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crise hídrica

Marcha dos sem-teto alerta contra racionamento seletivo do governo Alckmin

Caminhada do Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, ao Palácio dos Bandeirantes reúne 9 mil pessoas; manifestantes protestam contra falta de água em bairros da periferia
por Carol Scorce, para a RBA publicado 27/02/2015 10h18, última modificação 27/02/2015 12h46
Caminhada do Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, ao Palácio dos Bandeirantes reúne 9 mil pessoas; manifestantes protestam contra falta de água em bairros da periferia
MTST
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Concentração no Largo da Batata: Luciana Genro discursa aos manifestantes; crise reflete falta de políticas públicas

São Paulo – "Não vamos permitir que os pobres paguem pela falta d'água", diziam os sem-teto que saíram em passeata pela avenida Faria Lima no final da tarde desta quinta-feira (26), em ato contra a falta d'água na região metropolitana. Sem confrontos com a polícia e em meio a uma animação que agregou bom humor à marcha, no que parecia ainda uma ressaca do carnaval, cerca de 9 mil pessoas se deslocaram da concentração no Largo da Batata, em Pinheiros, pela avenida Faria Lima em caminhada que por volta de 21h chegou à sede do governo do estado, no Morumbi.

Na avaliação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), responsável por puxar a mobilização popular, o problema do abastecimento é consequência da falta de políticas públicas da gestão do governador Geraldo Alckmin. "O racionamento já existe na periferia. E não é redução de pressão, é corte. São muitos dias sem água nas torneiras das famílias pobres. É o racionamento seletivo. O que o governo fez foi pegar o dinheiro da tarifa e entregar para os acionistas da Sabesp, para o capital estrangeiro, em vez de se preparar para o período de seca", afirma o coordenador nacional MTST, Guilherme Boulos.

A manifestação começou por volta das 17h, e quando saiu em marcha pela Faria Lima, o trânsito ficou totalmente interrompido no sentido da zona sul. Com o avançar da noite, os sem-teto apertaram o pé para chegar ao Palácio dos Bandeirantes em tempo de serem recebidos pelo governador.

Alckmin não apareceu, e quem recebeu a comissão formada por lideranças do MTST e dos demais movimentos apoiadores da marcha foi o chefe da Casa Civil, Edson Aparecido. Uma carta de recomendações foi entregue a Aparecido, incluindo pedidos que iam desde a distribuição de caixas d'água para famílias de baixa renda até o fim dos chamados 'contratos de demanda firme', da Sabesp, que beneficiam com tarifas menores as empresas que compram mais água da companhia, seguindo a lógica do mercado de que quem compra mais, paga menos.

"Água não é mercadoria, é um bem essencial à vida, um direito da população. É inadmissível que o consumidor comum pague multa por aumento no consumo, enquanto o Shopping Iguatemi, o Clube Pinheiros, a Rede Globo, têm desconto por jogar água no bueiro", disse Boulos.

Do Largo da Batata à sede do governo do estado, a Polícia Militar apenas acompanhou, com efetivo de não mais de meia dúzia de agentes, além de poucas viaturas. A PM também não registrou nenhum ato de depredação do patrimônio público.

Entre os manifestantes, um grupo pintado com carvão formou a ala do Volume Morto, em alusão à água da reserva técnica do sistema Cantareira, que está sendo usada pela Sabesp para manter o abastecimento. Um caminhão-pipa doado ao movimento também acompanhou os sem-teto, mas não sem a escolta de militantes fantasiados de agentes da Polícia Militar. Um boneco de Alckmin foi carregado pela Faria Lima dentro de uma banheira. De tempos em tempos, sem-tetos davam banho no boneco com canequinhas.

A auxiliar de limpeza Luciana Dias, coordenadora de grupo no acampamento do MTST no Campo Limpo, marchou vestindo um jaleco branco. "Estou representando os profissionais da saúde, que vão ser ainda mais importantes nesse período. Sem água não tem saúde, e as pessoas já estão começando a adoecer usando água suja, que não sabemos de onde vem e nem como tratar."

Já durante a reunião na sede do governo os sem-teto que engrossavam o coro por água do lado de fora começaram a se dispersar.

Chamado pelo MTST, responsável majoritariamente pela massa de gente que se espalhou pelas ruas até o Palácio dos Bandeirantes, o ato contra a falta d'água contou também com apoio e presença da CUT, União Estadual dos Estudantes (UEE), Sindicato dos Trabalhadores de Água e Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), coletivos Juntos e Rua. Candidata à presidência nas últimas eleições, Luciana Genro, do Psol, também engrossou o caldo dos articuladores do movimento desta quinta.