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Torcidas organizadas ampliam participação na vida política do país

Para vice presidente da Associação Nacional das Torcidas Organizadas, momento é de trazer para o debate político parcela maior da população que diariamente vive os problemas sociais
por Sarah Fernandes, da RBA publicado 31/03/2016 09h06
Para vice presidente da Associação Nacional das Torcidas Organizadas, momento é de trazer para o debate político parcela maior da população que diariamente vive os problemas sociais
Jales Valquer /Fotoarena/Folhapress
Gaviões

Torcedores da Gaviões da Fiel realizam ato conta a Confederação Brasileira de Futebol (CBPF)

São Paulo – A participação das torcidas organizadas em questões políticas é importante e deve ser incentivada, já que traz para o debate uma parcela da população que vive o dia a dia dos problemas sociais do país, de acordo com o vice presidente da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), Alex Minduín.

"Essa postura é importante e necessária. As torcidas organizadas não só devem participar da vida política do país, como devem opinar sobre situações que envolvam os municípios e estados onde estão sediadas", disse Minduín. "São ações que se fazem mais que necessárias. As torcidas são parte da sociedade civil organizada e não podem de maneira nenhuma estar fora do processo de discussão política."

O assunto será tema de um debate na próxima terça-feira (5), na Universidade de São Paulo, em um momento em que torcidas usam as arquibancadas para se manifestarem contra o monopólio das transmissões dos jogos de futebol, os desvios na merenda em São Paulo e o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff.

No último dia 6, torcedores do Santos e do Corinthians exibiram faixas com temas em comum durante uma partida na Vila Belmiro. Na Torcida Jovem do Santos lia-se "O monopólio acabou", em referência ao fim da exclusividade dos direitos de transmissão dos jogos do time pela Rede Globo a partir de 2019. Pelo lado corintiano, os torcedores levantavam uma faixa estampada: "FPF = Federação de Palhaçada e Falcatrua".

Na manhã do mesmo dia, a torcida do Juventus, time paulistano que disputa a série A-2 do campeonato paulista, também protestou com faixas que diziam "Cadê a merenda?", endereçada ao governo de Geraldo Alckmin (PSDB) e ao presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB), por conta das denúncias de desvio de verba pública que deveria ser destinado à alimentação escolar. O árbitro mandou parar o jogo e ordenou que a PM recolhesse as faixas.

Minduín destacou ser necessário que movimentos sociais e torcidas organizadas atuem de maneira conjunta, somando forças. "Quando as torcidas organizadas se envolvem em um debate político, elas trazem para a discussão quem vive o dia a dia dos problemas sociais e insere pessoas que passam a ficar atentas sobre o exercício da sua cidadania."

"A Gaviões da Fiel (ligada ao Corinthians) é a torcida que mais está antenada sobre o que ocorre na sociedade brasileira, mas não podemos descartar a as outras torcidas, como a Mancha Verde (do Palmeiras), a Independente (do São Paulo) e a Torcida Jovem (do Santos). As torcidas de São Paulo, de uma forma distinta entre si, estão se engajando na luta pelos direitos sociais", frisou Minduín.

A torcida corintiana iniciou os protestos contra os desvios na merenda praticados pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB), em fevereiro, quando torcedores conseguiram furar a revista da Polícia Militar na entrada do estádio e ergueram faixas questionando "Quem vai punir o ladrão da merenda?", além de cartazes contra a Globo e a CBF.

"A Gaviões se destaca no envolvimento com questões sociais pela característica dos seus fundadores. A torcida foi criada na década de 1970, em plena ditadura militar. Ela já nasceu militante. Foi uma das únicas instituições que de fato colocou abertamente bandeiras e faixas defendendo a anistia dos presos políticos", diz o vice presidente da Anatorg.

Os protestos ganharam força, inclusive em outras torcidas, após dois diretores da Gaviões da Fiel sofrerem um atentado, no último dia 2, após reunião na sede do Ministério Público, para tratar sobre violência no futebol –o presidente da Gaviões, Rodrigo de Azevedo Lopes Fonseca, conhecido como Diguinho, teve os dois braços quebrados, enquanto o primeiro-secretário Cristiano de Morais Souza, o Cris, perdeu vários dentes. A hipótese de rivalidade entre as torcidas foi refutada pela Gaviões da Fiel e por presidentes de outras agremiações. Para eles, os motivos para o ataque foram políticos.

"Apesar da rivalidade histórica de décadas, temos ideais comuns pelos nossos respectivos times e lutas sociais semelhantes, no combate à péssima (des)organização do futebol brasileiro, com consequências deploráveis e gritantes para a grande massa", disse a Gaviões em nota oficial. "Embora a imprensa e o próprio promotor (do MP paulista) Paulo Castilho estejam sugerindo um ataque realizado por outra torcida, desconfiamos de tal hipótese. Os motivos para tal desconfiança não deve ser mistério para ninguém. Assumimos uma declarada guerra ideológica com setores da sociedade que, apoiados no conservadorismo, não estão acostumados com a contestação."

Serviço
O que? Debate Democracia corintiana contra o golpe
Quando? 5 de abril, às 18h
Onde? Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) - Rua do Lago, 717, Cidade Universitária