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Em depoimento à CNV, delegado afirma que gritos de torturados eram simulação

Ex-funcionário do DOI-Codi em SP, Dirceu Gravina é acusado pela morte de dois militantes políticos e pela tortura de outros quatro. Também teria participado de sequestros

Divulgação CNV
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Acusado de sequestro, assassinato e tortura, Gravina ainda atua como delegado no interior de SP

São Paulo – Conhecido pelo codinome de JC ou Jesus Cristo, pelos cabelos longos que luzia à época, o peito adornado com um crucifixo, Dirceu Gravina acredita profundamente no Espírito Santo, crença que jamais o permitiria submeter o próximo a torturas. Hoje com 65 anos, o delegado até ouviu pessoas gritando na sede do DOI-Codi, em São Paulo, onde trabalhou no início dos anos 1970. Mas acredita que os presos deveriam estar simulando. Não nega, porém, que tenham ocorrido graves violações aos direitos humanos no órgão de repressão do II Exército durante sua passagem por lá. Tampouco admite. Por ser temente a Deus, nunca mentiu na vida.

Esse é um resumo do depoimento prestado hoje (7) à Comissão Nacional da Verdade (CNV) pelo homem que atualmente chefia o Departamento de Polícia Judiciária do Interior na cidade de Presidente Prudente (SP). Convocado para esclarecer denúncias de que havia torturado presos políticos durante a ditadura, Dirceu Gravina se dirigiu até a capital e aceitou responder às perguntas dos advogados José Carlos Dias e Rosa Cardoso, membros da CNV, desde que a imprensa não estivesse presente. Permitiu apenas deixar-se fotografar ao lado dos comissionados. Instado a autorizar que os repórteres acompanhassem a oitiva, voltou a negar, acusando que alguns meios de comunicação não acreditariam em sua “verdade” da história.

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“Seu depoimento apresentou várias contradições. Usou muito a palavra de Deus, sua crença no Espírito Santo, afirmando que jamais torturou. Mas não negou que houvesse tortura. Nem afirmou”, relatou José Carlos Dias aos jornalistas logo após o término do depoimento. “Disse que ouvia gritos de pessoas que deveriam estar simulando. Perguntei a ele como poderia distinguir um grito de simulação de um grito de dor verdadeira. Ele dizia: é isso mesmo, doutor, é simulado, é simulado… Ele procurou se esquivar o tempo todo. Estava absolutamente perdido, fazendo citações. Diante disso, encerramos o depoimento.”

Segundo informações da CNV, que conta com assessoria da Polícia Federal na preparação das oitivasa pessoas acusadas de tortura durante o regime, o nome de Dirceu Gravina é citado três vezes no livro Direito à Memória e à Verdade, publicado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O codinome Jesus Cristo está associado às mortes de Yoshitane Fujimori e Aluízio Palhano, ambos militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).  Também figura como réu em duas ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF). Numa delas, responde pela tortura de quatro pessoas. Em outra, pelo sequestro e tortura de Palhano.

“Eu fui torturada pelo Gravina. Fui torturada muitas vezes”, testemunhou a ex-presa política Darcy Miaghi, que tomou o microfone logo depois de ouvir os relatos sobre as evasivas do delegado. “Ele chegava na sala de tortura e dizia assim: sou Deus, sou Jesus Cristo, tenho poder de vida ou morte sobre você.” Dentre os torturadores com quem teve o desprazer de conviver, Darcy afirma que Gravina era um sádico. “Não sei como classificar o nível dos torturadores. Mas quando você é torturada por muitos e muitos dias, por semanas, você acaba captando a natureza da pessoa. E, no caso, esse Gravina, o JC ou Jesus Cristo, que hoje apelou para Deus, ele zombava de Deus. Ainda tenho sinais aqui provocados por ele há 40 e poucos anos.”

As negativas de Gravina contrastam com a desinibição com que o torturador Paulo Malhães confessou as atrocidades que cometeu contra presos políticos durante a ditadura. Convidado a prestar esclarecimentos à CNV no final de março, o coronel reformado admitiu tudo: torturou, ocultou cadáveres, cortou dedos e arrancou dentes de pessoas assassinadas por ele e outros colegas da repressão. “Cumpri meu dever”, afirmou. “Não me arrependo.” Presente às oitivas de Malhães e Gravina, a advogada Rosa Cardoso afirma que, diferentemente do coronel, o delegado parece ter vergonha do que fez. “Sabe que cometeu crimes inconfessáveis”, aponta. “Sente que a família ficará envergonhada com o que fez.”

Além de Gravina, a CNV havia convocado outros dois agentes da ditadura para prestar depoimento nesta segunda-feira, em São Paulo: os militares Carlos Roberto Augusto, que não compareceu porque mudou recentemente de residência e não foi encontrado; e Roberto Arconi, que morreu em janeiro, mas que já havia passado por uma oitiva com os comissionados em maio do ano passado.