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Fábio joga RPG, Rafael gosta de mitologia e a polícia escreve inquéritos

Laudo, testemunhos e maus-tratos abalam credibilidade do Deic, mas promotores confiam nos policiais para acusar manifestantes em inquérito considerado 'fantasioso'

Renato Mendes/Futura Press/Folhapress
retrato fabio hideki agosto Renato Mendes Futura Press Folhapress.jpeg

‘Mais ficção do que jogar RPG é dizer que sou líder dos black blocs e carrego bomba que nem funciona’, ironiza Hideki

São Paulo – Usando apenas saia xadrez, Varyag Volkovich Rurik caminha triunfante ao lado de bandeiras vermelhas e uma legião de mascarados pela avenida principal da metrópole. Guerreiro Anão acompanha o cortejo com elmo branco. Não sabem, mas estão sendo seguidos. É uma emboscada. Em meio à multidão, homens disfarçados esperam o melhor momento para agir. Varyag Volkovich Rurik é então atacado por trás. Guerreiro Anão, cercado. Serão jogados no calabouço e acusados como líderes de uma rebelião contra a paz pública.

O episódio poderia ser o trecho de um RPG criado por Fábio Hideki Harano, 27 anos, que se identifica como Guerreiro Anão quando reúne amigos para se imaginar entre cavaleiros e castelos em aventuras medievais. Poderia ainda constar dos livros de mitologia nórdica e história eslava que Rafael Marques Lusvarghi, 29, autointitulado Varyag Volkovich Rurik nas redes sociais, devora com paixão. A prisão dos jovens por agentes infiltrados, no entanto, é apenas a cena inicial do Inquérito 101/2014, escrito pela Polícia Civil de São Paulo. De acordo com advogados, um retrato de como funciona a justiça criminal no estado mais rico do país.

“Vemos ilegalidades diariamente”, compara o defensor público Bruno Shimizu, que representa Lusvarghi, explicando que o procedimento utilizado pela polícia na abordagem, na condução, no interrogatório e nas acusações contra os jovens não é novidade nas periferias da capital. “Prisões por averiguação, infiltração de agentes sem ordem judicial, uso desproporcional da força, violência, tudo isso faz parte do próprio modo de trabalho da polícia. E é o sustentáculo da investigação criminal em São Paulo e no Brasil.”

“Todo preso, de certa forma, é um preso político. Por isso, eu diria que meu cliente é muito mais um preso eleitoral”, pondera o ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de Hideki, ao lembrar que a detenção dos jovens ocorreu às vésperas da corrida para o Palácio dos Bandeirantes. “Os atos públicos se multiplicavam, houve danos ao patrimônio, ninguém era responsabilizado e a população cobrava do governo algum tipo de medida. Só que a polícia resolveu agir no pior momento, pegando as pessoas erradas.”

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Hideki e Lusvarghi caíram nas mãos da justiça na noite de 23 de junho. Com dois gols de Neymar, a seleção acabara de vencer Camarões, em Brasília, consolidando a primeira colocação no grupo A da Copa do Mundo. Alheios à partida, manifestantes empreendiam em São Paulo novo protesto contra o torneio da Fifa. Os brasileiros, eufóricos com o desempenho da equipe, não imaginavam o absurdo dos 7 a 1 a que assistiriam dali duas semanas. Para qualquer ativista, mesmo sentindo na pele o recrudescimento da repressão, seria difícil antever que Hideki e Lusvarghi passariam 46 dias atrás das grades.

A liberdade, embora provisória, viria apenas em 7 de agosto. Três dias antes, a RBAdivulgava conteúdo do relatório elaborado pelo Instituto de Criminalística (IC) e pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar concluindo que “não eram explosivos” os objetos supostamente encontrados com os jovens no momento da prisão. Segundo o laudo, nem o tubo de corante de tecidos, que estaria com Hideki, nem a garrafa de achocolatado, atribuída a Lusvarghi, apresentavam potencial explosivo ou inflamável, pois foram construídos a partir de materiais “inertes”.

Avener Prado/FolhapressPresos na Avenida Paulista em 23 de junho, jovens foram levados ao Deic
Presos na Avenida Paulista em 23 de junho, jovens foram levados ao Deic

A bomba caseira que a polícia diz ter encontrado nos pertences de Hideki era um recipiente plástico cheio de uma substância particulada, que testes químicos concluiriam tratar-se de carbonato, cálcio, magnésio e oxigênio, com nenhum potencial incendiário. “Foi realizado ensaio prático mediante chama direta, sendo que o mesmo não explodiu”, escreveram os peritos, que ainda tentaram acender o fio de nylon que serviria para acionar a bomba: fotos mostram que o pavio não cumpriu as funções.

O “coquetel molotov” de Lusvarghi também consiste num vasilhame plástico, só que vazio, cuja tampa era um pedaço de papel afixado com elástico. Os policiais civis que prenderam o rapaz detectaram no frasco um “forte odor de gasolina”, e concluíram: trata-se de um artefato incendiário. Contudo, não há, no laudo, menção ao cheiro da garrafinha – muito menos ao combustível. “O material não apresentou qualquer tipo de substâncias acelerantes e alimentadoras de chama”, constataram os especialistas.

O juiz Marcelo Matias Pereira, da 10ª Vara Criminal de São Paulo, não viu necessidade de esperar a conclusão das perícias antes de se resolver pela permanência dos jovens na cadeia. Em 1º de agosto, ao referendar a prisão preventiva, que já durava 39 dias, o magistrado escreveu: “Há depoimentos consistentes que apontam que em poder dos mesmos foram apreendidos artefatos incendiários”. No despacho, ainda criticou Hideki e Lusvarghi por serem adeptos da “esquerda caviar”, termo que em momento algum fora citado nos autos.

Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, que reivindicou o caso e conduz a acusação, tampouco acharam prudente aguardar os testes periciais para apresentar contra os rapazes uma denúncia por porte de explosivos. Ao invés de se apoiarem nas análises técnicas, decidiram confiar – erroneamente, como se saberia depois – na “experiência” e na “fé pública” dos policiais civis que efetuaram a prisão. A demanda contra Hideki e Lusvarghi foi enviada à Justiça em 11 de julho.

“Para o oferecimento da denúncia, basta que tenhamos indícios de que os réus portavam artefatos”, diz uma das promotoras do Gaeco, que não quis se identificar por razões de segurança, aproveitando para explicar como costumam proceder em casos semelhantes. “Quando objetos são apreendidos, os policiais, que têm experiência no assunto, dizem que parece ser um artefato incendiário de fabricação rudimentar. O policial, que é um funcionário público, tem fé pública, está dizendo: parece ser. Com isso, a gente pode oferecer a denúncia.”

Além de desacreditar os policiais, a perícia conseguiu reverter quase que imediatamente a prisão preventiva de Hideki e Lusvarghi. E quem expediu os alvarás de soltura, agora com uma decisão técnica, foi o mesmo juiz que uma semana antes os condenara por antecipação, com um despacho no qual até leigos em doutrina jurídica conseguem enxergar desvios ideológicos. Os exageros do magistrado lhe renderam um pedido de “exceção de suspeição” – na prática, um voto de desconfiança – protocolado pela defesa de Hideki junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo.

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Após uma breve passagem pela sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), na zona norte de São Paulo, para onde foram levados após a prisão, Hideki passou pelo Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros, na zona oeste da capital, tendo sido logo depois conduzido ao presídio de segurança máxima de Tremembé (SP), a 150 quilômetros da cidade. Lusvarghi foi encaminhado para a carceragem do 8º Distrito Policial, no Brás, centro de São Paulo.

Ao serem soltos, deixaram a prisão sem falar com ninguém: Lusvarghi, no carro de uma amiga, Hideki, no de seu advogado. Mas o fato de poderem novamente caminhar pelas ruas, mexer no Facebook e falar com a mídia, o que fariam nos dias seguintes, não significa que já estejam livres da Justiça. Como fizeram questão de lembrar membros do governo estadual, da polícia e do Ministério Público, uma vez descartada a posse de explosivos, os manifestantes ainda respondem por outros três crimes.

Jornal da USP LivreEm 7 de agosto, Hideki deixa presídio de Tremembé no carro de seu advogado, Luiz Eduardo Greenhalgh
Em 7 de agosto, Hideki deixa presídio de Tremembé no carro de seu advogado, Luiz Eduardo Greenhalgh

A acusação por associação criminosa, antigamente conhecida como “formação de quadrilha”, é a mais grave. Pode acarretar penas de um a três anos de reclusão. Contra os ativistas pesam também imputações mais leves, como incitação ao crime. Apesar de não ter havido registros de vandalismo no protesto de 23 de junho, ambos são acusados de motivar outros manifestantes a cometer atos violentos. Em caso de condenação, o delito pode levá-los a uma detenção de três a seis meses, ou multa.

Além de associação criminosa e incitação ao crime, imputações a que respondem conjuntamente, Lusvarghi possui uma acusação individual por resistência, ou seja, “opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio”. No caso, o rapaz foi denunciado por haver resistido à abordagem de policiais civis à paisana em 23 de junho – e por ter rasgado a camisa de um deles. A pena varia entre dois meses e dois anos de detenção.

Hideki não é imputado por resistência, mas por desobediência, porque teria desacatado “ordem legal de funcionário público”. O Gaeco acusa o jovem por não ter cedido imediatamente à aproximação de policiais civis à paisana nas escadarias da estação Consolação do metrô, em 23 de junho. Se condenado, a pena vai de 15 dias a seis meses de reclusão, além de multa. Não há previsão para o início do julgamento.

De acordo com o Ministério Público, todos os crimes foram flagrados pela polícia. “O que temos aqui é uma situação corriqueira: a pessoa é presa porque foi surpreendida cometendo um crime”, minimiza a promotora, diante da grita que se montou após o encarceramento dos jovens. “A associação criminosa é um crime permanente. A pessoa pode ser presa em flagrante a qualquer momento. Os policiais estavam de olho e, quando identificaram a associação entre eles, efetuaram a prisão.”

O Gaeco explica que o flagrante de porte de explosivos – que não eram explosivos – ocorreu quando os policiais “fizeram revista e encontraram objetos que se assemelhavam a artefatos incendiários”. Depois, continua a promotora, Hideki “desobedeceu ordem da polícia: outro flagrante. Lusvarghi se opôs à ação dos policiais e ainda empregou violência: flagrante do crime de resistência. São todas situações de flagrância”.

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Hideki e Lusvarghi não poderiam ter personalidades mais opostas. De ascendência japonesa, Hideki já passou pelas faculdades de Engenharia e Ciências Sociais, e atualmente cursa Jornalismo, tudo na Universidade de São Paulo. Para ganhar a vida, trabalha atendendo a população e auxiliando na administração da farmácia do Centro de Saúde Escola Prof. Samuel Pessoa, que a USP mantém nas redondezas do campus do Butantã, zona oeste da cidade. “Não mexo com produtos químicos nem construo bombas no laboratório”, ironiza.

É figura conhecida no movimento estudantil há quase dez anos – e, desde que prestou concurso para vaga no Hospital Universitário, em 2011, seu primeiro emprego na instituição, passou a aparecer nos círculos sindicais uspianos. Mais tarde se tornaria diretor de base do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), que há mais de três meses mantém uma greve conjunta com professores e alunos por melhores salários e mais transparência na gestão da universidade.

Hideki participa intensamente da paralisação, como mostram os “manuscritos” encontrados em sua mochila pelos agentes do Deic no dia da prisão: uma série de anotações sobre assembleias, deliberações dos funcionários, agenda de piquetes, calendários de reuniões e até uma charge criticando o fato de a USP, que é pública, ser frequentada majoritariamente por estudantes vindos de colégios privados.

Mario Angelo/Sigmapress/FolhapressLusvarghi cercado por policiais na Avenida Paulista. Para MP, houve flagrante de resistência
Lusvarghi cercado por policiais na Avenida Paulista. Para MP, houve flagrante de resistência

Rabiscos de Hideki e panfletos do Sintusp, que também carregava na mochila, foram ajuntados no inquérito 101/2014 como “provas” de “ativa participação nas organizações de piquetes, movimentos grevistas e coordenança”. O engajamento do jovem na greve uspiana ainda pôde ser visto em 11 de agosto, em sua primeira aparição pública após a revogação da prisão preventiva. Hideki compareceu à assembleia de funcionários para agradecer a solidariedade dos companheiros – e votar pela continuidade da paralisação.

Seu protagonismo político, porém, não se limita ao ambiente universitário, e fazer parte do Sintusp não impede que o jovem se defina como “ativista independente”. A entidade é filiada à CSP-Conlutas, ligada ao PSTU, mas Hideki não está atrelado nem a este nem a outros partidos, centrais sindicais ou movimentos sociais. “Mas não sou antipartidário”, ressalva. “Não acho que os partidos sejam um problema, só que nenhum me apetece o suficiente.”

Essa autonomia permite que se envolva em todas as causas que considera justas, mesmo que à primeira vista não lhe digam respeito. Apesar de não trabalhar no Metrô, Hideki apoiou a última greve dos metroviários, por exemplo. Também engrossou as passeatas pela redução das tarifas de transporte em São Paulo, no ano passado, embora não lhe faltem os R$ 3 da condução. Quando foi preso, em 23 de junho, protestava contra os gastos públicos e remoções forçadas ocasionadas pela Copa. Isso não quer dizer que tenha sido despejado devido à construção de um estádio.

“Ver pessoas perdendo a casa me incomoda muito”, revelou ao programa Diálogos, da Globo News. Por isso, em 2012, viajou até São José dos Campos (SP) para auxiliar os moradores do bairro do Pinheirinho, que naquele janeiro estavam na iminência de sofrer uma reintegração de posse. “Me falaram que eu não devia me meter, já que não tinha nem amigos nem parentes morando lá”, lembra. “Queria ajudar de alguma forma. Dormi com eles e acordei com o choque avançando a 200 metros.”

“Sou contra o egoísmo e o individualismo”, diria às câmeras da Mídia Ninja durante a última Marcha da Maconha em São Paulo, que tomou a avenida Paulista em abril para pedir a regulamentação do cultivo, venda e consumo da cannabis. O vídeo circulou bastante depois que Hideki foi preso, com a mensagem: Fábio luta por você, lute por Fábio. “Acredito que os homens têm que lutar pelo feminismo, e quem não é negro, pelo movimento negro. Eu não sou usuário de maconha, mas luto pela legalização. Motivos não me faltam.”

Quando finalmente marcamos uma entrevista, Hideki se recusou a me encontrar numa padaria do Butantã onde eu havia sugerido tomarmos um café. “Naquele lugar machista? Não mesmo!”, escreveu, me mandando links que contavam como o proprietário do estabelecimento havia reagido – colocando a culpa no vestido curto – à queixa feita nas redes sociais por uma cliente que foi assediada por funcionários.

O engajamento político de Hideki foi determinante para a existência de uma grande campanha por sua libertação. Além da Rede de Solidariedade a Fábio Hideki Harano, formada pelos amigos mais próximos, várias entidades se posicionaram contra a ação policial. O jovem contou com apoio do Sintusp, de companheiros e diretores do Centro de Saúde Escola do Butantã, juristas, centros acadêmicos, professores da USP, parlamentares municipais, estaduais e federais, prefeitura e organizações populares.

As manifestações favoráveis foram tantas que, quando concedeu uma entrevista coletiva na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, uma semana depois da soltura, Hideki precisou de seis minutos apenas para agradecê-las. E repetiu várias vezes: “Os heróis são vocês”, em referência às pessoas, notáveis e anônimas, que jamais duvidaram de sua inocência. “Não sabia que teria tanto apoio”, confessa. Não foi o único a se surpreender. “Poucos dos que defendi tiveram tanta solidariedade”, compara Greenhalgh, que representava presos políticos na ditadura.

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Apesar de ter sido preso nas mesmas circunstâncias e responder ao mesmo processo, as “injustiças” cometidas contra Lusvarghi não causaram tanta comoção. Enquanto estavam na cadeia, alguns militantes e entidades até lembravam que a campanha deveria pedir igualmente a libertação dos dois. Alguns vídeos publicados na internet em favor de Hideki traziam um adendo: “Liberdade para os presos políticos”. Nas ruas de São Paulo, era possível ver cartazes com mensagem semelhante – e a foto de Hideki e Lusvarghi, “nossos presos”.

Mas a imagem e a história do rapaz não circularam tanto, nem houve personalidades que dessem a cara por ele. Até mesmo entidades de direitos humanos, que deveriam prezar pela observância do devido processo legal sem olhar a quem, se intimidaram na hora de defendê-lo. Lusvarghi contou basicamente com o apoio de familiares, principalmente de seu irmão, Lucas, e de uma amiga, Aglays, que não conseguiram criar uma campanha social pelo jovem.

Marcio Ribeiro/Futurapress/FolhapressAtivista pede que justiça liberte presos políticos em São Paulo
Ativista pede que justiça liberte presos políticos em São Paulo

“Provavelmente, acharam que sou um maluco ou um P2, ou as duas coisas”, especula Lusvarghi, em referência aos policiais que vão disfarçados aos protestos para identificar lideranças ou pessoas que cometem vandalismo, e depois denunciá-los. “Ou simplesmente conheciam Hideki, porque ele estava na luta há mais tempo, de uma maneira coesa. Eu caí de paraquedas. Inclusive, estava indo embora do país.”

As suspeitas de que Lusvarghi trabalharia como policial infiltrado se espalharam entre os manifestantes graças ao surgimento intempestivo do rapaz nos protestos e às declarações que deu ao jornal O Estado de S. Paulo logo depois da primeira prisão, numa das manifestações que ocorreram na zona leste da capital em 12 de junho, dia da abertura da Copa. Único detido no ato, Lusvarghi foi rodeado e espancado pela PM, e depois disse ter visto “coerência” nas agressões.

“Não soube me expressar”, retifica. “Não tinha entendido o contexto daquilo tudo. Só depois é que percebi como a PM tem sido repressora. Foi brutal conter uma manifestação que sequer tinha começado.” Lusvarghi acreditava que declarações autocríticas poderiam acabar instantaneamente com a pecha de “rebelde” que então ganhara. “Achei que poderia conseguir de volta meus empregos, que perdi após ter sido preso – o que não aconteceu.”

Lusvarghi tem consciência de que, na ocasião, os soldados desrespeitaram normas mais básicas quanto ao uso de balas de borracha e bombas de gás. Ainda assim, evitou criticá-los na mídia. “Não queria causar problemas aos homens por trás da farda.” Vinda de alguém que havia pouco fora vítima de violência policial, essa visão corporativista da tropa causou arrepios nos manifestantes. E a desconfiança consolidou-se quando veio a notícia de que Lusvarghi já vestira o uniforme da PM.

“É paranoia pensar que sou P2, mas as pessoas têm alguns fundamentos quando dizem isso”, compreende. “Ninguém me conhecia e, quando falavam mal dos policiais perto de mim, eu dizia que nossos inimigos não são eles, mas o sistema. Já estive na pele de um PM e sei como é ruim. Cobram seus deveres, mas não respeitam seus direitos. Me senti traído e decepcionado com a Polícia Militar de São Paulo.”

As motivações foram várias. O rapaz diz, por exemplo, que teve que comprar com os próprios recursos vários itens do fardamento. Um dia colocou meias brancas em vez de pretas, um tenente percebeu a “falta grave” e o jogou numa cela do quartel por dois dias. “Perdi o final de semana.” Outra frustração foram os preparativos para manusear armamento, que considerava insuficientes. “Eram poucos disparos durante os treinos, e armas que quase nunca viam manutenção.”

Na lista das críticas, Lusvarghi elenca ainda o que interpreta como uso político da polícia para garantir os interesses dos mais favorecidos. “A forma evidente como a tropa lida com a população é um reflexo direto de como ela é tratada pelos seus comandantes”, conclui. Por isso, diz, pediu desligamento da corporação paulista, em 2007. Mas não desistiu da PM. “Fui para o curso de oficiais da polícia paraense, pensando que, como chefe, seria diferente. Mas também pedi baixa, aceitando que nunca mudaria nada.”

Antes de ingressar na carreira policial no Brasil, o jovem havia se alistado na 2ª Companhia do 2º Regimento da Legião Estrangeira francesa, o exército colonial que defende os interesses de Paris no exterior. Especialista em combates na montanha, diz ter servido na província balcânica do Kosovo e nos países africanos do Djibuti e Costa do Marfim, onde, em 2004, conta, foi reformado após ferir-se em combate.

Avener Prado/FolhapressApós ser agredido, Lusvarghi é apresentado à imprensa pelo Deic
Após ser agredido, Lusvarghi é apresentado à imprensa pelo Deic

Lusvarghi ainda tentou a vida em instituições militares de outros países. Foi barrado no processo de admissão do exército russo. “Foi pura xenofobia”, critica, “só porque sou latino-americano”. Mesmo frustrado, ficou no país e estudou Administração. Depois partiu para a Colômbia, onde afirma ter mantido contato com a guerrilha. Não gostou do que viu. Com a ajuda de milicianos, cruzou a fronteira venezuelana, já com intenção de voltar ao Brasil.

Em Caracas, resolveu participar – “como observador”, salienta – da onda de manifestações contra o presidente Nicolás Maduro, herdeiro do chavismo. Foi preso, mas em cinco dias conseguiu ser liberado. “Graças à intervenção do consulado brasileiro”, agradece. Só então voltou para o interior de São Paulo. Era 5 de março. Em Indaiatuba (SP), conseguiria alguns bicos – vigilante, professor de inglês, técnico de informática – que o entediavam.

Então, tomou a decisão. “Tinha acompanhado no exterior os protestos que aconteceram no Brasil em 2013. Quando cheguei, vi que ainda havia manifestações e quis participar. Senti que estava em dívida com o país”, afirma. “Soube que haveria uma manifestação em São Paulo dia 12 de junho, procurei informações na internet e concordei com os motivos. Estaria de folga naquele dia e…”

Foi, sem desconfiar que cairia na mira das autoridades, o que adiaria seus planos pessoais. “Tinha uma passagem comprada pra Ucrânia.” Lusvarghi estava – ainda está – determinado a lutar ao lado dos separatistas pró-Rússia de Donetsk, província no leste do país. “É um povo oprimido por Kiev.” Seu voo partiria em 28 de junho. Cinco dias antes, porém, o rapaz daria início a um longo período na prisão. E a um processo que não tem data nem previsão de como vai acabar.

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Além de acusá-los por porte de explosivos, incitação ao crime, associação criminosa, resistência e desobediência, o Gaeco aponta Hideki como líder de um grupo indeterminado, cujos integrantes cobririam o rosto e se infiltrariam em protestos populares com o intuito de cometer crimes – entre eles, danos ao patrimônio e agressão a policiais. A promotoria evita, porém, utilizar a nomenclatura “black blocs”, amplamente divulgada pela mídia para se referir aos rapazes e supostos comparsas.

“Não temos provas de que eles tenham relação com esse grupo”, ressalva uma das promotoras. “Aliás, ainda não sabemos se os black blocs são um grupo ou uma tática utilizada por determinados grupos. Há um limbo. Por isso, não fazemos referência ao termo. Até porque, sob o aspecto jurídico, não faz diferença: sendo ou não sendo black blocs, os crimes imputados aos dois continuam os mesmos.”

Para sustentar as acusações de associação criminosa e incitação ao crime, continua, “sequer é necessário” demonstrar que Hideki e Lusvarghi sejam membros de uma organização específica, com símbolos, nomes ou bandeiras. “O que precisamos provar é que eles lideram, instigam e orientam pessoas a praticar crimes”, define a promotora, dizendo-se convencida da culpa dos rapazes. “Já apuramos que Fábio e Rafael se conheciam e planejavam ações durante as manifestações. E que Fábio exercia liderança.”

No entanto, não existem nos autos escutas telefônicas, correspondências, fotos ou vídeos que demonstrem que os jovens estariam associados para cometer crimes. A única evidência de que os dois agiam em conjunto nos protestos se apoia sobre a palavra de policiais que alegam ter seguido os passos dos rapazes em duas manifestações realizadas em São Paulo – em 12 e 23 de junho – e constatado a relação de proximidade entre ambos.

O Inquérito 101/2014 é praticamente um calhamaço de papéis que não prova nada e alguns depoimentos de policiais civis e militares que dizem todo o resto, com termos e frases tão parecidas que o advogado de Hideki os classifica como um “verdadeiro copia e cola”. O responsável pela investigação é o delegado Douglas Dias Torres, lotado na divisão de crimes econômicos e financeiros do Deic, mas que foi incluído na força-tarefa montada pelo governo paulista para identificar os black blocs.

Protegido pela assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Segurança Pública, Torres se recusou por duas vezes a conversar comigo. O direitor do Deic, Wagner Giudice, também se negou a conceder entrevistas. De qualquer maneira, todo o trabalho da Polícia Civil no caso está documentado em boletins de ocorrência, autos de prisão, depoimentos e relatórios que podem ser consultados no cartório da 10ª Vara Criminal de São Paulo.

Fábio Braga/FolhapressAdvogado de Hideki acredita que seu cliente é um preso eleitoral: 'governo quis dar respostas à sociedade'
Advogado de Hideki acredita que seu cliente é um preso eleitoral: ‘governo quis dar respostas à sociedade’

“Fábio foi visto na data de hoje em conversa amistosa com o segundo acusado, Rafael, e por seus gestos demonstravam serem conhecidos e até mesmo íntimos um do outro”, sustentou o delegado Torres em 23 de junho. As mesmas palavras foram utilizadas por um subordinado, o policial civil Rafael Adami Schiavinato, que participou, junto com Torres, da abordagem e da prisão de Hideki nas escadarias da estação Consolação do metrô.

O delegado testificou, ainda, que Lusvarghi “já esteve envolvido em outras ocorrências juntamente com Fábio, inclusive há filmagens desse episódio, no dia da abertura da Copa na estação Tatuapé do Metrô”. O policial Luiz César Milani Bernardi defende essa versão. “Rafael aparece em filmagens do ato da abertura da Copa ocorrido na estação metrô Tatuapé, onde ele se mostra de igual forma trajado de forma bastante extravagante, e juntamente com o outro conduzido, Fábio.”

O agente Luiz César Milani Bernardi, que prendeu Lusvarghi, atesta ainda que seu alvo “mantinha estreito contato com outro indivíduo de características nipônicas desde o início da manifestação”, mas não faz referência ao capacete branco tão utilizado pelos policiais para identificar Hideki e enquadrá-lo como black bloc. Nenhuma foto foi tirada para comprovar os “constantes” diálogos entre os dois.

Pelo teor dos depoimentos percebe-se que os agentes do Deic se encaminharam ao protesto de 23 de junho previamente instruídos a observar as ações de Lusvarghi e Hideki. Alguns admitem que tinham ordens para segui-los, como Luiz César Milani Bernardi, “orientado a observar um indivíduo trajando saia de escocês e um cinturão largo, sem camisa”, em referência a Lusvarghi. Apenas três, porém, mencionam que os jovens tiveram algum tipo de contato – “conversa amistosa” – durante a passeata.

“Na delegacia, um dos policiais me disse: ‘Você me fodeu, japonês, eu queria estar vendo o jogo da Copa, mas tive que vir à manifestação para te seguir’”, conta Hideki, relatando as palavras que ouviu de um agentes no dia em que foi preso. Na ocasião, enquanto havia protesto contra o torneio, na avenida Paulista, a tevê transmitia a partida entre Brasil e Camarões. “Outros também me falaram que tinham ordens para me prender.”

Hideki e Lusvarghi alegam que não são nem nunca foram amigos, e que se conheceram no Deic logo depois da prisão. Antes, de acordo com Hideki, haviam conversado apenas uma vez, em 19 de junho, durante manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre para comemorar o primeiro aniversário da revogação das tarifas de transporte público em São Paulo.

Reprodução/OnetMarcin Wyrwal presenciou prisão de Lusvarghi e contradiz acusações da polícia: 'Ele levou uma gravata por trás'
Marcin Wyrwal presenciou prisão de Lusvarghi e contradiz acusações da polícia: ‘Ele levou uma gravata por trás’

“Eu o encontrei brevemente e perguntei: ‘É verdade que você foi demitido de seus dois empregos?’ Sabia da história pela imprensa, por causa da fama que ele ganhou no dia 12, por ter apanhado da polícia”, relata Hideki, citando reportagens em que Lusvarghi aparece sendo agredido e preso. “Ele me contou que estava tudo bem e que iria viajar para o exterior, e eu disse: ‘Bacana’. Foi essa a conversa que tivemos.”

Hideki afirma que só soube o nome de Lusvarghi quando foram colocados lado a lado numa das salas da delegacia. Já Lusvarghi não faz ideia se já havia visto Hideki antes da prisão. “Se conversei, realmente não me lembro. Falei com muitas pessoas durante as manifestações.” De qualquer forma, o bate-papo que possivelmente tiveram em 19 de junho não consta na acusação ou no depoimento dos policiais que estavam em seu encalço.

Torres, Bernardi e Danilo Baptista Scapulatiello são os únicos entre os agentes do Deic ouvidos no momento da prisão que sustentam a versão de que ambos manifestantes estavam juntos no ato de 12 de junho, nas redondezas da estação Tatuapé do Metrô. Nem mesmo policiais que trabalharam como infiltrados no protesto de abertura da Copa mencionam tê-los visto com contato na manifestação. É o caso de Marcos Zavam Peres, que participou da prisão de Hideki. Em depoimento, o policial não faz menção nem a Lusvarghi nem ao tal vídeo em que os dois apareceriam juntos na ocasião.

Nos autos tampouco há imagens que mostrem Hideki e Lusvarghi mantendo relações “amistosas” ou “íntimas” nos protestos de 12 de junho. Talvez porque ambos, ao contrário do que asseguram os policiais, não tenham sequer estado na mesma manifestação. Enquanto a seleção se preparava para enfrentar a Croácia, a zona leste de São Paulo assistiu a dois protestos de rua: um na estação Carrão, às 10h, e outro em frente ao Sindicato dos Metroviários, próximo à estação Tatuapé, por volta das 11h30.

Lusvarghi foi detido pela PM no Carrão às 10h15, logo no início do protesto convocado pela frente Se Não Tiver Direitos Não Vai Ter Copa. A passeata, na realidade, nem chegou a ocorrer: em formação de ataque desde antes da chegada dos manifestantes, a Tropa de Choque sequer permitiu que as pessoas se aglomerassem. Após uma das cargas policiais, Lusvarghi – sem camisa e de calça jeans, e não vestido de “forma extravagante”, como dizem os agentes do Deic – permaneceu imóvel no meio da rua. Levou dois tiros de bala de borracha no peito, foi imobilizado e teve o rosto inundado com spray de pimenta.

Após agredi-lo, os PMs o levaram para um posto de saúde e, em seguida, para o 31º Distrito Policial, nas redondezas. “Fui liberado por volta das 13h”, explica o jovem. Nesse horário, o protesto que ocorria diante do Sindicato dos Metroviários já se acabara: os manifestantes haviam se refugiado dentro da entidade para evitar as bombas do choque, e deixado o local, em fila indiana, sob os olhares ameaçadores da polícia. A rua estava praticamente liberada. “Ao sair da delegacia, encontrei um pessoal e fomos para a Praça Roosevelt, no centro”, conclui Lusvarghi.

Hideki, que foi flagrado por três vídeos diferentes em meio aos black blocs nas redondezas do sindicato, minutos antes de o protesto ter sido atacado pela Tropa de Choque e também durante as cargas, alega que não participou da manifestação anterior, no Metrô Carrão, onde Lusvarghi fora detido. “Estava prestes a virar a esquina quando as bombas explodiram e todo mundo dispersou”, afirma. “Não consegui chegar lá.”

***

O principal vídeo usado contra Hideki foi exibido pelo programa Conexão Repórter, do SBT, em 2 de julho. As imagens mostram o rapaz com capacete branco, viseira levantada e rosto à mostra, no protesto realizado em 12 de junho nas redondezas da estação Tatuapé. O ato criticava a organização da Copa, que começaria no mesmo dia, a dez quilômetros dali, e pedia a readmissão dos 42 metroviários que acabavam de perder os empregos após greve da categoria, finalizada três dias antes.

Na ocasião, a PM impediu que os manifestantes deixassem a rua Serra do Japi, no quarteirão limitado pela Radial Leste e pela rua Platina, onde os manifestantes haviam combinado de se encontrar para, posteriormente, sair em marcha pela região. Ali se localiza a sede do Sindicato dos Metroviários, entidade que convocara o protesto junto à CSP-Conlutas e ao PSTU. Como lideranças vinham declarando desde o dia anterior, a massa não caminharia rumo à Arena Corinthians, em Itaquera.

Cercados desde o começo por um ostensivo aparato repressor, alguns manifestantes começaram a se irritar com o cordão policial. O clima ficou mais tenso por volta do meio-dia, quando a tropa deu sinais de que encurralaria as pessoas em frente ao sindicato – o que efetivamente ocorreu. Então, um grupo de ativistas começou a montar pequenas barricadas com lixo, lixeiras de plástico, pedaços de madeira e postes de ferro na esquina das ruas Serra do Japi e Platina, com o intuito de retardar o avanço do choque.

Foi neste momento que a câmera do SBT registrou Hideki gritando: “Barreira na frente! Corrente humana atrás! Volta!” Não fica claro, pelas imagens, que os manifestantes, mascarados ou não, tenham acatado as orientações do jovem. Hideki então se posiciona na “corrente humana” que queria ver formada na esquina e volta a dizer em voz alta: “Corrente humana aqui atrás! Barreira de obstáculos na frente!” Outra vez, os manifestantes não parecem acatar as instruções.

Pouco depois, porém, Hideki pede a um jovem de camiseta branca e máscara de gás que recolha dois pedaços de madeira do chão e os leve até a barricada. O rapaz assente, apanha os caibros e os carrega para a “barreira de obstáculos” construída entre os manifestantes e os policiais. Em outros momentos, legendas colocadas pelo Deic sobre as imagens alertam para o fato de que “Fábio não sai de perto dos mascarados” ou que Hideki está “sempre entre os mascarados, com voz de comando e orientando”.

Se para a polícia e o Ministério Público as imagens são provas inequívocas da “influência” de Hideki sobre os black blocs, para a defesa mostram apenas orientações à proteção de pessoas que estavam prestes a ser atacadas pela polícia, como pode ser visto no mesmo vídeo seis minutos mais adiante.

“Quem vê o vídeo sabe que não sou líder de nada, que um monte de gente não está nem aí para o que eu falo”, comenta Hideki. “A gente estava numa situação amedrontadora. Pouco depois daquilo, a polícia disparou vários tiros e saiu batendo. Meus gritos eram uma tentativa de fazer com que o pessoal estivesse ao menos preparado, em vez de ficarem olhando pro céu.”

Deic/SSP/SPHideki participa de cordão humano em foto usada pelo Deic
Hideki participa de cordão humano em foto usada pelo Deic

“É um absurdo usarem esse vídeo como prova”, sustenta um dos membros da Rede de Solidariedade a Fábio Hideki Harano, que não quis se identificar por medo de perseguição. “Em manifestações, é comum pedir que as pessoas façam coisas. Acontece o tempo todo. Eu mesmo já fiz. Isso não significa que você tenha um grupo de liderados. É espontâneo. Você está vendo a polícia se aproximar e tenta tomar alguma atitude.”

Por enquanto, a gravação do SBT é a única com algum potencial de comprometer Hideki. Os demais trechos do vídeo produzido pelo Deic, com quase 16 minutos de duração, mostram o jovem apenas participando de manifestações. Uma delas data de 15 de maio. A legenda sugere que Hideki teve parte num conflito entre PMs e manifestantes. “Note que ele caminha em frente aos policiais que são hostilizados a todo momento”, diz, segundos antes do entrevero. No entanto não é possível vê-lo provocando o tumulto ou agredindo a tropa.

Ainda no dia 23 de junho, em vídeo dos Advogados Ativistas, Hideki aparece correndo em direção ao Sindicato dos Metroviários depois de policiais terem atacado manifestantes na esquina da rua Serra do Japi com a rua Platina – a mesma onde ele dá os gritos utilizados pelo Gaeco para acusá-lo como “líder” dos mascarados. As legendas dizem: “Assim que o choque avançou, ele se refugiou entre os metroviários.”

Deic/SSP/SPUma das imagens usadas pelo Deic para incriminar Hideki
Uma das imagens usadas pelo Deic para incriminar Hideki

Instantes depois, a edição feita pelo Deic, agora com imagens da TV Cultura, mostra Hideki novamente na esquina, junto aos black blocs, com a legenda: “Mas logo em seguida voltou ao confronto.” O jovem não atira nada contra ninguém – apenas corre, abraçado a sua mochila. E não dá para saber se os fatos ocorreram na mesma ordem cronológica sugerida pela polícia. Hideki assegura que, depois que deixou a esquina atacada pela PM, não voltou mais. “Entrei no sindicato e só saí quando tudo acabou.”

No final do vídeo aparecem imagens que, de acordo com o Deic, foram gravadas no “fatídico” 19 de junho, dia em que, após marcha do Movimento Passe Livre, uma concessionária da Mercedes-Benz foi depredada por manifestantes não identificados. “Mais uma vez, entre os mascarados”, insiste a legenda, enquanto Hideki aparece tirando o capacete para arrumar os cabelos e caminha em meio à massa pelo túnel que interliga as avenidas Paulista, Rebouças e Dr. Arnaldo, na zona oeste de São Paulo.

Há ainda algumas fotos, que também mostram Hideki participando de manifestações, perambulando próximo aos mascarados, ajudando a formar correntes humanas para direcionar o fluxo da passeata e outros comportamentos corriqueiros em protestos.

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Além de depoimentos contraditórios e vídeos pouco conclusivos, as denúncias também esbarram em interpretações da lei. Ao definir o crime de associação criminosa, o artigo 288 do Código Penal tipifica: “Associarem-se três ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes”. O advogado de Hideki argumenta, com base no texto, que os jovens são acusados erroneamente. “Não existe quadrilha de dois no mundo jurídico.”

O defensor público Bruno Shimizu, que representa Lusvarghi, complementa: “É preciso provar que essas três ou mais pessoas, e não duas, tinham liame prévio entre si, com a finalidade de cometer crimes”, pontua. “Não se pode acusar como associação criminosa qualquer ajuntamento humano que incorra em delitos. Num protesto, é possível que haja dano ao patrimônio. Isso não o converte numa associação criminosa.”

O Gaeco não nega que seja necessária a existência de três ou mais pessoas para a configuração da associação criminosa, mas sustenta que não é preciso identificar todos os membros. “Temos é que provar que essas duas pessoas estão unidas a outras. O vídeo mostra Hideki dando ordem para um rapaz pegar pedaços de madeira. E os policiais dizem que Hideki estava unido a Lusvarghi, pois se misturaram entre os manifestantes e conseguiram observar a relação entre eles.”

Taba Benedicto/Futurapress/FolhapressPadre defende Hideki desde a mesma noite em que foi preso: 'Explosivo foi forjado'
Padre defende Hideki desde a mesma noite em que foi preso: ‘Explosivo foi forjado’

Apesar da convicção da promotora, o próprio Ministério Público, por meio da Procuradoria Geral de Justiça, já apontou inconsistências nas acusações formuladas pelo Gaeco. Em parecer dirigido aos desembargadores da 3ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, em 29 de julho, o promotor Luis Felipe Tegon Cerqueira Leite, então designado à Procuradoria de Habeas Corpus, lembrou que não é possível “presumir-se a vinculação subjetiva” dos demais manifestantes.

“As pessoas comparecem às manifestações pelos mais diversos motivos e algumas delas, no seu curso, acabam aderindo às condutas de destruição do patrimônio público e privado”, argumentou, em concordância com a interpretação dos advogados. Por isso, continua Cerqueira Leite, seria “difícil” utilizar como evidência as insinuações feitas pelo Gaeco. “A prova da prévia associação demanda investigação mais sofisticada”, escreveu, recomendando “maior aprofundamento” das evidências.

As denúncias por resistência e desobediência também são contestadas pela defesa. E por uma razão que os advogados se esforçam por fazer parecer bastante óbvia: se os policiais que prenderam Hideki e Lusvarghi estavam à paisana, não lhes seria possível identificá-los como agentes do Estado e assentir imediatamente à abordagem. Além da palavra dos réus, que dizem ter sido agarrados de supetão pelos homens do Deic, e vídeos, que mostram trechos do episódio, dois testemunhos pesam em favor dos manifestantes.

O padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, presenciou, junto a outros manifestantes, a prisão de Hideki nas escadarias do Metrô Consolação. “Ele está sendo acusado de maneira delirante de coisas que não foi o que eu vi nem o que percebi”, disse, em entrevista. Desde o início, o religioso sustenta que os policiais “plantaram” o suposto explosivo na mochila do rapaz, cujos pertences foram revistados diante de seus olhos. “Por mais que mexessem, não apareceu nada suspeito.”

“A mochila dele foi revirada no momento da prisão”, insiste Greenhalgh. “Mas só lá no Deic, no meio do depoimento, é que apareceu um policial dizendo: ‘Olha o que encontramos aqui!’” O advogado utiliza esse “detalhe” na defesa do cliente, lembrando que até mesmo os registros oficiais da prisão reconhecem que o artefato só foi exibido ao jovem durante interrogatório, bem depois da abordagem e da prisão.

Plantado ou não nos pertences do rapaz, mais tarde, a perícia demonstraria que não se tratava de uma bomba caseira. “Porte de material explosivo é uma vulneração ao Estatuto do Desarmamento, um crime que não admite fiança. Por isso, colocaram lá e depois começaram uma lenga-lenga sobre o paradeiro do laudo, que não aparecia.”

Lusvarghi também tem um álibi para rebater as insinuações da polícia: o jornalista Marcin Wyrwał, que cobria o protesto para o canal de televisão polonês Onet. Wyrwał estava no Brasil para, como ele mesmo explica, “reportar sobre a Copa e sobre como a sociedade brasileira estava se comportando durante o torneio”. As manifestações, claro, estavam na pauta. E o jornalista esteve em várias com seu cinegrafista.

O polonês explica que seguiu Lusvarghi durante a maior parte do protesto de 23 de junho, filmando e fazendo entrevistas, pois estava gravando um programa especial com o rapaz. “Antes da manifestação começar, ele pediu para deixar suas coisas pessoais – chaves, celular e mp3 player – no meu carro, porque não tinha onde guardá-las”, sublinha. “Não tinha bolso. Estava apenas com uma saia escocesa, não carregava nada com ele.”

Acabada a manifestação, que, segundo Wyrwał, “foi muito pequena e pacífica”, o jornalista, seu cinegrafista e o jovem caminhavam em direção ao carro dos poloneses, indo embora, quando a polícia agiu. “Pegaram Rafael pelo pescoço, com uma gravata, e o derrubaram no chão. Também torceram seu braço”, afirma, classificando a cena como brutal e violenta. “Não se aproximaram dizendo algo do tipo: ‘Somos policiais, venha conosco’. Apenas o atacaram por trás.”

As palavras de Wyrwał, que já voltou para a Europa, podem ter tanta importância para a defesa de Lusvarghi quanto o testemunho do padre Júlio Lancellotti para a versão de Hideki. O relato do polonês é considerado valioso inclusive pelo Ministério Público. “Sei que um jornalista polonês estava acompanhando Rafael e afirmou que ele jamais poderia estar com artefato explosivo ou ter cometido crimes”, diz a promotora do Gaeco. “Eu não dou mais valor à palavra de um policial do que à de uma pessoa isenta.”

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As desconfianças sobre o trabalho da polícia se complementam com relatos de que um mesmo policial, com tatuagem de inspiração nazista, teria agredido Hideki e Lusvargh na sede do Deic momentos depois da prisão. As denúncias foram oficializadas no início de julho. Nelas, ambos identificam, entre os agressores, um agente com o lema Mein Kampf estampado no braço. As palavras – “Minha Luta”, em alemão – dão título à autobiografia de Adolf Hitler.

Em 3 de julho, Hideki recebeu a visita de membros do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) no presídio de Tremembé, onde cumpria prisão preventiva. A comitiva se completou com o deputado estadual Adriano Diogo (PT) e representantes da comunidade japonesa. Do ativista, ouviram que tinha levado soco no queixo, joelhada na barriga e chute na lateral da barriga. “Havia um policial branco e alto com uma tatuagem no braço, que, pelo que vi, estava escrito MyKampf (sic). Fiquei mais assustado.”

Depois, Hideki confirmaria a versão registrada pelo Condepe. “Havia um nazista lá, que ficava querendo me dar lição de moral. Me levaram para uma sala do Deic que daqui por diante chamarei de Cova dos Leões”, compara, pedindo desculpas aos leões. “Rafael estava no chão, completamente estropeado. Me fizeram sentar do lado dele. Quando perguntei seu nome, um policial me levantou, me jogou em outro canto e me deu um soco do lado esquerdo do maxilar. Vi estrelas. Também levei chutes e joelhadas na barriga.”

Anderson Barbosa/Fotoarena/Folhapress'Você vai apanhar que nem esse cara, japonês', ameaçaram policiais do Deic
‘Você vai apanhar que nem esse cara, japonês’, ameaçaram policiais do Deic

Hideki conta que sofreu “terror psicológico” antes e depois das porradas. Com celulares pessoais, tiraram fotos dos rapazes sentados no chão, festejando: “Mais uma pra minha coleção.” Pegaram a edição de março da Revista do Brasil, que o jovem carregava na bolsa. Na capa, um manifestante apavorado corre de um militar na época da ditadura. “Você vai apanhar que nem ele”, alertaram. “Aliás, você está na nossa mão, vai ficar muito pior.” Também se aproximaram de sua orelha e disseram, baixinho: “Você está fodido.”

Desde que reconquistou a liberdade, Hideki repete que se sentiu mais seguro dentro da cela, rodeado de pessoas acusadas e condenadas pelos mais variados crimes, do que na delegacia, à mercê dos policiais do Deic. “Podem falar que os presos são facínoras, mas eu digo que são seres humanos e que naquele momento estávamos na mesma situação. Eles me ajudaram e mesmo quem não gostava de mim me tratou com respeito.”

Em denúncia levada por seu irmão e uma amiga da família à Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo, em 2 de julho, Lusvarghi relatou que “foi mantido algemado e recebeu diversos socos e choques elétricos, e um dos policiais que tinha tatuagem no braço escrito Mein Kampf ainda pisoteou sua mão, ocasionando falta de sensibilidade”. Quando questionado diretamente, o relato do jovem ganha detalhes.

“Começaram usando uma lanterna sem lâmpada, no braço e no ombro. Depois, fios enfiados na tomada, nas pernas e abaixo da cintura”, diz. “Não foram muitos choques nem por muito tempo.” Socos e chutes, porém, se prolongaram. “Foram vários, vários mesmo, e de três policiais diferentes”, recorda, sublinhando que o agente com a tatuagem nazista foi o que mais bateu e xingou. “Eles se concentraram bastante na barriga, um pouco no peito e no braço.”

Lusvarghi conta que ficou tão desorientado após a pancadaria que não consegue precisar por quanto tempo foi agredido. Afirma que chegou “todo rasgado e marcado” ao Instituto Médico Legal para realizar exame de corpo delito. “E a médica escreveu que nada constava”, ironiza. “No Brasil, temos essa falácia”, contextualiza Greenhalgh. “A pessoa é torturada, vai para o IML, o médico nem te olha, diz que está tudo bem e já manda o laudo para a delegacia com os mesmos policiais que bateram.”

De acordo com Lusvarghi, os maus-tratos se intensificaram quando os advogados que acompanharam seu depoimento foram embora. Entre murros e pontapés, complementa, policiais pediam que assinasse um termo de culpa. “Óbvio que não assinei.” O jovem relata ainda que sentiu os efeitos da surra por alguns dias, sobretudo no dia seguinte, quando diz ter ficado “apagado” até às 16h, hora em que foi transferido do Deic para a carceragem do 8º DP.

“A notícia nos preocupa muito”, disse Júlio César Fernandes Neves, ouvidor das polícias de São Paulo, ao tomar conhecimento das denúncias. “Ficamos surpresos e com temor de que seja realidade.” Os casos são investigados pela Corregedoria da Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. Tanto Hideki como Lusvarghi salientam que, se confrontados com os agentes que participaram das sessões de tortura, conseguem identificar todos os agressores.

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Questionado sobre se não estaria “pesando a mão” contra os jovens, o Gaeco garante que não nutre qualquer tipo de “gana condenatória” nem “interesse em criminalizar” as manifestações.

O Ministério Público, porém, continua apoiando-se fortemente na palavra dos policiais, apesar das evidências que colocam em dúvida a credibilidade da versão elaborada pelo Deic: desde o laudo que descartou a existência de explosivos até os testemunhos do padre e do jornalista polonês, passando pela falta de provas materiais, pelas inconsistências na investigação e pelas denúncias de maus-tratos na delegacia.

“A gente se baseou no inquérito. Se vierem provas de que os policiais estão mentindo, não teremos problema nenhum em pedir a absolvição dos réus”, alega o Gaeco, adotando uma atitude que, para a defesa de Hideki e Lusvarghi, inverte o direito constitucional à presunção de inocência.

O Ministério Público elencou 12 testemunhas de acusação contra os jovens. Todas são policiais: sete civis e cinco militares. Entre os civis, todos são agentes do Deic, participaram da prisão de Hideki e Lusvarghi e empenharam a “fé pública” em denunciá-los. “A promotoria deveria formar seu próprio convencimento”, pondera o defensor Bruno Shimizu, “mas decidiu arrolar só policiais quando há muitas outras testemunhas. Isso revela adesão a um dos lados da história.”

Em sete anos atuando em processos criminais, Shimizu relata que jamais havia visto promotores tão empenhados numa condenação. “O Ministério Público às vezes força a barra nas acusações, mas essa denúncia chama a atenção pelo modo como cria malabarismos jurídicos para tentar encontrar prática de crimes onde não há”, define. “Isso nos causa muita estranheza em relação às possíveis influências políticas por trás dessas prisões. Essa intimidação toda não consta do Direito.”

Enquanto espera a vez de sentar no banco dos réus, Lusvarghi, desempregado, tem levado os dias no interior de São Paulo. Está sempre conectado ao Facebook, onde luze sorridente com o nome pelo qual gostaria de ser chamado: Varyag Volkovich Rurik. “Não gosto de Rafael.” Continua apaixonado por lendas nórdicas e história eslava, e o significado de seu pseudônimo resume a personalidade que se esforça para demonstrar.

Fábio Braga/FolhapressHelena, mãe de Hideki, costuma lembrar ao filho que 'está de molho'
Helena, mãe de Hideki, costuma lembrar ao filho que ‘está de molho’

“Rurik é o patriarca de uma das dinastias fundadoras da Rússia”, explica. “Volkovich quer dizer filho de lobo, porque quando morei na Rússia tinha rompido com minha família. Varyag é como são chamados os vikings no leste europeu.” Lusvarghi mantém firme a convicção de engrossar as forças separatistas em Donetsk, na Ucrânia, o que pretende fazer tão logo seja autorizado pela Justiça. E espera um dia “se sentir útil” fazendo parte de “algo realmente importante”.

Fora da cadeia, Hideki voltou ao trabalho no Centro de Saúde Escola do Butantã, onde cumpre “carga horária mínima” para atendimentos emergenciais – maneira que encontrou para continuar apoiando a greve dos funcionários da USP sem correr o risco de ser envolvido numa “nova armação” que possa complicar sua vida na justiça. Empenhou-se em leituras sobre economia, ficção e quadrinhos. RPG, como Guerreiro Anão, ainda não voltou a jogar.

“Não sou herói, sou apenas um sujeito azarado”, define. “Não queria ser preso, queria estar tocando minha vida normalmente.” Como não foi possível e lhe faltam palavras para descrever o “absurdo” da situação que está vivendo, Hideki prefere recorrer ao humor, tirando sarro dos próprios hobbies de nerd. “Mais ficção do que criar um mundo de fantasia medieval com magos e dragões é dizer que um cara como eu é líder dos black blocs e estava com uma bomba que nem funciona na mochila.”

Ainda assim, por ora, ficará longe das manifestações. “Fábio está de molho”, recomendou seu advogado – e sua mãe, Helena Harano, que padeceu durante a prisão, não vacila em recordá-lo disso o tempo todo. Inclusive em entrevistas, como na coletiva que concedeu em 13 de agosto. Enquanto o filho cedia ao assédio dos jornalistas, Helena batia o pé: “Vamos, Hideki, chega!” ou “Pelo amor de deus, Hideki!”. Foram tantos os apelos da mãe que o jovem acabou por assentir. “Essa desobediência, sim, pode me causar problemas.”