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Repressão

Policiais agiram em legítima defesa ao balear jovem, afirma secretário da Segurança Pública

Fernando Grella afirma que policiais reagiram à agressão do jovem, que estaria armado com estilete. Nenhum PM se feriu. 'A polícia vai continuar trabalhando como sempre fez'
por Tadeu Breda, da RBA publicado 27/01/2014 19h16, última modificação 27/01/2014 19h36
Fernando Grella afirma que policiais reagiram à agressão do jovem, que estaria armado com estilete. Nenhum PM se feriu. 'A polícia vai continuar trabalhando como sempre fez'
Raquel Cunha/Folhapress
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Manifestantes fazem vigília em frente à Santa Casa, onde está internado jovem baleado pela PM

São Paulo – O secretário da Segurança Pública do estado de São Paulo, Fernando Grella Vieira, defendeu hoje (27) a conduta dos dois policiais que balearam o manifestante Fabrício Proteus Chaves, de 22 anos, no último sábado (25), após protesto na capital contra a realização da Copa do Mundo.

“As imagens que me foram mostradas são de uma agressão que em tese justificaria a legítima defesa”, afirmou Grella em entrevista coletiva concedida na sede da Secretaria da Segurança Pública, basicamente repisando posições anteriores, em que se colocou imediatamente ao lado da versão contada pelos agentes. O titular da pasta alertou, porém, que detalhes serão apurados em dois inquéritos policiais já em andamento: um civil e um militar. “As cenas mostram um ato de agressão contra o policial. Em tese, isso legitima a ação do policial.”

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O delegado Luciano Pires, titular do 4º Distrito Policial e responsável pela investigação do episódio, endossa a versão da legítima defesa, mas revela que nenhum dos dois PMs saiu ferido do suposto embate com Fabrício. “Os dois policiais atiraram. O tenente caído no chão e o soldado”, conta. “Eles alegam legítima defesa. Dizem que o jovem investiu contra eles com uma lâmina e eles não tiveram alternativa senão fazer o disparo para conter o agressor.”

Apesar de terem sido efetuados como alerta a um possível agressor, os tiros atingiram o tórax e a genitália de Fabrício, que se encontra em estado grave na Santa Casa de Misericórdia, hospital próximo do lugar dos fatos. O jovem continua sedado, mas apresentou ligeira melhora e já respira sem ajuda de aparelhos.

Um vídeo divulgado ontem (26) pelo programa Fantástico, da TV Globo, mostra que Fabrício foi alvejado após resistir à abordagem de dois PMs, distante do palco da manifestação. Nas imagens do circuito de segurança de um edifício, o jovem corre de dois soldados. Em determinado momento, para e se vira para um deles, que cai no chão. Fabrício então parte para cima do PM caído. O outro soldado saca a arma. Em seguida, é o jovem quem cai. Um terceiro policial chega.

De acordo com Grella, Fabrício partiu para cima do soldado empunhando um estilete. As imagens, porém, não permitem chegar a essa conclusão. “Não era um manifestante”, atesta o secretário, mostrando fotos de supostos explosivos e demais artefatos que estariam em posse de outro jovem. “Aqui temos a apreensão de objetos que não são próprios daqueles que querem participar de uma manifestação.”

No entanto, o secretário afirma que nem tudo estava com Fabrício. “Ele tinha uma chave de grifo, um estilete, bolinhas de gude, um óculos de segurança e uma garrafa de vinagre”, enumerou, afirmando depois que possuía ainda explosivos. É comum que manifestantes portem vinagre para se proteger dos efeitos do gás lacrimogêneo, óculos de segurança contra as balas de borracha e bolinhas de gude para o caso de ataques da cavalaria.

Questionado se a mera posse desses objetos justificaria os tiros com arma letal, Grella afirmou: “Ele não foi baleado por isso. Ele foi baleado porque tentou agredir com um estilete um policial que estava caído. Ele fugiu e correu e, ao ser interceptado, ele agrediu.” Questionado sobre a possibilidade de policiais terem plantado objetos na mochila do jovem, o secretário respondeu: “A garantia (de que esses objetos estavam com o jovem) é a autoridade policial. Ela tem fé pública.”

Ao contrário do que atestava nota da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Grella disse que ainda não é possível saber se Fabrício Proteus Chaves é adepto da tática black bloc. “Não tenho essa informação. A Polícia Civil, que possui uma investigação ampla sobre este grupo, com vários nomes e várias providências que estão em andamento, e que levarão a medidas concretas oportunamente, já está cruzando dados para identificar possíveis pessoas já cadastradas que teriam participado da manifestação.”

Grella comentou outra ação da PM durante a manifestação de sábado, quando homens da Tropa de Choque entraram num hotel da Rua Augusta armados com espingardas de bala de borracha em busca de manifestantes que procuraram refúgio no estabelecimento. “Não eram manifestantes”, reforçou, “eles invadiram o hotel quebrando as instalações. A polícia teve que intervir para restabelecer a ordem. Foi tudo dentro da norma.”

Aos jornalistas, o secretário afirmou que, apesar dos tiros de borracha disparados dentro do hotel, nenhuma pessoa saiu ferida do episódio. No entanto, o jovem Vinícus Duarte, de 26 anos, afirma ter sido espancado por policiais no lobby do estabelecimento. Com o rosto desfigurado, o estudante foi à delegacia prestar queixa pelas agressões. Teve pancadas nos maxilares e perdeu três dentes.

Como ocorre reiteradamente em manifestações, Grella afirmou que os policiais militares flagrados sem identificação serão “exemplarmente punidos”. Questionado sobre o motivo pelo qual os soldados retiram seus nomes do uniforme durante os protestos, o secretário afirmou que se trata de um descumprimento das regras.