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Ditadura

Comissão da Verdade divulga foto com militar no local do acidente de Zuzu Angel

Em depoimento, ex-delegado afirmou que coronel que atuou no Doi-Codi foi responsável pelo acidente que resultou na morte da estilista, em 1976
por Redação RBA publicado 25/07/2014 14h57, última modificação 25/07/2014 19h43
Em depoimento, ex-delegado afirmou que coronel que atuou no Doi-Codi foi responsável pelo acidente que resultou na morte da estilista, em 1976
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Foto mostra Perdigão (marcado em vermelho) na cena do atentado sofrido por Zuzu Angel em abril de 1976

São Paulo – A Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou hoje (25) uma foto que mostra o coronel Freddie Perdigão no local do acidente que vitimou, em 14 de abril de 1976, a estilista Zuzu Angel. A imagem foi fornecida pelo ex-delegado do Dops Claudio Guerra, que em depoimento prestado à CNV na última quarta-feira (23) afirmou que Perdigão foi responsável por uma operação que visava a provocar o acidente. O militar, que atuou no Doi-Codi de São Paulo, morreu em 1998.

Quando sofreu o acidente automobilístico, na saída do Túnel Dois Irmãos (que depois ganharia o nome da estilista), no Rio de Janeiro, Zuzu estava em campanha para saber o paradeiro de seu filho Stuart Angel Jones, desaparecido desde 1971, e para ter o direito de enterrar seu filho. Passou a fazer denúncias contra a ditadura, dentro e fora do país. A sua morte sempre foi considerada suspeita. Um ano antes, ela escreveu cartas para amigos, entre eles o compositor Chico Buarque, afirmando que se aparecesse morta, inclusive por acidente, a responsabilidade seria "dos mesmos assassinos do meu amado filho".

Para o coordenador da CNV, Pedro Dallari, afirmou que a imagem ajuda a reforçar a ideia de que Zuzu foi vítima de um atentado, contrariando a versão oficial de acidente. "Apesar de o governo brasileiro, por meio da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, já ter reconhecido isso (que a morte não foi um acidente), os militares sempre negaram envolvimento." A Comissão da Verdade informou que o coronel da Aeronáutica Antônio Augusto Mendes de Matos prestou depoimento hoje pela manhã e negou a ocorrência de prisões de civis e torturas, além de contestar vinculação com o caso Stuart.

Estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e militante do MR-8, Stuart Angel Jones foi capturado em maio de 1971, aos 25 anos. Segundo depoimento incluídos em relatório da comissão, ele foi levado para a Base Aérea do Galeão e torturado, amarrado a uma viatura e arrastado pelo pátio, e em alguns momentos aspirando gases do cano de descarga do veículo. Morto, teria sido jogado no mar. Em 1977, Miltinho, do MPB-4, e Chico Buarque compuseram Angélica, lembrando o episódio: "Quem é essa mulher/ Que canta sempre esse estribilho/ Só queria embalar meu filho/ Que mora na escuridão do mar".

Ex-delegado do Dops no Espírito Santo, Claudio Guerra deu anos atrás depoimento a Rogério Medeiros e Marcelo Netto que resultou no livro Memórias de uma Guerra Suja, lançado em 2012, no qual fala de sua participação e de outros agentes em episódios ligados à repressão. À Comissão da Verdade, Guerra disse que ele e Perdigão eram "confidentes" e que um frequentava a casa do outro. "Um dia ele me disse que havia planejado simular o acidente dela (Zuzu) e estava preocupado, pois achava que havia sido fotografado na cena do crime pela perícia", afirmou a três integrantes do colegiado: Pedro Dallari (coordenador), José Carlos Dias e Paulo Sérgio Pinheiro. O depoimento à CNV foi aberto e está disponível na internet. Ele já havia prestado três depoimentos reservados à comissão.

Freddie Perdigão é apontado como torturador e executor, com atuação na chamada "Casa da Morte", em Petrópolis, e no atentado do Riocentro, em 1981.