esporte e repressão

Debate sobre futebol e ditaduras conclui que há ‘falsa dicotomia’ na polêmica sobre a Copa

Evento sobre os 50 anos do golpe discutiu as ações da Operação Condor e a manipulação do esporte

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Gol do Chile em 1973: jogo “kafkaniano” em estádio usado para prender e torturar

São Paulo – Debate realizado hoje (4) sobre a interferência de ditaduras latino-americanas no futebol, especialmente nos anos 1970, recaiu sobre a polêmica em torno dos movimentos contrários à realização da Copa do Mundo deste ano, no Brasil. E a conclusão foi de que há uma discussão enviesada a respeito: assim como ser a favor do torneio não significa defender a atual realidade brasileira, pedir direitos sociais não deve excluir o interesse de grande parte da população pelos jogos que começarão daqui a pouco mais de dois meses.

“Parece que foi construída uma dicotomia que não ajuda muito a entender o que de fato representa a Copa”, diz Lira Alli, do Levante Popular da Juventude. “O que está por trás da Copa é o sistema político brasileiro. Hoje, a gente fica refém de escolher candidatos que são financiados pelas mesmas empresas. As mulheres, os jovens, os negros não estão representados na política”, comenta, ao mesmo tempo em que vê problemas no slogan divulgado pelas redes sociais. “‘Não vai ter Copa’ dialoga pouco com o povo. E também não apresenta propostas concretas. Copa para quem? Qual é o legado? Como a gente constrói um esporte que seja acessível para o povo?”

Para o jornalista e historiador Lúcio de Castro, existe uma “falsa dicotomia” que prejudica as visões sobre o que envolve a Copa. Assim, quem é contra precisa saber que do outro lado há quem goste de esporte. “Ao não falar de futebol, a gente nega o diálogo, fecha uma porta de diálogo.”

Contra ou a favor?

Castro dirigiu uma série, exibida pela ESPN em 2013, sobre a relação entre ditaduras e o futebol na América Latina (Memórias do chumbo: o futebol nos tempos do Condor) na qual disseca as ações dos regimes autoritários no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. Os quatro documentários foram exibidos hoje, na sede do Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo, como parte do ciclo de debates sobre os 50 anos do golpe brasileiro.

Entre os vários depoimentos colhidos, um ajuda a dar a dimensão de como o futebol mexe com as pessoas até em situações extremas. O jornalista Cid Benjamin, militante que foi preso e torturado pela ditadura, já estava no exílio, na Argélia, quando o Brasil disputaria a final da Copa de 1970 contra a Itália. Era o governo Médici, com o AI-5 em pleno vigor, e não eram poucos os que diziam torcer contra a seleção brasileira porque uma vitória fortaleceria o governo. “Existia essa polêmica de torcer ou não torcer. Mas a polêmica acabou com o quarto gol”, conta Benjamin, lembrando do gol marcado por Carlos Alberto na decisão, o último da goleada por 4 a 1. Todos comemoraram.

Entra também a polêmica sobre os slogans de cunho ufanista divulgados pelo governo. Pelo menos um deles é refutado pelo coronel Octavio Costa, responsável pela Assessoria Especial de Relações Públicas (Aerp), órgão vinculado à Presidência da República na gestão Médici e um dos entrevistados para a série. O famoso “Ame-o ou Deixe-o” tem outra origem, garante, provavelmente na área de informações da ditadura, que tinha “uma seção de guerra psicológica”. Crítico da comunidade de informações – chegou a criar a expressão “criptoditadura” –, Costa diz que o poder dessa área “foi absolutamente avassalador”.

Ele conta que o Pra Frente, Brasil, música símbolo da seleção de 1970, não foi uma encomenda do governo. “O Miguel Gustavo (compositor) nos procurou, mostrou a peça e pediu ajuda na divulgação”, diz o militar.

Comunismo

Também são contadas histórias envolvendo o ex-jogador Afonsinho, vigiado por sua postura considerada “contestadora” em um meio conservador como o futebol, e o técnico João Saldanha, militante comunista, treinador da seleção até pouco tempo antes da Copa de 1970. Mas Lúcio de Castro destaca um documento obtido no Arquivo Público de São Paulo, em que Pelé, meses depois da Copa, conta ao Dops ter sido “assediado por comunistas” durante sua permanência no México, para assinar um manifesto contra a ditadura. Ele não aceitou, alegando ser contra o comunismo.

O jornalista Luiz Cláudio Cunha relata como o futebol, de forma indireta, ajudou a puxar o fio da meada nas investigações sobre o sequestro dos militantes uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, em Porto Alegre, em 1978, em ação conjunta do Dops gaúcho e de militares do país vizinho. Após receber um telefonema anônimo, Cunha, na época na sucursal da revista Veja, vai com o fotógrafo João Batista Scalco a um apartamento e, involuntariamente, presencia o início de uma ação organizada pela Operação Condor. O que ajudou a longa apuração foi a identificação, pelo fotógrafo esportivo Scalco, de um dos agentes do Dops: o ex-jogador do Internacional Didi Pedalada, que arrumara emprego no órgão de repressão, comandado pelo delegado Pedro Seelig – que, para Cunha, compõe com Sérgio Fleury e Brilhante Ustra a “santíssima trindade” da repressão brasileira.

No documentário dedicado ao Chile, depoimentos emblemáticos foram dados pelos ex-jogadores da seleção Carlos Caszely e Leonardo Véliz. O primeiro é lembrado até hoje por se recusar a cumprimentar o presidente Augusto Pinochet, às vésperas do embarque do Chile para disputar a Copa de 1974, na Alemanha. Tem dificuldade de falar sobre isso até hoje. O gesto resultou na prisão da própria mãe, que foi torturada pela ditadura iniciada em setembro de 1973.

Caszely conta que não foi um ato pensado com antecedência. “Foi coisa do momento.” Ele relata que tinha acabado de assistir a um filme sobre Anne Frank (alemã de origem judaica morta aos 15 anos em um campo de concentração) e que quando a porta se abriu e Pinochet entrou, foi como se o próprio Hitler estivesse ali. “Eu só pensava que queria viver tranquilo, só pensava nessa gente que não pode falar.”

Os dois lembram também de um “não jogo” realizado no final de 1973 entre o Chile e a União Soviética, que disputavam uma vaga para a Copa do ano seguinte. Após empate de 0 a 0 em Moscou, as duas seleções se enfrentariam em Santiago. Mas o local da partida era o estádio Nacional, para onde milhares de presos políticos foram levados, e muitos torturados e mortos. A União Soviética recusou-se a entrar em campo, em protesto político. Por determinação das autoridades chilenas e da própria Federação Internacional de Futebol (Fifa), coube ao Chile entrar em campo, mesmo sem ter um adversário, e tocar a bola até uma das metas, para “marcar” um gol e ser declarado vencedor. “Foi kafkaniano”, recorda Véliz.

Resistência

“A vida inteira ouvi que futebol e ditadura andavam juntos. Não que isso não seja usado num regime democrático, mas numa ditadura isso fica acentuado”, comenta Lúcio de Castro. Mas ele ressalta que o futebol “também foi resistência” e cita o caso do Defensor, time uruguaio que foi campeão nacional pela primeira vez em 1976, quebrando a hegemonia de Peñarol e Nacional. “Pela primeira vez, um time dá a volta olímpica à esquerda”, recorda.

O diplomata chileno Heraldo Muñoz recorda-se de uma partida em que havia um jogador chamado Pinochet, que naquele dia não atuava bem. O público, 30 mil pessoas, começou a gritar “Fora, Pinochet”. E em seguida: “E os outros três também”. Naquela época, havia um junta governando o país, com quatro integrantes. “Foi um ato de resistência.”

O procurador da República Marlon Weichert, que ouvia futebol no rádio de pilha para ouvir os comentários de João Saldanha, lembrou que o Brasil teve, de certa forma, o seu estádio Nacional. O Caio Martins, em Niterói (RJ), foi usado como um centro de detenção logo depois do golpe de 1964.