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Especialista afirma que maior parte dos dados de segurança pública em SP é falha

Coronel reformado avalia que governo paulista deve atuar para integração das polícias e que conceder prêmios não melhora motivação
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 27/02/2014 18h10, última modificação 27/02/2014 18h26
Coronel reformado avalia que governo paulista deve atuar para integração das polícias e que conceder prêmios não melhora motivação
segurança

Para especialista, análise dos dados sobre segurança tem pouco a ver com a realidade

São Paulo – O coronel reformado José Vicente Silva Filho, professor do Centro de Altos Estudos em Segurança da Polícia Militar de São Paulo e membro do Fórum Nacional da Segurança Pública, avalia que metade das estatísticas que a Secretaria da Segurança Pública paulista apresenta trimestralmente não tem serventia para análise de evolução da violência no estado de São Paulo. Segundo o coronel, dados de roubos, por exemplo, podem ser duplicados. Estupros teriam de ser multiplicado por dez. “Não há como você avaliar um crime que menos da metade é notificado. É estatística inútil”, afirmou.

O Instituto Sou da Paz divulgou ontem (26) um estudo com base nos dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública, comparando o último trimestre de 2012 com o de 2013. O trabalho aponta para uma redução de 24,1% no número de homicídios e 19,9% no de estupros. Mas também um aumento de 26,6% nos sequestros, 26,2% nos roubos de veículos, 17,9% nos roubos em geral e 15,4% nos latrocínios.

tabela

“Esse dado do estupro é absolutamente imprestável. Nós temos uma pesquisa sobre vitimização, de 2012, realizada em parceria entre Instituto Datafolha e Ministério da Justiça, que ouviu 80 mil pessoas e indica que o registro de crimes sexuais é menor que 10%”, avalia Silva Filho.

No caso de roubo seguido de morte, o dado é ainda mais irrisório. “Não tem como quantificar latrocínio. Isso é só uma curiosidade estatística. Se nós tivermos cerca de 600 mil assaltos (363.997 oficialmente, o coronel considera a duplicação do número, por conta da subnotificação) e 379 latrocínios é praticamente uma morte a cada 1.600 assaltos. Isso quer dizer que a chance de não se morrer em um assalto é de 99,94%”, questionou o coronel reformado. O índice deveria ser acrescido ao de homicídios, já que tal ocorrência, na prática, é a mesma.

Para ele, as polícias paulistas deviam se debruçar sobre aqueles dados que são mais confiáveis, como homicídio, furto e roubo. “A função da estatística é descobrir onde o problema é mais intenso para conseguir desenvolver políticas para reduzi-lo. São mais de 250 roubos de carro por dia. Esse é o grande absurdo em São Paulo hoje em dia. E nesse crime é praticamente todos os casos são registrados”.

Outro crime que cresce cotidianamente, mas não recebe tanta atenção são os roubos a postos de gasolina. O coronel cita um levantamento realizado em 2010, pelo centro de altos estudos, em que foi constatado que 50% destes estabelecimentos são assaltados todo ano. Se nada mudou de lá para cá, e temos quase 4 mil postos, são ao menos dois mil assaltos. Drogarias também. Por que são mais vulneráveis, o caixa fica praticamente na calçada.

Para Silva Filho, a principal questão para melhorar os índices de segurança no estado, é conseguir fazer a Polícia Civil e a Militar atuarem em conjunto. “Há uma certa divergência entre as forças. Ampliada por uma quebra na evolução salarial conjunta que havia e foi rompida pelo governo. Nós só vamos ter ganhos efetivos quando tiver uma polícia única, mas isso está longe de ocorrer”, afirmou.

“O problema que nós temos aqui é que em homicídios as polícias Civil e Militar podem até atuar separadamente e alcançar um um bom resultado. Porém, nos crimes contra o patrimônio, é preciso uma constante cooperação entre as duas polícias”, explicou.

Para ele os prêmios de motivação anunciados no fim do ano passado pelo governador Geraldo Alkmin (PSDB) são um paliativo ineficaz “Não é isso que vai contribuir para a motivação. Ele só atinge umas poucas pessoas. Tem de ter prática de gestão, planejamento, cobrança de resultados. Isso sim vai afetar a criminalidade”, avaliou.