Pagamento

Participantes da Braços Abertos decidem depositar primeiro salário no banco

Prefeitura de São Paulo informa que 292 de 300 inscritos continuam participando de programa. 'Agora eu tenho uma casa, um trabalho. Eles não vão tirar isso de mim', afirma participante

José Luiz / Secom / Prefeitura SP

Por varrição de ruas e zeladoria de praças, participantes de projeto recebem R$ 15 por dia

São Paulo – Os participantes do programa Braços Abertos receberam hoje (24) o salário correspondente aos primeiros oito dias de trabalho, de R$ 120. O pagamento foi feito por funcionários da Secretaria Municipal de Assistência Social no Intituto dom Bosco, no Bom Retiro, na região central.

Segundo a administração Fernando Haddad (PT), de 300 dependentes químicos inscritos no projeto iniciado na semana passada, 292 continuam participando. Desde a semana passada, quando foram removidos os barracos usados como moradia nas ruas Dino Bueno e Helvétia, eles moram em cinco hotéis alugados pela prefeitura. Os participantes têm direito a três refeições diárias e salário de R$ 15 por dia de trabalho na varrição e na zeladoria de ruas praças, com carga de 4 horas diárias, mais duas de qualificação profissional.

“Não vou ficar com o dinheiro. Vou procurar o banco e ficar só com R$ 20 no bolso”, disse o participante Renato Pereira, o Tim, um dos primeiros a receber o salário, que será pago sempre às sextas-feiras. Outros dependentes também tomaram essa decisão para evitar que, num momento de vontade, acabem utilizando os recursos para comprar drogas. Alguns deles conseguiram passar os últimos dias sem consumir crack. “Eu vou depositar cem para minha filha o resto vou investir”, afirmou Tatiane Silva. Há um ano na rua, ela quer voltar a trabalhar como manicure. Já Fábio dos Santos irá comprar roupas e visitar a família na Bahia. Ele conta que nos primeiros dias sentiu o peso dos oito anos de rua sobre seu corpo de 32 durante o trabalho, mas que agora está motivado a continuar.

À saída, os participantes falavam que o dinheiro simboliza a recuperação da dignidade porque agora têm um trabalho e uma casa. O rapper Kawex decidiu reatar os laços com a família, na zona norte, afirmando que agora se sente confiante para reencontrar os parentes. De manhã, ele manifestou indignação com a operação repressiva desencadeada ontem por agentes do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc). “Agora eu tenho uma casa, um trabalho. Eles não vão tirar isso de mim assim. Eles é que são violentos.”

Apesar da ação, os participantes do programa Braços Abertos realizaram normalmente suas atividades. A gestão Fernando Haddad (PT) e os agentes que atuam o projeto iniciado este mês temiam que a repressão, marcada por surras e bombas de efeito moral, levasse a uma quebra de confiança na relação desenvolvida com os participantes. “Na verdade saímos mais fortes. Durante a confusão as pessoas tentavam se esconder nos hotéis parceiros, o que demonstra confiança deles”, afirmou o psiquiatra Flavio Faroni, que anda pelas ruas da região vestido de palhaço para criar vínculos com os dependentes de crack e álcool.

O projeto municipal vem marcando um contraponto à Operação Sufoco, desencadeada em 2012 em parceria entre o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o então prefeito, Gilberto Kassab (PSD). Na ocasião, houve repressão a dependentes químicos, que passaram a migrar para outras regiões da cidade, colocando a perder o trabalho social desenvolvido anteriormente na região.

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