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repressão

Depois de desocupação violenta, sem-teto estão na mira de nova reintegração

Famílias antes abrigadas no Hotel Aquarius agora permanecem na Rua Líbero Badaró, 595, também no centro de SP, apreensivas com outra possível desocupação e com mais violência policial
por Claudia Rocha, especial para a RBA publicado 18/09/2014 17h08, última modificação 18/09/2014 17h53
Famílias antes abrigadas no Hotel Aquarius agora permanecem na Rua Líbero Badaró, 595, também no centro de SP, apreensivas com outra possível desocupação e com mais violência policial
carlos severo/fotos públicas
pm

Ação policial foi desmedida durante reintegração de posse do prédio do antigo Hotel Aquarius

São Paulo – Recém-chegadas à ocupação da Rua Líbero Badaró, 595, nova moradia após a reintegração de posse do antigo Hotel Aquarius, no centro de São Paulo, ocorrida na terça-feira (16), as 180 famílias que foram alvo de violência policial correm o risco de ficar mais uma vez sem um teto. A coordenação da Frente de Luta por Moradia (FLM) recebeu ontem ofício informando que será realizada reunião com representantes da Secretaria Municipal de Habitação e integrantes do movimento de ocupação para cumprimento de ordem judicial de reintegração de posse referente ao imóvel da Líbero Badaró.

Boa parte das famílias instaladas na nova ocupação permanece apenas com a roupa do corpo. Integrantes do movimento que estiveram no depósito da prefeitura, onde estão os pertences, disseram aos moradores que há muitos móveis quebrados e que roupas foram perdidas. Eles reclamam também o fato de não poderem acompanhar a mudança.

O vendedor ambulante Florisvaldo dos Santos, de 34 anos, estava com seu filho, Pedro, de 2, dormindo no piso térreo do edifício quando a Polícia entrou no local. Ele levou um tiro de bala de borracha na barriga, e, por pouco, o garoto não foi atingido. É a primeira vez que Florisvaldo participa de uma ocupação. Segundo ele, além da falta de recursos para aluguel, decidiu entrar na ocupação para dar um ambiente familiar para o filho, já que antes pagava diárias de hotéis na região central e a permanência era rotativa.

Uma imigrante boliviana que pediu para não ser identificada relatou o pânico vivido no momento da invasão da Tropa de Choque. Há pouco tempo em São Paulo, ela disse que, agora sim, está acolhida na cidade. “O pessoal da coordenação tranquilizou a gente e disse que somos uma família”, relata a mãe de um bebê de seis meses.

E, de fato, esta é a impressão de quem visita o prédio que já estava habitado por outras 35 famílias expulsas de uma ocupação da Rua Mercúrio, também no centro. Com a chegada dos novos moradores, foi montada uma cozinha comunitária e houve uma nova divisão dos andares. As famílias estão separadas por lençóis porque o local é aberto, uma espécie de galpão.

Ivonete Araújo, líder da FLM, está há 15 anos na luta e comenta que nunca viu uma reintegração tão violenta como a de terça-feira. Segundo Neti, como é conhecida, as famílias agora já passam bem ‘dentro do que é possível’. A ativista explica que, além da revolta com os casos de abuso policial, ainda há outro ponto importante na discussão: o Poder Judiciário. “Não há nenhuma preocupação voltada à área social. Só estão preocupados em garantir o direito de quem é proprietário, mas e o direito à moradia?”, destaca Neti.

Na próxima assembleia entre os moradores será levantada a possibilidade de entrar com uma representação contra a Polícia Militar nos casos de abuso, já que foram gravadas imagens de PMs agindo com violência contra moradores que não apresentaram resistência. “Os movimentos têm que mostrar ao Judiciário que, antes de meter a caneta, é preciso ver o que tem dentro do prédio”, desabafa Neti.

Ontem, na parte da manhã, muitos repórteres de grandes veículos de comunicação procuraram a coordenação do movimento para ter autorização para gravações com os moradores. Houve resistência por parte de algumas lideranças porque, segundo elas, foi feita uma criminalização midiática do movimento. “Parecia que era a gente que estava atacando o Choque, e não o contrário. Assistindo ao noticiário tive essa impressão”, diz Renata, membro da coordenação da ocupação do Hotel Aquarius.

Com a notícia da possível nova reintegração, agora, o clima entre os moradores volta a ser de apreensão e medo já que ninguém sabe como pode ser conduzida a retirada das mais de 200 famílias abrigadas no local.