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MPL aposta em adesão da periferia para reverter aumento das tarifas

Segundo ato contra o aumento das tarifas do transporte coletivo, de R$ 3 para R$ 3,50, ocorre amanhã (16), sob tensão em relação à repressão da PM e à atuação dos black blocs

Danilo Ramos/RBA
passe livre

No primeiro ato contra o aumento das tarifas, cerca de 8 mil pessoas protestaram no centro de São Paulo

São Paulo – Na véspera do segundo ato contra o aumento das tarifas do transporte de ônibus, trens e metrô em São Paulo, a militante do Movimento Passe Livre (MPL) Luize Tavares avalia que a repressão policial não vai inibir as mobilizações, que a população entendeu o objetivo do MPL e defende que mais gente se aproprie da luta. “O aumento só vai ser barrado quando as periferias se organizarem. O centro da luta contra a tarifa é a periferia, porque a população mais pobre é a principal afetada pelo aumento e a primeira a deixar de usar o transporte coletivo.”

Segundo Luize, estão sendo organizados debates sobre tarifa zero e manifestações em vários bairros da capital, como Pirituba, Grajaú, M’Boi Mirim, Parelheiros e São Mateus, e também na região metropolitana, como em Guarulhos e Mauá. A página do movimento na internet tem divulgado datas e locais das mobilizações. “São pessoas ligadas a movimentos e gente que não participa de qualquer organização. Isso prova que ninguém depende do MPL para promover uma revolta no seu bairro. Até porque o MPL não é dono da luta. O objetivo é acabar com a tarifa dos transportes”, observou.

Movimentos que apoiam o Passe Livre já entenderam o recado e estão organizando ações paralelas. Na manhã de hoje um grupo de militantes da União Estadual dos Estudantes (UEE) ocupou a frente da prefeitura da capital, reivindicando a extensão do passe livre a todos os estudantes.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) realizou uma manifestação na região central ontem (14) contra o aumento das tarifas da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), do governo estadual, que faz itinerários entre cidades na região metropolitana. Além de também reivindicar demandas ligadas à moradia na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).

“Temos total acordo com a pauta. Moradia e transportes são totalmente relacionados. Teremos atos na próxima semana contra o reajuste das tarifas, na periferia. Por ora não discutimos levar as famílias organizadas pelo movimento aos atos no centro, mas nada impede que isso ocorra no futuro”, explicou o coordenador do MTST Josué Rocha.

Essa também é a posição do coletivo Luta do Transporte no Extremo Sul. O grupo, no entanto, não prepara manifestações no momento, mas sim rodas de discussão sobre a qualidade e a abrangência do transporte coletivo na região, além de debater o reajuste.

“Queremos aprofundar a discussão sobre o transporte como direito. Vários bairros da região nem têm coletivos, as pessoas precisam andar até uma hora para chegar na primeira parada de ônibus”, explica o militante Vinícius Oliveira, que pretende participar do ato de amanhã (16), no centro.

Dever do poder público

Esse processo também está nos planos do Passe Livre. Mas, segundo Luize, o movimento não tem a intenção de “se pautar por números”. “Não temos obrigação de dizer como vai funcionar o orçamento da cidade. De onde tira ou onde coloca o dinheiro. Nosso papel é pautar a tarifa zero, levar as pessoas para as ruas”, afirmou.

O MPL defende que o princípio de justiça social seja equilibrado com uma política tributária para manter um fundo de financiamento do transporte público. “O que a gente propõe é que se invertam as prioridades. Se invista mais em transporte coletivo do que privado. Uma das formas seria a arrecadação progressiva de impostos. Paga mais quem tem mais, paga menos quem tem menos e nada quem não tem dinheiro”, resumiu Luize.

No caso do reajuste que passou a valer no último dia 6, as tarifas de ônibus da capital, trens metropolitanos e do metrô passaram de R$ 3 para R$ 3,50, e as de ônibus metropolitano, que têm diversos valores de acordo com a distância percorrida, subiram até 16%.

O MPL considera que as medidas anunciadas – passe livre estudantil, bilhetes únicos temporais sem reajuste – são insuficientes em relação ao peso que o aumento vai provocar no orçamento das famílias. “Medidas como essas, que não beneficiam nem metade dos usuários do transporte, poderiam compor o financiamento da tarifa de todos”, considerou Luize.

Ela avalia que a prefeitura da capital, por exemplo, poderia ter ampliado a discussão sobre a verificação realizada nas contas do transporte coletivo da capital e os problemas encontrados. Segundo dados da consultoria Ernst&Young, o custo do transporte poderia ser reduzido em R$ 693 milhões com adequações feitas nas remunerações por combustível e equipamentos, além de melhorias na fiscalização. Porém, nem no Conselho Municipal de Transportes e Trânsito (CMTT), criado pelo prefeito Fernando Haddad (PT), o reajuste foi discutido.

O movimento, no entanto, não abre mão do passe livre estudantil, que garante 48 viagens gratuitas por mês para estudantes da rede pública dos ensinos fundamental e médio, para alunos do ensino superior de escolas particulares beneficiados pelo Prouni, pelo Fies ou por cotas e para alunos das universidades estaduais e federais com renda familiar até 1,5 salários mínimos. “Esta é uma conquista das mobilizações de junho de 2013. Não é um presente dos governantes”, afirmou Luize.

Segunda manifestação

A concentração do ato desta sexta-feira está marcada para a praça do Ciclista, na esquina das avenidas Paulista e Angélica, região central da capital paulista. A Polícia Militar (PM) novamente realizou uma reunião para definir a atuação no protesto. Quem vai comandar a operação é o major Victor Fredizzi,do 7º Batalhão da PM, que não definiu a estratégiaexata de ação. As táticas são muito dinâmicas, depende da estratégia da manifestação“, afirmou.

Mesmo assim ele informou que os agentes vão realizar revistas nas pessoas que chegarem para o ato – algo que não foi feito na semana passada – e que contará com 900 policiais desta vez, contra 800 na última sexta-feira.

Para Luize, as ameaças e a repressão só vão motivar mais gente a participar dos atos. “Isso só vai deixar as pessoas mais cientes do que está acontecendo, de por que a polícia reprimiu um ato que vinha sendo pacífico. O que vai fazer com que as mobilizações cresçam”, ponderou.

Outras cidades também terão atos contra o reajuste da tarifa nos próximos dias. Amanhã, às 17h, haverá mobilização no Rio de Janeiro (Praça Pio X), em Belo Horizonte (Praça Sete) e em Florianópolis (Terminal de Integração do Centro). No dia 23, será a vez de Salvador (BA), Osasco e Praia Grande (ambas em São Paulo).

Na última sexta-feira (9), cerca de 8 mil pessoas participaram da primeira manifestação. O ato percorreu pacífico a região do Teatro Municipal, da praça da República, até chegar à Rua da Consolação. Um grupo de black blocs que vinha à frente do ato iniciou a depredação de cestos de lixo e passou a atear fogo em detritos na via. A PM deteve quatro deles e aproveitou a situação para reprimir toda a manifestação com uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes. Foram detidas 54 pessoas e dezenas ficaram feridas.

Para o presidente do PSTU, José Maria de Almeida, o Zé Maria, a conduta dos black blocs não é decisiva para a repressão policial, mas acaba prejudicando o conjunto da mobilização. “Nas primeiras mobilizações você pode considerar que as pessoas não entendam que esse tipo de ação possa prejudicar o conjunto do ato. Mas depois de tanto tempo a gente acaba se perguntando a quem acaba servindo isso. As cenas de violência, no geral, afastam a maioria da população das mobilizações”, avaliou. Para Zé Maria, é preciso orientar os jovens a não cair na provocação dos policiais.

Luize defende que o assunto seja debatido nas assembleias realizadas antes de iniciar a marcha, mas ressalta que o movimento não pode definir o que as pessoas fazem. “A gente tem um certo controle da manifestação, mas que vai ficando difícil com o desenrolar do ato, sobretudo quando se atinge um número significativo de pessoas. O MPL não tem de pautar o que deve ou não ser feito nas ruas. Isso deve ser decidido por todos”, afirmou.

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