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Frei Betto: 'Não há excesso de bocas no planeta, o que há é falta de justiça'

Em seu comentário semanal à RBA, Frei Betto reforçou que as teorias utilizadas para justificar a desigualdade social são impregnadas de 'preconceitos e discriminação'
por Redação RBA publicado 02/12/2013 15h31
Em seu comentário semanal à RBA, Frei Betto reforçou que as teorias utilizadas para justificar a desigualdade social são impregnadas de 'preconceitos e discriminação'
Marcelo Camargo/ABr
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Para Frei Betto, os que são 'cegos à desigualdade social alegam que a miséria advém do excesso de pessoas'

São Paulo – Para o analista de movimentos sociais Frei Betto, as teorias criadas para justificar a existência de ricos e pobres na sociedade e para afirmar que uns seres humanos são naturalmente mais aptos que outros não passam de claro “preconceito e discriminação” utilizados para manter a desigualdade social. Em comentário hoje (2) à Rádio Brasil Atual, Frei Betto reforçou que a imensa discrepância de qualidade de vida e de oportunidades entre as pessoas é causada por "falta de justiça".

No século 18, o teórico capitalista inglês Thomas Malthus deu início a uma corrente de pensamento que afirmava que a população que crescesse em velocidade maior que seu estoque de alimentos seria inevitavelmente reduzida pela fome, por isso uma política de controle da natalidade seria necessária. Sua filosofia sofreu adaptações durante os séculos 19 e 20 por nomes como o também britânico Herbert Spencer, que popularizou o termo darwinismo social, utilizado para explicar que na sociedade os mais fortes prosperam e compõem um grupo hegemônico dirigente de uma civilização, justificando a política imperialista de alguns países, como Estados Unidos e Inglaterra.

Frei Betto explicou que Spencer utilizou a teoria malthusiana para enfatizar que na sociedade os mais aptos progridem a custa dos menos aptos e que, portanto, a competição entre os seres humanos é positiva e natural. “Os que são cegos às verdadeiras causas da desigualdade social alegam que a miséria decorre do excesso de pessoas neste planeta e que medidas rigorosas de redução da natalidade devem ser aplicadas”.

Nem Malthus nem Spencer se colocaram uma questão muito simples: se somos 7 bilhões de seres humanos no planeta e, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), produzimos alimento para 12 bilhões de bocas, como justificar a desnutrição crônica de 1,3 bilhão de pessoas? A resposta é óbvia, não há excesso de bocas, o que há é falta de justiça. Quanto mais são derrubadas as barreiras entre classes, hierarquias, pessoas de cor e de pele diferente, mais os privilegiados e seus ideólogos se empenham em buscar possíveis justificativas para provar que entre humanos uns são naturalmente mais aptos que outros”, argumentou.

O comentarista da RBA ainda completou reforçando que o ideal de felicidade humana foi deturpado na maior parte da sociedade com o passar do tempo. “Manter vínculos de afeto é essencial à felicidade da espécie humana. A Declaração de Independência dos Estados Unidos teve a sabedoria de incluir o direito à felicidade, considerado uma satisfação das pessoas com a própria vida. Pena que muitos estadunidenses considerem a felicidade como uma questão de posse e não de dom. A liberdade individual é considerada valor acima do bem estar da comunidade”.