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Inclusão

Haddad inaugura primeiro centro de acolhida com espaço LGBT em São Paulo

Centro de acolhida Zaki Narchi será experimento para metodologia que pretende superar o acolhimento e 'construir autonomia'. Espaços de lazer e atendimento à saúde ainda não estão concluídos
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 10/10/2014 12h03, última modificação 10/10/2014 13h03
Centro de acolhida Zaki Narchi será experimento para metodologia que pretende superar o acolhimento e 'construir autonomia'. Espaços de lazer e atendimento à saúde ainda não estão concluídos
Fernando Pereira/Secom
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Haddad ouviu vários pedidos e histórias dos acolhidos durante todo o tempo que permaneceu no local

São Paulo – O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), inaugurou na noite de ontem (10) o primeiro centro de acolhida para atendimento da população em situação de rua com espaço LGBT – sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais. No entanto o local é exclusivamente masculino, no bairro do Carandiru, zona norte da cidade. “Queremos atender as diferentes necessidade da população em situação de rua. Por isso, estamos diversificando o atendimento. Antes, eles [LGBT] estavam expostos à violência e com chance mínima de reinserção”, explicou Haddad.

O espaço terá um alojamento com 24 camas para atendimento da comunidade LGBT, que poderá ser ampliado de acordo com a demanda. No total, o complexo de acolhida Zaki Narchi – situado na avenida de mesmo nome – terá 900 vagas, sendo 500 na primeira fase, 200 na segunda e 200 na terceira, em uma perspectiva de “reconstrução da autonomia”, definiu o prefeito.

Diferente do programa Braço Abertos, realizado na região conhecida como "cracolândia", no bairro da Luz, centro da capital, não haverá pagamento de bolsa-auxílio.

“É uma metodologia inédita. O primeiro estágio terá baixíssima exigência e a pessoa vai mudando de fase e assumindo novas responsabilidades, obtendo outros benefícios para além do acolhimento. Isso dá uma perspectiva de a pessoa galgar degraus e recuperar sua autonomia", explicou Haddad.

O local começou a ser utilizado no ano passado para ação emergencial durante o inverno, quando chegou a ter 800 pessoas abrigadas. Ali funcionavam um depósito de materiais apreendidos pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) e um posto da Defesa Civil. “Quando percebemos a criação de vínculo por parte da população em situação de rua e a demanda por um atendimento mais amplo, decidimos estabelecer o complexo aqui”, explicou a secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Luciana Temer.

O espaço I vai funcionar como a maior parte dos centros, recebendo a população à noite, oferecendo alimentação, banho, dormitório e café da manhã. As pessoas poderão chegar ao local por conta própria ou nas vans da Assistência Social que fazem a ronda pela cidade. Este centro tem um diferencial, que é o transporte de retorno da população para o local onde ela foi acolhida.

“Muitas pessoas não queriam vir para os centros de acolhida porque no dia seguinte não tinham como voltar para o local de onde saíram. Que, no geral, é onde elas ganham a vida. Aqui, no Zaki Narchi, assumimos o compromisso de levar as pessoas de volta com as mesmas vans que fazem o transporte à noite.”

Conforme a pessoa estabelece relações com o local e manifesta vontade de ingressar na segunda fase, o que também vai depender da avaliação da equipe multidisciplinar, poderá ingressar no espaço II, onde passará a manter moradia, ter acesso a cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, tratamento para problemas de saúde e de dependência química e encaminhamento para trabalho. “Vamos manter o diálogo com os empregadores da cidade para que as pessoas possam se reestabelecer no mercado de trabalho”, garantiu Haddad.

Estabelecida a relação de trabalho, a pessoa passará para a terceira fase, que é a preparação para deixar o serviço de assistência social, o que também dependerá de avaliação da equipe multidisciplinar. “Ninguém quer ficar no abrigo. Este é um atendimento cujo objetivo é a pessoa sair do abrigamento. É um equipamento revolucionário”, definiu a secretária Luciana Temer.

Na avaliação do coordenador Nacional do Movimento da População em Situação de Rua, Anderson Lopes de Miranda, a proposta é excelente. “O centro atende a demanda colocada pelo movimento. O prefeito e a secretária têm mantido um diálogo muito importante com o movimento, que não existia no passado. E compreenderam a importância de trabalhar com as especificidades da população em situação de rua”, afirmou.

A seleção das pessoas que vão ficar nas áreas dois e três está em processo  mas alguns acolhidos já vivenciam a segunda fase, participando de curso de Mecânica a Diesel, do Pronatec, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e morando no complexo Zaki Narchi.

É o caso de Marconi Oliveira, Leandro Silva e Cleverson Nascimento. “Eu estou melhor do que na casa da minha mãe. Aqui a gente é tratado com muito respeito”, disse Oliveira.

Todos eles acompanharam o prefeito e apresentaram as dependências do alojamento. Contaram sobre as experiências de vida a Haddad e falaram sobre expectativas.

O prefeito ficou quase duas horas circulando no local, ouvindo os relatos e muitos pedidos. “Esse prefeito é um cara muito humilde. Maior gente fina”, concluiu Nascimento.

O complexo ainda não está completo. Faltam as quadras poliesportivas, o centro de inclusão digital, a cooperativa de reciclagem e o centro de saúde, que pode ser somente um Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) ou uma Unidade Básica de Saúde completa. “Isso ainda está sendo avaliado”, explicou Luciana. Além disso, o local terá atividades culturais e um centro de panificação para o curso do Pronatec. A expectativa do prefeito é que até o fim do ano essas instalações estejam concluídas.

Com este centro, a prefeitura completa 10 novos equipamentos, abrindo 2.400 novas vagas de acolhimento na capital paulista. O Programa de Metas da prefeitura prevê a instalação de mais 12 serviços de acolhimento institucional para população em situação de rua até o final da gestão.