Outro modelo

Críticas à esquerda marcam abertura de Festival da Utopia

“Se assumimos o poder e não mudamos as terríveis leis criadas pela burguesia, não podemos realizar mudanças profundas”, diz Aleida Guevara, filha de Che

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Utopia

A pediatra cubana Aleida Guevara, filha de Che, critica a reaproximação dos EUA com Cuba: utopia do inimigo

Maricá (RJ) – Os sentidos da utopia, as possibilidades concretas de mudar o mundo e uma reflexão sobre os erros e acertos das esquerdas no mundo foram o aperitivo do Festival da Utopia aberto ontem (22), em Maricá, a 60 quilômetros da capital fluminense. Esses componentes – que fazem lembrar o Fórum Social Mundial – devem ser os ingredientes de todo o evento, que vai até domingo (26) e reúne 5 mil pessoas, participantes de movimentos sociais de mais de 30 países, com objetivo de discutir alternativas ao modelo de desenvolvimento excludente conduzido pelo capitalismo global.

E começou com postura crítica. “Que valor tem uma esquerda que não conta com o reconhecimento popular?”, questionou a pediatra cubana Aleida Guevara, filha do Che. “Se assumimos o poder e não mudamos as terríveis leis criadas pela burguesia, não podemos realizar mudanças profundas.”

Aleida estava acompanhada no primeiro debate do festival do economista João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), e da primeira-dama e deputada estadual Ângela Zeidan (PT). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esperado para compor a mesa de abertura, cancelou a participação na véspera.

Quaquá, que também preside seu partido no estado e está no último ano da segunda gestão à frente da administração, também adotou espírito crítico. “Temos lutado pelo que é possível, e a esquerda tem feito muito pouco”, afirmou. “Lutar pelo possível é quase como não lutar.” O petista enumerou entre os “horizontes utópicos” a buscar para uma sociedade igualitária a democratização dos meios de comunicação, a ampliação da participação social nos governos por meio de consultas públicas via internet, a valorização da história real da América Latina e de seus verdadeiros heróis e heroínas, inclusive os brasileiros.

Stédile lembrou o recente esforço das esquerdas na formação de frentes de atuação contra os retrocessos e se preocupou em avançar na conduta agregadora. “Precisamos reunir militantes que queiram discutir a utopia do possível. Pela primeira vez na história, o ser humano tem a consciência de que o capitalismo domina todo o planeta.”

De acordo com o dirigente do MST, na indústria em todo o mundo, dentro da chamada 4ª Revolução Industrial, 65 milhões de empregos deixarão de existir. O corte no número de postos de trabalho e a inexistência de promoção do emprego e trabalho decente são, segundo ele, as marcas de encontros como o Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos (Suíça), com as presenças de chefes de Estado e empresários envolvidos na governança do capitalismo.

O MST, por exemplo, há algum tempo recicla sua agenda – de início concentrada na luta por distribuição de terras improdutivas –, incorporando fortemente em suas bandeiras a promoção das policulturas, em contraposição à monocultura e ao latifúndio, da agroecologia e da sustentabilidade. O dirigente observou que quando o meio ambiente é apropriado pelo capital, a natureza deixa de servir aos interesses mais básicos do ser humano. Citando o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o coordenador no MST observou que a própria “salvação do capitalismo” passa pela estatização dos sistemas financeiros.

Stédile lembrou a edição recente de uma bula papal de cunho ecologista, com alertas sobre os efeitos nocivos da ação humana à biodiversidade, e elogiou a atuação do papa Francisco para “nos tornemos mais conscientes de nossas ações no meio em que vivemos”.

Utopia do inimigo

Aleida Guevara criticou o governo do Estados Unidos e a recente reaproximação do país com Cuba, que ela classificou como uma “utopia do inimigo”. “Eles têm, há séculos, a utopia de se unir à ilha. É seu sonho irrealizável. E agora estão mudando os métodos. Eles perceberam que cometeram erros com o povo cubano, trataram a revolução cubana com um bloqueio criminoso. E agora falam de abrir novas negociações”, afirmou.

Aleida acredita que uma possível normalização da relação entre os dois países só será possível com a extinção da lei que facilita a permanência dos cidadãos cubanos ilegais, “os únicos no planeta que tem esse privilégio”, com o fim do bloqueio econômico e com o fechamento da base naval estadunidense em Guantánamo.

Com informações do MST