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Da esperança à chave da casa própria, ex-sem teto contam histórias de luta

Publicado por Rodrigo Gomes, da RBA
12:33
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Danilo Ramos/RBA
Casa Própria

Zenilda viveu dois anos com o filho, no Jardim Casa Branca, por não aguentar pagar aluguel

São Paulo – Para a costureira Zenilda Jesus Brito, de 52 anos, a entrega das primeiras 192 unidades do Condomínio João Cândido, ontem (20), em Taboão da Serra, Grande São Paulo, foram mais que a concretização de um sonho. O resultado é ainda maior. A luta ensinou, segundo ela conta, “a amar mais as pessoas”.

Ela chegou em São Paulo em 1995, vinda da Bahia, com o marido e quatro filhos. Como muitos outros brasileiros, buscava trabalho e uma vida melhor. Morou em vários locais, sempre de aluguel. O primeiro foi o Jardim Macedônia, na região do Campo Limpo, extremo sul da capital paulista.

“Meu marido não queria se cadastrar na prefeitura para conseguir uma casa. Na verdade ele não sabia se queria viver em São Paulo, ou voltar para a Bahia. O pior é que ele não me deixava correr atrás.” Com a separação, em 2000, ela foi morar no Jardim Rosana, onde permaneceu por 11 anos.

Como costureira, raras vezes teve trabalho registrado em carteira. “O que ganho não dá para comprar uma casa. O salário sempre foi para comer e pagar aluguel”, conta. Alguns empregos eram próximos. Mas chegou a trabalhar no Campo Belo, zona sul de São Paulo, mais próxima do centro expandido, onde consumia quatro horas para ir ao serviço e voltar.

Em 2005, Zenilda soube da ocupação Chico Mendes, mas não teve coragem de entrar. “Diziam muita coisa. Que tinha gente do mal, que era perigoso.” Já em 2007, quando trabalhava em uma fábrica de estofados na Rodovia Raposo Tavares, um colega de trabalho contou que tinha ocorrido uma “invasão” em Itapecerica da Serra.

Foi ver e ficou impressionada, mas temerosa. “Eu pensava: eu preciso de um lugar para mim para quando não puder mais trabalhar, para ter sossego.” Criou coragem e fez um barraquinho de lona e bambu. O colega de trabalho não ficou. A ocupação João Cândido, iniciada em 17 de março de 2007, em Itapecerica da Serra, chegou a ter 5 mil pessoas.

Os amigos e a família era contra. “Foram dois meses na ocupação. Alguns dias era bem sofrido. Chovia fazia frio”, contou. A ocupação foi realizada no outono, época chuvosa.

Com o tempo, convivendo com os outros acampados, viu que não era um “bicho de sete cabeças”. “Eu ia para o trabalho de madrugada e tinha medo de ir sozinha. Os companheiros desciam comigo, iam até minha casa, ficavam no ponto”. Na volta do trabalho passava de novo na casa alugada, tomava banho, arrumava algumas coisas e voltava para a ocupação.

Quando a Justiça concedeu a reintegração de posse ao proprietário do terreno, ela não quis ir para o terreno na Vila Calu, para onde foram parte dos desalojados. Voltou para a casa alugada no Jardim Rosana. Mesmo recebendo auxílio aluguel, não conseguia se manter. A princípio o auxílio era de R$ 250, depois foi a R$ 300.

Zenilda foi viver com o filho Valdeir, a nora e um neto, no Jardim Casa Branca, em Embu das Artes, município vizinho a Taboão da Serra. “No começo não queria. Não queria depender dos meus filhos. Mas ficou difícil pagar aluguel, aumentou demais. Minhas correspondências estão espalhadas por aí até hoje. A gente não cria raiz quando vive no aluguel”, observa. O filho conseguiu a casa após 13 anos cadastrado em uma associação de moradia em Embu, pagando mensalidade.

Ela até que tentou outro caminho para conseguir uma moradia, mas sentiu na pele a dificuldade em ingressar em um programa habitacional gerido por empreiteiras. “Quando surgiu o Minha Casa Minha Vida nós tentamos entrar no programa com uma construtora. Nunca conseguimos, porque precisava ganhar, pelo menos, três salários mínimos.”

Desde que saiu da ocupação, Zenilda está na coordenação de um núcleo de bairro, com 18 famílias. Algumas ainda não serão contempladas nesse empreendimento, que terá 1.100 unidades. A costureira também tem atuado no acompanhamento da obra, indo semanalmente ao local observar o progresso da construção. “Ficava contente de ver a casa evoluindo. Só quero trocar a pia de granito, por uma de mármore”, planeja.

Ela lembra orgulhosa de ter participado “de tudo que é ato”: manifestações, acorrentamentos, travamentos de vias. Nunca esqueceu a primeira vez que sentiu o efeito do spray de pimenta. E de uma repressão da Polícia Militar, quando a manifestação já se dispersava, na Avenida Francisco Morato. “A gente já estava indo embora, eles começaram a jogar bombas. Caímos uns por cima dos outros. Fiquei com um machucado enorme no joelho”, lembra.

Com lágrimas nos olhos desde o início da cerimônia, ela ainda contou que pretende se mudar em janeiro. A nova batalha vai ser para mobiliar a casa nova, já que os móveis de onde está são do filho. “Eu não vejo a hora. Ainda não sei o que vou conseguir comprar de móveis. Mas com certeza vai ter uma bandeira do MTST na parede da sala”, disse sorrindo. E garante que vai seguir na luta. “Estar na luta com os companheiros, por um bom motivo, é muito legal. Os ricos só pensam neles mesmos. Eu quero ver cada um dos meus companheiros receber as casas deles.”

Lutador 100%

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José Ferreira, ativo integrantes do MTST. “É com muita gente na rua que nós conseguimos as coisas”

Na entrada de casa, o aposentado José Ferreira Silva, de 66 anos, chegou meio corrido e mostrou o barbeador comprado de última hora, para “ficar chique”. Ele recebeu a reportagem na sexta-feira (19), véspera de um dos dias mais esperados de sua vida. “É tanta alegria que é uma beleza. Quero mudar logo, passar o natal e o ano novo na minha casa. É uma bênção de deus.”

José foi ajudante de pedreiro a maior parte da vida. E um dos mais ativos integrantes do MTST. Apesar da idade, tinha “97% de presença” nas mobilizações. “É com muita gente na rua que nós conseguimos as coisas”, diz, sorridente. Ele foi o primeiro que assinou a documentação da Caixa para construção das moradias. Vai para o Condomínio João Cândido com a mulher, Maria da Costa Gomes, de 69 anos, aposentada, com quem vive há 20 anos, e com o filho dela Wilton, que sofre de problemas psicológicos e vive de bicos como ajudante de pedreiro e pintor.

Em Pernambuco até 1987, José trabalhava na roça e no corte da cana. Mudou para São Paulo porque sempre disseram que a vida aqui era melhor. O primeiro lugar que ele morou foi uma comunidade no bairro do Brooklyn Novo, zona sul da cidade. Depois foi para o Jardim das Rosas, Jardim Capelinha, Vale das Virtudes e, finalmente, o Jardim Umuarama, de onde pretende fazer a última mudança da vida, antes do natal.

A princípio trabalhou como metalúrgico. A idade foi chegando e acabou indo para a construção civil. “Não pegavam mais nas fábricas.” Já nas obras, sofreu um acidente que limitou os movimentos da mão direita e ficou de licença médica, até ser aposentado com um salário mínimo.

Mas durante o tempo de trâmite na seguridade social, viveram os dois só com a aposentadoria de Maria, também de um salário mínimo. “Foi um tempo muito duro, porque só aluguel era R$ 500, mais R$ 100 de água e luz. Tinha de pegar cesta básica de doação.”

Quando começou a ocupação João Cândido, em 30 de setembro de 2005, foi ver como era. “Me disseram: põe um barraco de lona aí. Eu coloquei e fiquei lá nove meses.” Em 2009 a prefeitura de São Paulo iniciou uma obra no local onde estava a casa e eles foram removidos. Fizeram cadastro para uma moradia, mas nunca tiveram notícia. Voltaram para o aluguel.

Como Zenilda, José ia para a ocupação, para a casa alugada, para o trabalho, para os protestos, tudo no mesmo dia, muitas vezes. Quando podia ficar mais tempo no terreno, ajudava na portaria. A ocupação Chico Mendes chegou a ter 1.300 famílias, no Jardim Helena, em Taboão da Serra.

Só José ia para a ocupação. Maria tinha medo e questionava bastante. Embora não acompanhasse, via as manifestações nos jornais televisivos e ficava contente de saber que o marido estava lá. Hoje , diz que ele fez a escolha certa.

José participou da greve de fome em frente a casa do ex-presidente Lula, em 2005, de acorrentamentos e de centenas de protestos. “Junto com outras pessoas na mesma luta a gente enfrenta tudo. Muita gente desistiu no caminho e hoje se arrepende. Eu estou orgulhoso e feliz.”

“Quando eu era novo sonhei que uma pessoa, que eu não conseguia ver, dizia que eu ia ter uma casa quando estivesse com idade. E eu pensava: como? Não tenho nem um um pau para dar num gato. Hoje tá aí”, conta, com as chaves nas mãos.

Danilo Ramos/RBACasa Própria
Zenilda (esq.), José, Maria e o filho dela, Wilton, comemoram juntos a conquista após quase 10 anos