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Para ativistas, aumento no nível do Cantareira está longe de ser solução para abastecimento

Variação positiva registrada desde o início de fevereiro é insuficiente para recompor volume morto e recuperar a normalidade do reservatório. Coletivo prepara representação contra Alckmin
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 25/02/2015 08h48, última modificação 25/02/2015 09h34
Variação positiva registrada desde o início de fevereiro é insuficiente para recompor volume morto e recuperar a normalidade do reservatório. Coletivo prepara representação contra Alckmin
Marlene Bergamo/Folhapress
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São Paulo – O aumento do volume de água ocorrido nos reservatórios da Região Metropolitana de São Paulo, em especial no Sistema Cantareira, que atingiu 10,7% ontem (24), está longe de ser o milagre esperado por algumas autoridades para solucionar a crise hídrica que assola a população desde janeiro do ano passado. O sistema, que abastece 6,6 milhões de pessoas, está pelo menos 18% abaixo do nível operacional normal, já que a Sabesp está retirando água do volume morto. E a companhia ainda segue utilizando água dos demais reservatórios para suprir cerca de 2,2 milhões de habitantes que antes eram abastecidos exclusivamente pelo Cantareira.

Essa é a avaliação de ativistas da Aliança pela Água, grupo que agrega 40 entidades de meio ambiente, de direito do consumidor e organizações não governamentais de vários setores. "Mesmo com essas chuvas as represas estão com níveis piores do que em fevereiro do ano passado. Ainda é muito cedo para dizer se essa subida do volume representa um alívio. Pode ser um alento em período que não estava chovendo, mas está muito longe de ser solução", explicou Marussia Whately, coordenadora da Aliança.

Neste mesmo período do ano passado, o Cantareira tinha 17,1% do volume útil. O Sistema Guarapiranga estava com 67,1% (hoje, 57,4%);, o Alto Tietê, 39,2% (contra atuais 18,3%); o Alto Cotia tinha 55,7% (36,7%); a Billings, 93,5% (83,1%); e o Rio Claro, 95,5% (35,4%).

Mesmo assim, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), já cogita postergar a divulgação do funcionamento do rodízio e do chamado gatilho – percentual de reserva de água nas represas que indicaria a necessidade de iniciar o racionamento –, que nem sequer foi definido oficialmente. Pode ser aplicado um esquema de dois dias com água e quatro sem ou 12 horas com água e 36 com as torneiras secas. O planejamento é esperado para algum momento desta semana.

A principal questão para Marussia é que, apesar da informação oficial, o Sistema Cantareira ainda precisa recuperar, pelo menos, os 182,5 bilhões de litros da primeira cota do volume morto e mais uma parte da segunda cota (105 bilhões de litros). "Não é uma situação confortável para trabalhar os sistemas nos próximos seis meses de estiagem. O que vai permitir uma avaliação precisa são as chuvas até o fim de março, mas nossa avaliação é que este ano será difícil", explicou Marussia.

Ontem a Aliança organizou uma aula pública, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), região central da capital, para debater a situação atual e dialogar com outros movimentos sobre ações para mobilizar a população para o enfrentamento correto da iminente falta de água. O ato reuniu cerca de 100 pessoas, que puderam participar de uma oficina de construção de cisternas e ouvir relatos de habitantes que já sofrem com a escassez.

Ações urgentes

As entidades seguem reivindicando de Alckmin um plano de contingência, como proposto pela organização em 9 de fevereiro, em documento apresentado formalmente e até agora ignorado pelo governador.

A Aliança defende que seja composta uma força-tarefa da qual participem governo federal – através da Agência Nacional de Águas (ANA), das Forças Armadas, do Ministério das Cidades, entre outros –, conselhos temáticos estaduais, universidades, movimentos sociais, organizações da sociedade civil (defesa do consumidor, meio ambiente, direitos humanos), representantes de setores econômicos e sindicatos.

Esse grupo seria composto também pelas instituições propostas para o comitê de gestão da oferta de água, que contaria com prefeituras, Ministério Público, Defensoria Pública e organizações de defesa do consumidor, coordenado pela Secretaria Estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, com objetivo de planejar medidas como redução de pressão, racionamento e rodízio de água, definindo cronograma e identificando alternativas para evitar cortes de água para serviços essenciais.

O grupo defende ainda ações de reflorestamento da mata ciliar das represas e programas de reutilização da água e tratamento de esgotos.

A militante do movimento Juntos! e da Assembleia Estadual da Água Andreia Bianchi avalia que essa postura é parte da atitude de Alckmin de esconder a severidade da crise e ressalta que o problema não é só ambiental, mas político. "É um absurdo o governador não vir a público apresentar um plano. Muita gente ainda pensa que a falta de água é problema de tomar ou não banho um dia ou outro. Mas a falta de água afeta o preço dos alimentos, cozinhar, lavar roupa, o uso dos banheiros, até a produção da indústria", alertou.

O coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento, Edson Aparecido da Silva, integrante do Coletivo de Luta pela Água, defende que seja decretado estado de emergência – o que possibilita o pedido de socorro financeiro à União – e que todos os poços artesianos da região metropolitana da capital paulista sejam declarados de utilidade pública, para garantir o abastecimento.

O coletivo pretende ingressar no próximo mês com uma representação no Ministério Público Estadual, pedindo investigação de responsabilidades pela crise, seja por omissão – ações e obras que deviam ter sido realizadas e não foram – ou por ação nociva, como a redução de pressão da água distribuída pela Sabesp, que diariamente deixa milhares de famílias sem água. "A população está brigando entre si, por que o vizinho está lavando o carro, e deixando os verdadeiros responsáveis de lado", disse Silva.