Ditadura

Polícia Federal desmente CNV e diz que não está investigando ataque a ossadas em SP

Prefeitura também afirmou que PF ajudaria a elucidar vandalismo contra obra de arte e profanação de restos mortais em edifício que abriga ossos encontrados na vala clandestina de Perus

Douglas Mansur/CEV Rubens Paiva
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Ataques ocorreram horas depois de cerimônia em homenagem a desaparecidos políticos

São Paulo – A Polícia Federal desmentiu hoje (8) as afirmações da prefeitura de São Paulo e da Comissão Nacional da Verdade (CNV) de que vai ajudar nas investigações sobre o ataque sofrido pelo Ossário Geral do Cemitério do Araçá, na zona oeste da capital, na madrugada do último domingo (8). De acordo com a assessoria de imprensa da PF, em Brasília, até a manhã desta sexta-feira, nenhum pedido oficial fora encaminhado ao órgão para que auxiliasse a Polícia Civil na elucidação do crime.

Na ocasião, duas gavetas foram violadas e três ossadas acabaram espalhadas pelos corredores da necrópole. A instalação Penetrável Genet / Experiência Araçá, dos artistas Celso Sim e Anna Ferrari, que dialoga com o tema dos desaparecimentos, acabou vandalizada. Uma das placas de mármore da obra recebeu as inscrições “13” e a letra “A” envolvida por um círculo, símbolo do anarquismo. É possível ainda ler as iniciais “CNV”, em referência ao grupo que investiga as graves violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado brasileiro durante a ditadura (1964-1985).

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Desde 2002, o Ossário Geral do Araçá abriga 1.046 fragmentos humanos encontrados em 1990 na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte, utilizada pelos órgãos da repressão para sepultar vítimas do regime. A depredação ocorreu algumas horas depois de familiares e amigos de mortos e desaparecidos políticos terem realizado uma cerimônia ecumênica para lembrar seus entes queridos, no Dia de Finados, e pedir que os militares indiquem de uma vez por todas seus paradeiros.

Logo após o ataque, o secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Rogério Sottili, entrou em contato com o coordenador da CNV, José Carlos Dias, pedindo que requisitasse à Polícia Federal que entrasse no caso. Apesar de não haver qualquer pista que possa levar aos agressores, Dias assentiu. Na terça-feira (5), em frente ao Ossário Geral do Araçá, durante um ato de desagravo aos artistas, o membro da comissão se comprometeu pessoalmente a contatar o diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra.

Ontem e anteontem, as páginas da prefeitura de São Paulo e da CNV na internet divulgaram notas dizendo que a Polícia Federal havia acatado o pedido de José Carlos Dias e decidido entrar no caso. No entanto, a instituição, subordinada ao Ministério da Justiça, negou à RBA qualquer envolvimento nas investigações. A Superintendência da PF na capital disse que tampouco recebeu qualquer orientação nesse sentido. O delegado Marco Aurélio Batista, titular do 23º Distrito Policial, em Perdizes, que conduz as investigações, também nega ter recebido contato da PF.