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Parada LGBT reafirma luta por direitos e tem presença até de evangélicos

Milhares de pessoas vão à Paulista sob o tema 'Eu Nasci Assim, Eu Cresci Assim, Vou Ser Sempre Assim: Respeitem-me!'. Religiosos rejeitam discurso raivoso de alguns líderes de seitas e cultos

Paulo Pinto / Fotos Públicas
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Parada do Orgulho LGBT de São Paulo continua uma das maiores manifestações por reconhecimento de cidadania

São Paulo – Sob o tema Eu Nasci Assim, Eu Cresci Assim, Vou Ser Sempre Assim: Respeitem-me!, a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo reúne neste domingo (7) milhares de pessoas de diversos perfis e idades nas ruas da região central da capital. A Polícia Militar (PM) não estimou o público participante, pois alega que não faz mais esse tipo de cálculo em eventos dessa dimensão. Entre os destaques da edição deste ano, um grupo de evangélicos foi à Paulista demonstrar repúdio à intolerância religiosa contra a população LGBT.

“P.* que o pariu! E você acha que viu de tudo na vida… que… que… que bacana!”, surpreendeu-se um ciclista, estancando sua magrela diante do Conjunto Nacional, um ponto de referência da avenida. O susto foi ao ler cartazes empunhados pelo grupo de manifestantes evangélicos. “Jesus cura a homofobia”, dizia a principal faixa, estilizada com as cores do arco-íris.

A ação despertou curiosidade e elogios dos transeuntes. Além de dezenas de pedidos de fotos. “Fui batizado e criado na Igreja Quadrangular. Lá é um ambiente onde a homossexualidade é considerada pecado. Fico muito feliz em ver que nem todos os evangélicos discriminam os gays. Só Deus sabe que não se trata de uma escolha minha, eu nasci assim”, conta o jovem bissexual Edson Valdoski, de 18 anos, ao lado da amiga Tais Andrade, também de 18.

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Evangélicos repudiam intolerância e preconceito de líderes religiosos

A ideia de levar cartazes à Paulista em solidariedade ao público LGBT surgiu do teólogo José Barbosa Junior, 44, que já foi pastor na Igreja Batista e hoje participa de cultos numa comunidade chamada Caminho da Graça, na zona sul paulistana. “Não foi algo original. Já tinha visto movimentos semelhantes nas redes sociais. Quando lancei a ideia, não imaginava que teria tanto apoio”. O evento criado na rede social Facebook teve a confirmação de 1,2 mil pessoas pela internet.

Membro da igreja batista, a funcionária pública Fernanda Barreto, 25, ficou sabendo do encontro pela internet e, antes do meio dia, segurava um cartaz em que se lia: “A única coisa que deve ser boicotada é o preconceito”, numa referência à campanha proposta pelo pastor e televangelista Silas Malafaia contra a marca o Boticário, devido à peça publicitária veiculada para o próximo Dias dos Namorados, retratando casais héteros e homoafetivos. “Eu acredito que o que faz mal à família não é a homossexualidade e sim os vícios e a violência, como a cometida contra a mulher”, opinou.

O casal Glauber Ramos, 45, e Adriana Simões, 42, também evangélicos, distribuíam sorrisos e abraços pela Paulista. “Nosso intuito não é ‘evangelístico’. Não viemos aqui para pregar. Queremos deixar claro que não nos sentimos representados por Silas, Feliciano, Bolsonaro”, explicou a mulher.

No vão do MASP

A 19ª Parada do LGBT começou às 10h, com cerca de 1,5 mil pessoas de pessoas no vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP) levando cartazes como ‘Fora Cunha’, em referência ao presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A parada é maior manifestação popular do gênero contra a homofobia e por garantia de direitos. Foram 18 trios elétricos que percorreram a Paulista, passando pela Consolação até chegar à Praça da República, onde, às 21h, está previsto um show de encerramento com 19 atrações diferentes. É o fim de uma extensa programação semanal de debates  e palestras, além da 15ª edição da Feira Cultural LGBT, no Vale do Anhangabaú, que reuniu cerca de 100 mil pessoas.

Discriminações

A cicatriz no braço esquerdo do professor Fábio Custódio, de 49 anos, revela as marcas de intolerância que o levaram a sair com seu namorado de Campinas, no interior de São Paulo, para participar da 19ª Parada do Orgulho LGBT. Custódio e o chefe de cozinha Marcelo Reis, de 32 anos, estão juntos há 14 anos e, neste período, já sofreram duas agressões. Reis também tem cicatrizes decorrentes de atos de violência, cometidos por skinheads e torcedores de futebol.

“O preconceito no cotidiano nós sentimos sempre, mas somos militantes do movimento e, apesar das críticas sobre a Parada [de não cumprir mais seu papel], acredito que isso não seja verdade, pois este é o momento em que muitos homossexuais se assumem. É um momento especial para isso e para ‘marcação’ política na sociedade, apesar da festa. Mesmo com tudo que sofremos, nós fazemos festa neste dia”, disse Custódio.

Uma professora de 36 anos, que preferiu manter o nome em sigilo, disse que foi ao evento para “curtir”, mas que a Parada do Orgulho LBGT é importante, por se tratar de uma festa para promover a liberdade de expressão. Ela ressaltou que dá aulas para crianças e sofre preconceito por parte dos pais, que não aceitam que seus filhos tenham uma professora homossexual.

“Os pais chegam ao extremo de tirar o filho da escola, insultar, cobrar atitudes do dono da escola. São inúmeras formas de manifestação. Eles acham que vai acontecer alguma coisa com os filhos. Mas eu não tenho como combater isso sozinha onde trabalho, porque o preconceito é muito forte. Acho difícil conseguir mudar, por mais que se tente. A parada ajuda, mas não muda a cabeça das pessoas.”

CUT vetada

Pela primeira vez a Central Única dos Trabalhadores não teve um trio elétrico na Parada. Em nota, a CUT considerou como “antidemocrática e autoritária” o veto à participação da principal central sindical do país. A presença do trio elétrico teria sido condicionada ao pagamento de “taxas abusivas para que as organizações participem do evento”.

Em entrevista à Rádio Brasil Atual o presidente da Parada do Orgulho LGBT, Fernando Quaresma, alegou que a razão do veto foi o atraso na entrega do documento de inscrição do trio. “Era até dia 15 (maio) e esse documento chegou à associação no dia 18. Não é nada pessoal contra a participação da CUT. O que existe é a entrega da documentação fora do prazo”, minimizou, o que foi negado pelo secretário de políticas sociais da CUT/SP, João Batista.

A proibição da exigência de taxas para trios elétricos era um dos pontos no Termo de Ajuste de Conduta (TAC), assinado entre a Associação da Parada e a Prefeitura de São Paulo para o uso do espaço da Avenida Paulista. Porém, mesmo com a proibição, as taxas continuaram ser exigidas.

Durante a coletiva de imprensa realizada às 9h de domingo, no auditório da Fecomércio, o diretor da Parada do Orgulho GLBT, Nelson Matias, criticou a TAC, que considerou “leonina” e pediu mais investimentos públicos, principalmente da Prefeitura de São Paulo, reclamando que, mesmo após muitos ofícios, não era atendido pelo prefeito Fernando Haddad.

“Eu penso que quanto mais transparência melhor. Podemos fazer, inclusive, com concorrência aberta, chamar toda a comunidade LGBT, abrir um edital, e, invés de tomar decisão de gabinete, a gente abre e julga a melhor maneira. Vamos fazer do jeito que sabemos. Com transparência. Com audiência pública, abrindo os números. Eu acho que deveríamos sair daqui mais unidos e não o contrário”, rebateu Haddad, sendo muito aplaudido pelo público que acompanhava. O prefeito ressaltou ainda que a prefeitura aportou 1,3 milhão de reais nesta edição da Parada.

Alckmin cobrado

Outro momento de tensão durante a coletiva de imprensa foi quando um jornalista do coletivo Jornalistas Livres entregou ao governador Geraldo Alckmin um dossiê com denúncias sobre o caso da travesti Verônica Bolina, reproduzindo um áudio onde Verônica repetia frases ditadas supostamente pela coordenadora estadual de política de defesa e promoção dos direitos LGBT, Heloísa Alves, em que negava ter sido torturada na 78ª Delegacia de Polícia de São Paulo. Enquanto ativistas gritavam palavras de ordem, chamando a polícia do governo Alkmin de torturadora, os secretários de segurança, Alexandre Moraes, e de desenvolvimento social, Floriano Pesaro, presentes à mesa da solenidade de abertura, defendiam-se dizendo que se tratava de “mentira”.

Ainda durante a coletiva, Fernando Quaresma lamentou o atual cenário político na Câmara e Senado Federal, o que considerou um retrocesso. “Todos os dias recebemos agressões em diversos meios que ferem nossa autoestima, falando em curas e terapias. Abordando nossas orientações sexuais e identidades de gêneros como um mal que precisa de um tratamento.”

Com reportagem da Agência Brasil