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Para conter grupo isolado, PM ataca a todos em ato contra alta das tarifas do transporte

Manifestação ocorria pacificamente, até que cerca de 50 pessoas começaram a depredar lixeiras. A reação desproporcional da PM provocou correria e feridos. MPL considera participação popular positiva
Publicado por Rodrigo Gomes, da RBA
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Danilo Ramos / RBA
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Soldados do Choque da PM ataca manifestantes do ato contra a tarifa de ônibus em São Paulo: truculência de sempre

São Paulo – O primeiro ato contra o reajuste das tarifas do transporte público na capital paulista – que entrou em vigor na última terça (6) – terminou sob forte repressão policial, na noite de ontem (9). Com bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes, a Tropa de Choque da Polícia Militar (PM) atacou as cerca de oito mil pessoas  que participavam do ato público, em ruas da região central da capital.

Tudo começou quando cerca de 50 manifestantes, que vinham à frente e separados dos demais participantes da marcha, começou a depredar lixeiras e, segundo a PM, uma agência bancária. A polícia deteve quatro deles e logo o clima tenso tomou a esquina das ruas Da Consolação e Matias Ayres.

“Os blackblocks estavam à frente do ato. O que a gente estava fazendo era se distanciar, por que depois sai ‘treta’ e a gente ‘se ferra’. Essa parte da rua da Consolação já estava ‘estourada’ e não foi a gente. A gente seguiu e de repente começou a cair bomba na nossa direção”, relatou o militante do MPL Heudes Cássio da Silva.

Antes de iniciar as depredações, o grupo já tivera um desentendimento com militantes do Movimento Passe Livre (MPL), organizador do ato, ao entrar na rua da Consolação – eles queriam formar o primeiro bloco da marcha, enquanto o MPL pedia para que todos se posicionassem atrás de uma grande faixa, que estampava a frase ‘contra a tarifa’.

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Faixa contra a tarifa de ônibus abriu marcha organizada pelo MPL na capital paulista

Após cerca de uma hora de concentração, em frente ao Teatro Municipal, os manifestantes seguiram em direção à Avenida Paulista, sempre sob a vigilância de um contingente 800 policiais – a PM tomou a rua da Consolação nos dois sentidos.

Porém, ao chegar próximo ao local onde soldados mantinham quatro pessoas detidas, a marcha foi recebida com uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, disparadas em todas as direções. Numa ação conjunta, os policiais posicionados ao final da passeata também começaram a bombardear os manifestantes, que ficaram encurralados.

Houve muita correria. Um grupo seguiu no sentido da avenida Angélica, dividindo-se novamente entre os que subiram sentido avenida Paulista e os que desceram para o estádio do Pacaembu. Outro grupo tentou seguir para a rua Augusta. Policiais os perseguiram com cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

O cruzamento ficou sob uma nuvem de gás lacrimogêneo. Viaturas percorriam as ruas da região em alta velocidade atrás de manifestantes. As ruas Matias Ayres, Maceió e Bela Cintra, e a avenida Angélica se tornaram praças de guerra. Muito lixo queimado, algumas barricadas e portas de banco destruídas. Soldados da Tropa de Choque da PM percorriam as ruas com escudos, disparando balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

Ao fim do tumulto, mais de 50 manifestantes haviam sido detidos. Antes de ser encaminhados a delegacia, a PM os manteve cercados e sentados no chão, sem permitir que nenhum outro ativista – e nem advogados – pudessem se aproximar. A PM não usou algemas, mas abraçadeiras plásticas de nylon para imobilizar os presos. Os manifestantes foram levados para o 1º, 4º e 77º Distritos Policiais e para o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic).

Comandante da operação, o major PM Larry afirmou que “lá (no Deic) já existe uma investigação em curso”, em referência ao inquérito nº 1, de 2013, aberto para investigar e monitorar – ilegalmente, segundo os ativistas – as mobilizações e os militantes do MPL.

Uma ativista da chamada Fanfarra do Mal, que anima os ativistas durante os atos, se feriu com estilhaços de bomba. Dezenas de pessoas tinham escoriações e marcas de agressão por cassetetes. Entre eles, André Bozó, observador legal – voluntário instruído pela Defensoria Pública e organizado pelos Advogados Ativistas – que foi golpeado no cotovelo esquerdo e não conseguia mexer o braço. Nenhum policial se feriu.

A manifestação foi dispersada 450 metros antes do local que havia sido definido para encerrar o protesto: a praça do Ciclista, na esquina das avenidas Paulista e Angélica.

Apesar do final turbulento, os militantes do MPL ficaram animados com a mobilização da primeira manifestação. “Nós não vamos parar. Dia 16 teremos um novo ato no centro. Até lá haverão muitas mobilizações na periferia, reuniões para debater o transporte coletivo”, afirmou Heudes. O objetivo do movimento é revogar o aumento e garantir passe livre universal no transporte coletivo. O próximo ato na região central será no dia 16. Outras ações estão sendo organizadas na periferia da cidade.

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Concentração em frente ao Teatro Municipal antecedeu passeata no centro da capital paulista

Começo tranquilo

As 15h30, pelo menos 50 viaturas da Polícia Militar estavam posicionadas no Vale do Anhangabaú, próximo ao Theatro Municipal, local da concentração do ato, marcada para as 17h. Porém, a revista às pessoas que chegassem ao local, anunciada pela PM dois dias antes, não ocorreu.

A concentração foi tranquila, acompanhada por agentes da chamada “tropa do braço”, especializada em combate corporal – os únicos do grande contingente que não exibiam as respectivas tarjas de identificação.

Os militantes do Passe Livre organizaram uma assembleia para definir o trajeto da manifestação. O mais votado foi o que saía do Teatro Municipal, seguia pelas avenidas São João e Ipiranga, e subia a rua da Consolação até a praça do Ciclista, na esquina das avenidas Paulista e Angélica. Nesse momento havia cerca de três mil pessoas no local.

Às 18h a marcha saiu. O ato seguiu pacífico, uma grande festança com fanfarra, cantoria, vários movimentos sociais – como União Nacional dos Estudantes (UNE) e Rede de Comunidades do Extremo Sul –, partidos políticos e ativistas. Mesmo alguns mascarados, que segundo a legislação estadual deviam ter as máscaras apreendidas, circulavam livremente na marcha. Conforme caminhava, a manifestação ia ganhando gente. Quando entrou na rua da Consolação, já eram cerca de seis mil pessoas.

Ocorreram poucos momentos de tensão. Um deles quando policiais detiveram três manifestantes para averiguação. No entanto, após a revista das mochilas, eles foram liberados. Outro foi quando uma parte da marcha entrou por meio dos carros que desciam a rua da Consolação. Um tronco foi colocado na via para impedir a circulação. Mesmo assim, os policiais não agiram contra os manifestantes.

Próximo ao cemitério da Consolação, a marcha atingiu seu ápice, com cerca de oito mil manifestantes protestando contra o aumento das tarifas de ônibus municipal, trem e Metrô em São Paulo, de R$ 3 para R$ 3,50, que começou a vigorar no último dia 6.

Outras capitais

Mal começaram as manifestações contra o reajuste da tarifa e a cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, já revogou o aumento, efetivado em 29 de dezembro. Lá houve manifestação na tarde de ontem, na praça Sete de Setembro, com cerca de 300 pessoas. Na cidade existem três tipo de cobrança. A tarifa que havia subido para R$ 2,20 voltou para R$ 2,05. A que foi a R$ 3,10 baixou para 2,85. E a de R$ 2,50 voltou a R$ 2,30.

O Rio de Janeiro também teve protestos. O primeiro foi na segunda-feira (5), com um grupo de 300 pessoas que realizou uma passeata na Cinelândia para pedir a revogação do aumento das passagens. Ontem, outro ato foi realizado no mesmo local, mas acabou reprimido pela PM carioca. Cerca de 500 pessoas participaram do ato, que chegou a ocupar a estação Central do Brasil. Dois acabaram detidos.

Na cidade o aumento foi questionado pelo Ministério Público (MP), que considera o índice de 13,3% acima do acordado com as empresas de ônibus. A passagem subiu de R$ 3,00 para R$ 3,40. O MP defende uma tarifa de R$ 3,20.