São Paulo

Moradores de ocupação avisam que só sairão da frente da prefeitura se a energia for religada

A ocupação do antigo Cine Marrocos, no centro, está sem energia e água há duas semanas. Prefeitura alega que o edifício é inapropriado e inseguro para habitação

Marcelo Camargo/ABr
cine marrocos

Dentre os 900 habitantes há jovens, deficientes, idosos, imigrantes e moradores de rua

São Paulo – Perto de 300 ocupantes do prédio do antigo Cine Marrocos, no centro de São Paulo, estão acampados em frente à sede prefeitura desde a madrugada de sábado (14). A energia elétrica do edifício foi cortada pela administração paulistana há duas semanas, o que prejudicou também o bombeamento de água. Segundo a coordenadora do Movimento dos Sem Teto do Sacomã (MSTS), Elenice Alves, as 357 famílias que vivem na ocupação só sairão da calçada do Viaduto do Chá quando o prefeito Fernando Haddad (PT) assegurar que a energia será religada. “Nós estamos reivindicando há uma semana a volta da energia, mas não houve qualquer negociação ou diálogo por parte da prefeitura.”

Segundo o prefeito, o prédio será destinado para a Secretaria Municipal de Educação e é impróprio para habitação. “Nós não temos como manter aquelas pessoas lá por várias razões. Primeiro porque o edifício é da Educação. Segundo porque está totalmente inseguro e toda a parte elétrica e hidráulica é inapropriada para moradia. É um prédio que esta fechado há anos, foi comprado pela prefeitura para servir à Educação”, afirmou hoje (16) em entrevista coletiva.

O prédio, com 12 andares e quatro blocos, foi ocupado pela terceira vez no início do mês passado. Elenice conta que dentre os 900 moradores há jovens, portadores de necessidades especiais, idosos, gestantes, imigrantes e pessoas anteriormente em situação de rua. “Nós consertamos os elevadores que estavam quebrados para os moradores com cadeiras de rodas conseguirem subir. Além disso, mantemos uma disciplina com porteiro e faxineiro para cuidado do prédio.”

Francine Pitta mora no prédio com sua filha, Graziela, de 7 anos, desde o início da ocupação. A criança tem monoparesia do lado direito do corpo e recentemente realizou uma cirurgia na perna. Francine se dedica integralmente aos cuidados e às consultas médicas da filha e ainda procura um emprego. “Não adianta a gente ficar no prédio sem água e sem luz”, reclama.

O grupo foi à casa do prefeito na última quinta-feira (12) para pedir o religamento da energia, mas não foi atendido. “O Haddad foi tão desumano. Tem gente na ocupação que precisa de balão de oxigênio e ele cortou a energia. Como uma pessoa com câncer avançado vai viver sem oxigênio?”, questiona Francine. O morador mencionado foi realocado pela coordenação do MSTS para outra ocupação mantida pelo movimento, no Museu do Disco, também no centro.

Graziela dos Santos também é uma das moradoras da ocupação. Ela e o marido, Júlio César, viviam em situação de rua e se mudaram para o edifício há um mês. “Ter um lugar para morar fez uma grande diferença, porque nos trouxe responsabilidades e oportunidade de estruturar nossa vida”, conta. Graziela estava havia 13 anos na rua e Júlio César, marceneiro, havia 20.

O porteiro Magno Oliveira e sua esposa, Abigail de Jesus, foram despejados do apartamento em que viviam, em Heliópolis, por conta do atraso do aluguel havia dois meses. Eles se mudaram para o Cine Marrocos com o filho Luiz Gustavo, de dez meses, porque Abigail teve de deixar o trabalho de balconista para cuidar da criança, e com isso, a renda da família diminuiu consideravelmente.

“Eu não estava conseguindo trabalhar para pagar aluguel nem creche para o meu filho, porque o berçário público demora demais para chamar as crianças. Já estava faltando comida em casa”, explica Abigail. A mãe aguarda vaga para o bebê em uma creche municipal desde que ele nasceu. Preciso trabalhar, mas como vou procurar emprego nesta situação?”, questiona.

Magno conta que o prédio estava havia três anos desocupado e com funcionamento de água e de energia. Segundo ele, o prefeito afirmou que havia gatos – ligações irregulares da fiação do edifício – e mandou prender três moradores da ocupação. De acordo com a coordenadora do MSTS, o grupo já foi liberado.

Nós só queremos conseguir aquilo que a prefeitura não nos dá, que é moradia. Se o Haddad falou que o prédio é da Secretaria de Educação, tudo bem, mas arrume outro lugar para a gente. Se sairmos dali agora, vamos para a rua. Ninguém tem onde morar, casa própria, dinheiro na conta do banco. Se nós tivéssemos condições de pagar um aluguel não estaríamos na ocupação”, desabafa Magno.

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