Rio de Janeiro

Um mês depois de depor e admitir torturas durante ditadura, coronel é encontrado morto

Segundo familiares, casa de Paulo Malhães foi invadida e morte se deu por sufocamento. Comissão pede que PF acompanhe investigação

Daniel Marenco/Folhapress

À CNV, Malhães afirmou que matou “quantos foram necessários” e confirmou crimes na Casa da Morte

São Paulo – O coronel da reserva Paulo Malhães, ex-agente do Centro de Informações do Exército (CIE), 76 anos, foi encontrado morto hoje (25) em sua casa, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Há exatamente um mês, em 25 de março, ele deu depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV) durante o qual admitiu ter participado de torturas, mortes e ocultação de corpos. À pergunta sobre quantas pessoas havia matado, respondeu: “Tantos quanto foram necessários”.

Segundo o jornal Extra, investigadores da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense informaram que três homens invadiram a residência de Malhães na tarde de ontem (24). Ele teria ficado em poder dos bandidos das 13h às 22h. “A princípio, ele foi morto por asfixia. O corpo estava deitado no chão do quarto, de bruços, com o rosto prensado a um travesseiro. Ao que tudo indica ele foi morto com a obstrução das vias aéreas”, declarou ao jornal o delegado Fábio Salvadoretti.

No depoimento, Malhães, ao comentar seus atos, disse ainda que “não tinha outra solução”. Ao admitir que atuava na chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), também não estimou quantos presos políticos foram assassinados no local. “A casa não era só minha”, argumentou. Segundo ele, o local era mantido com recursos do Exército.

O militar também confirmou ter participado da chacina do Parque Nacional do Iguaçu, em 1974, quando cinco militantes foram executados. Eram liderados pelo ex-militar Onofre Pinto, morto dias depois. Todos estão desaparecidos até hoje. Mas recuou de declarações dadas à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro e ao jornal O Dia, sobre participação na operação para retirar o corpo de Rubens Paiva de uma praia no Rio. E afirmou não saber o destino do corpo.

Contrariando o que disse o delegado, o coronel Brilhante Ustra, apontado como torturador por entidades de direitos humanos, escreveu em sua página na internet que Malhães foi assassinado por quatro pessoas, que teriam dado quatro tiros no ex-militar. Posteriormente, Ustra postou reportagens dos jornais O Globo e Extra, que trazem a notícia sobre possível asfixia. “Postei no site apenas o que soube. A primeira informação  é que seriam quatro homens e quatro tiros”, diz mensagem assinada por Joseíta Ustra, mulher do coronel e responsável pelo site, lembrando que posteriormente novas informações foram acrescentadas. “Estamos tão interessados em postar a notícia correta como o senhor.

O coordenador da CNV, Pedro Dallari, telefonou para o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e pediu que a Polícia Federal acompanhe as investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Em nota, a comissão afirma que o crime deve ser investigado “com rigor e celeridade” por sua eventual relação com as revelações feitas por Malhães. “Por se tratar de uma situação que envolve investigação conduzida pela CNV, que é órgão federal , pedi que a Policia Federal fosse acionada para acompanhar as investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio”, disse Dallari.

Para o advogado e ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, trata-se mesmo de queima de arquivo. “O único militar torturador que contou o que fez e o que sabia foi assassinado. Queima de arquivo evidente”, afirmou no Twitter.

De acordo com a Agência Brasil, o presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, Wadih Damous, disse que a morte precisa ser investigada com rigor. “O coronel reformado foi agente importante da repressão política e detentor de muitas informações sobre a ditadura”, comentou, para justificar a necessidade da apuração.

Confira os depoimentos de Malhães à Comissão Nacional da Verdade:

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