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Manifestantes vão às ruas de quatro capitais contra a Copa do Mundo

São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Fortaleza assistirão marchas contra a realização do torneio da Fifa e por melhores serviços públicos. Na capital paulista, protestos têm reunido entre mil e 2 mil pessoas

Joel Silva/Folhapress
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Em SP, terceiro ato contra a Copa do Mundo acabou sem violência policial

São Paulo – Novas manifestações contra a Copa do Mundo ocorrem no início da noite de hoje (27) em quatro cidades-sede do torneio: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza. É a quarta edição do protesto que, na capital paulista, já promoveu marchas em 25 de janeiro, 22 de fevereiro e 13 de março.

Como das outras vezes, o mote da passeata é “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa”. O slogan também batiza a aliança entre uma série de coletivos, sindicatos e movimentos, como Juntos (ligado ao Psol), Fórum Popular da Saúde, Contra Copa, Negação da Negação e CSP-Conlutas (ligada ao PSTU). Os grupos resolveram se juntar para exigir melhores serviços públicos e criticar os gastos com a competição – R$ 33 bilhões, dizem em sua página no Facebook, dos quais 85,5% serão custeados pelos governos federal, estaduais e municipais.

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“O Brasil receberá a Copa do Mundo de 2014, porém, a população, que não foi consultada, é quem vai pagar o preço. Tudo não passa de um grande espetáculo com o dinheiro do contribuinte”, afirmam na convocatória do ato nas redes sociais. “Está mais que comprovado que a Copa não agrega valores para os países das quais foram sede. Vivemos uma situação caótica do Sistema Único de Saúde, de pessoas despejadas para construção de estádios, falta de investimento na educação, infraestrutura e outros sistemas.”

Em São Paulo, onde as manifestações contra a Copa do Mundo têm sido marcadas pela presença ostensiva da Polícia Militar, haverá uma novidade. Na última sexta-feira (21), o presidente do Tribunal de Justiça, José Renato Nalini, instalou na capital um Centro de Pronto Atendimento Judiciário (Ceprajud). O centro foi criado em dezembro passado por uma portaria do magistrado Ivan Sartori, que então chefiava a corte paulista. O objetivo é acelerar a instauração de processos criminais contra pessoas detidas durante os protestos.

Para isso, um grande número de juízes criminais ficará de sobreaviso sempre que houver manifestações na cidade. Hoje, por exemplo. De acordo com a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça, todos os magistrados das 31 varas criminais do Fórum da Barra Funda, na zona oeste, estão tecnicamente à disposição do Ceprajud. São mais de 80 juízes, que poderão ser acionados conforme a demanda de manifestantes presos. Contudo, primeiramente serão acionados os titulares do Departamento de Inquéritos Policiais (Dipo).

Durante a inauguração do Ceprajud, o membro do Conselho Nacional de Justiça Guilherme Calmon Nogueira da Gama afirmou que o centro vai garantir à população que as manifestações sejam realizadas dentro da normalidade e da ordem. “Os casos de exceção que ocorrerem deverão ser tratados também de modo excepcional”, afirmou. E o secretário de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, Flávio Crocce Caetano, comemorou o Ceprajud como uma solução para o crescimento da violência nos protestos.

Apesar de algumas vidraças de bancos terem sido quebradas, o destaque dos dois primeiros protestos contra a Copa do Mundo realizados em São Paulo foram as cenas de abuso policial. Em 25 de janeiro, o jovem Fabrício Proteus Chaves foi alvejado por dois tiros disparados por policiais à queima roupa. Os PMs justificam a ação porque afirmam terem sido atacados pelo jovem, que supostamente sacara um estilete para atentar contra os soldados.

A defesa do rapaz nega e as imagens do circuito de segurança da Rua Sabará, no bairro de Higienópolis, palco do incidente, mostram que Fabrício caiu em cima do policial, provavelmente já ferido pelo projétil – e não partiu para cima dele, como afirmam a versão oficial. O jovem permaneceu alguns dias em coma e está se recuperando. Perdeu um testículo e movimentos do braço direito. Também está convivendo com problemas pulmonares devido às hemorragias internas provocadas pelas balas, que lhe atingiram no tórax e na genitália.

Em 22 de fevereiro, a PM destacou 2.300 homens para acompanhar 1.500 manifestantes pelo centro da cidade. Uma hora depois do início da passeata, sem que qualquer crime tivesse sido cometido, o cordão policial se fechou “preventivamente” sobre o grupo. Mais de 260 pessoas foram agredidas e presas, e 19 membros da imprensa apanharam, foram detidos, tiveram equipamentos danificados ou foram impedidos de registrar imagens da operação.

Assim como fez quando a PM atirou contra Fabrício, o governador Geraldo Alckmin, secundado pela cúpula da segurança pública estadual, elogiou a ação. A Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo, porém, considerou que as autoridades “cercearam” o direito à reunião e à expressão dos cidadãos. A Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo (OAB-SP) argumentou na mesma linha.

O cerco ao 2º Grande Ato Contra a Copa inaugurou no país uma tática conhecida como kettling ou caldeirão de Hamburgo, em referência à cidade alemã onde surgiu, em 1986, para conter um protesto antinuclear. Até agora, a manifestação de 13 de março foi a única da série que não acabou em violência policial generalizada. Ainda assim, um repórter fotográfico foi agredido.

A PM convocou a imprensa para uma reunião na tarde de hoje (27), algumas horas antes do protesto, juntamente com membros do Ministério Público, Companhia de Engenharia de Tráfego, OAB-SP, Polícia Civil, prefeitura e Advogados Ativistas. A ideia da corporação é discutir medidas de segurança para “prevenir atos de vandalismo e violência, além de proporcionar o livre exercício de manifestação daqueles que o fizerem de forma pacífica”.

No último protesto, apesar de não terem usado da violência de maneira ostensiva ou preventiva, como das outras vezes, os policiais não descartavam essa opção.

“Se for necessário fazer ação preventiva para evitar que crimes maiores aconteçam, para evitar que aconteça uma violência maior, a gente vai tomar atitudes”, assegurou o tenente coronel Eduardo Almeida, comandante da operação, antes do início da passeata. “Atuaremos quando percebermos que há possibilidade de haver depredação e violência. Em quase todas as manifestações anteriores com presença de black blocs houve esse tipo de ocorrência. Estamos preparados para isso.”