Facebook. É possível, sim, fazer a contranarrativa”, disse Laura, durante evento que reuniu vários movimentos sociais, ontem (31) à noite, na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, na região central da capital.

“Fazer a contranarrativa” consiste em passar a mensagem adiante. “Na rede social, a gente não lê apenas, é também o ‘jornaleiro'”, diz Laura. “O segredo é a gente entender que é preciso que todos compartilhemos essa informação”, acrescenta, citando o primeiro verso do poema Tecendo a Manhã, de João Cabral de Melo Neto: Um galo sozinho não tece uma manhã. “Queremos que cada um de vocês seja repórter, para que a gente possa amanhecer este país.”

Poucas empresas

A jornalista cita outro exemplo, da ocupação das escolas estaduais de São Paulo pelo alunos, em protesto contra o desvio de merenda e por melhores condições nos estabelecimentos, quando o governo paulista tentou incriminar os estudantes. “Eles não hesitaram em chamar aqueles meninos de invasores de suas próprias escolas.” Seguiram-se ações de melhorias nas unidades de ensino, a partir dos próprios alunos, e outras atividades, como saraus, com divulgação pelas mídias sociais. “E a opinião pública começou a mudar.”

De certa forma, as redes hoje cumprem um papel da chamada mídia alternativa ou “nanica” atuante no período autoritário. “Na época da ditadura não havia internet, a imprensa independente precisava ser feito em papel. Hoje em dia não custa nada compartilhar um post”, afirma Laura, defendendo o uso intenso dos celulares como ferramentas de comunicação. “Cada homem, mulher, trabalhador rural, sem teto, pode ser repórter. Todos nós podemos ser repórteres.”

Isso torna-se mais importante em um setor comandado por um pequeno número de empresas. “É preciso reconhecer que eles conseguiram contaminar o povo brasileiro com essa narrativa de ódio que fomentaram durante estes 14 anos. Não é democrático um país em que seis famílias controlam toda a imprensa”, diz Laura. “São as mesmas que fomentaram o golpe de 1964, que em 1954 levaram ao suicídio de Getúlio Vargas. Eles têm ódio dos movimentos sociais, de um salário mínimo decente, da reforma agrária, dos sem-teto, dos avanços sociais.”

Alguma coisa tem mudado, observa a integrante do Jornalistas Livres. “A Rede Globo nunca foi tão contestada como hoje. Hoje, jornalistas da Globo que vão cobrir alguma manifestação têm de esconder”, afirma Laura, acrescentando ser contra violência aos profissionais. “Não quero que ninguém apanhe. Não é contra o jornalista, é contra a Globo.”

Para ela, é preciso que os movimentos cruzem seus conteúdos, de forma a espalhar a informação por outros segmentos, especialmente os não engajados. “Somos ótimos para falar com a gente mesmo. Mas a gente não pode se dar ao luxo de falar só entre nós, precisamos romper os limites da nossa própria comunidade.”