sem acordo

Tentativa de ocupação da prefeitura fecha diálogo entre gestão Haddad e sem-teto

Movimento tinha reunião agendada com a gestão municipal para discutir ocupações no extremo sul da capital

Marcelo Camargo/Abr
sem teto prefeitura

Os manifestantes ameaçaram acampar em frente da sede do governo municipal caso não fossem recebidos

São Paulo – Cerca de 500 moradores das ocupações Dona Deda/Parque Ipê e Anchieta, organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), perderam a oportunidade de dialogar sobre as áreas ocupadas por conta da ação de um grupo menor que tentou ocupar a prefeitura e confrontou a Guarda Civil Metropolitana (GCM), na manhã de hoje (17). Com a reunião, que estava agendada, o movimento pretendia evitar novos despejos na ocupação do Parque Ipê, no Campo Limpo, e avançar na negociação sobre o terreno da Anchieta, no Grajaú. As duas áreas ficam na zona sul da cidade.

Segundo o coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, a ação foi um evento isolado e não tinha orientação da coordenação do movimento. “Foi um momento em que a coisa saiu do controle. Nossa manifestação é pacífica, somos um movimento formado por famílias”, defendeu, ponderando que isso não deveria ser justificativa para a prefeitura abandonar o diálogo de hoje.

No enfrentamento, seis vidros da porta principal do Edifício Matarazzo foram quebrados. Os manifestantes também cortaram a amarração de uma das grades que fecham a calçada em frente ao prédio com um alicate hidráulico. Os manifestantes afastaram o grupo que tentou ocupar o local e fez um cordão de isolamento em frente ao prédio.

A prefeitura emitiu nota condenando a ação e informando que “a tentativa de invasão deixou três Guarda Civis Metropolitanos (GCMs) feridos. Um inspetor teve um corte na mão direita, outro inspetor sofreu hematomas na perna esquerda e um guarda apresenta inchaço no pescoço em decorrência de uma paulada”.

Boulos explicou que a reunião também pretendia discutir o fim dos despejos realizados pela GCM nas áreas públicas, instalação de uma mesa permanente de diálogo sobre habitação em São Paulo.

Na última terça-feira (15), o movimento realizou uma manifestação na Câmara Municipal exigindo agilidade na votação do Plano Diretor Estratégico e a demarcação de Zonas Especiais de Interesse Social, áreas definidas para instalação de habitação popular, em algumas regiões da zona sul da capital — uma delas é o Parque Ipê.

Na Câmara também houve um princípio de confronto com a Polícia Militar, que usou gás de pimenta e lacrimogêneo quando os cerca de mil manifestantes tentaram ocupar o local. Um grupo de 12 integrantes do MTST foi recepcionado pelo presidente da Casa, vereador José Américo (PT), que recebeu a pauta de reivindicações do grupo.

A mobilização de hoje tinha a intenção de pressionar a gestão Haddad a atender às reivindicações das famílias. “A prefeitura tem realizado poucas ações efetivas para tratar do problema da moradia na cidade. Dezenas de ocupações surgiram nos últimos meses, motivadas pelo alto custo dos aluguéis e pela falta de uma política de habitação no município”, afirmou Boulos.

Os manifestantes fecharam todas as faixas do Viaduto do Chá e ocuparam a frente da prefeitura. Eles ameaçaram acampar em frente ao prédio, caso não fossem atendidos pela administração municipal.

De acordo com o coordenador, a manifestação foi encerrada com indicativo de se realizar uma reunião na próxima quarta-feira (23), com os secretários de Relações Governamentais, João Antonio da Silva, e da Habitação, José Floriano Marques, para retomar a pauta de hoje. Até lá, a ocupação do Parque Ipê não seria despejada, já que está entre os assuntos que seriam discutidos hoje.

A prefeitura não confirmou a realização de reunião, nem a garantia de não realizar ações de desocupação no terreno do Ipê.

A ocupação Dona Deda/Parque Ipê foi retomada na madrugada do último sábado (12), depois de ter sido despejada pela GCM há três semanas. São cerca de 300 famílias, segundo o coordenador local Marco Aurélio Medeiros. A área foi ocupada inicialmente em julho.

Já a área da organização não governamental Instituto Anchieta Grajaú, onde está a ocupação Anchieta, tem cerca de 600 famílias, segundo o movimento. O local é uma propriedade privada e Boulos afirma que está sendo negociada a compra do terreno pela prefeitura para destiná-la a habitação popular.