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Propinoduto tucano

Em SP, grupo 'escracha' Alstom e Siemens e pede apuração de denúncias de corrupção

Movimentos sociais protestam na Marginal Tietê, onde fica a sede das empresas, contra governo do PSDB. Há indícios de que cartel está instalado também nas hidrelétricas
por Tadeu Breda, da RBA publicado 04/09/2013 11h39, última modificação 04/09/2013 15h00
Movimentos sociais protestam na Marginal Tietê, onde fica a sede das empresas, contra governo do PSDB. Há indícios de que cartel está instalado também nas hidrelétricas
© Marcelo Alves/Techimage/Folhapress
marcha marginal alstom.jpg

Protesto em SP exige apuração de denúncias de corrupção em SP e alerta para presença de corruptoras em obras federais

São Paulo – Cerca de mil pessoas saíram em passeata pela Marginal Tietê, em São Paulo, na manhã de hoje (4), para pedir uma “apuração séria” das denúncias de corrupção envolvendo governos do PSDB em São Paulo e empresas do setor metroferroviário. Investigações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Polícia Federal e Ministério Público indicam que Alstom, Siemens, Mitsui, Bombardier e TTrans, entre outras, se articularam com altos funcionários da administração tucana para fraudar licitações para renovação de frotas e ampliação da malha do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Em troca de benefícios na justiça, a própria Siemens denuncia o esquema.

“É fundamental fazer uma articulação ampla contra o governo do PSDB”, explica Carla Bueno, militante do Levante Popular da Juventude, entidade que ficou conhecida por realizar “escrachos” contra pessoas acusadas de terem colaborado com a ditadura no país, e que convocou a manifestação de hoje em conjunto com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) para escrachar as empresas acusadas de corrupção. “Estamos na véspera das eleições e precisamos denunciar o que está acontecendo em São Paulo. Temos a faca e o queijo nas mãos para seguir denunciando não apenas os governos tucanos, mas também as empresas, porque não há corrupção sem corruptores.”

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A marcha deixou a Praça Armando del Debbio, que fica aos pés da ponte Atílio Fontana, na zona oeste da capital, e caminhou pela pista local da Marginal Tietê até o conjunto empresarial E-Business Park, onde se encontram as sedes das empresas Alstom e Siemens. “Enquanto não houver justiça, haverá escracho popular”, disseram os organizadores do protesto com a ajuda de um carro de som. Em frente ao portão, o grupo encenou um trem lotado de passageiros, esmagados no trajeto entre casa e trabalho, enquanto manifestantes representando um “político do PSDB” e um “empresário da Alstom” negociavam contratos e propinas.

Minutos depois, a marcha seguiu para outra entrada do complexo, na Rua Werner Von Siemens, nome do fundador da empresa que participou – e agora está delatando – o esquema que desviou cerca de R$ 425 milhões do Erário estadual. Assim como costumam fazer com logradouros que homenageiam colaboradores da ditadura, militantes do Levante Popular da Juventude trocaram o nome da rua para 12 de Janeiro, em referência à data do desmoronamento na estação Pinheiros, da Linha 4 Amarela do metrô. Ocorrido em 2007, o desastre matou sete trabalhadores, que foram homenageados com cruzes “ensaguentadas” colocadas na porta da empresa.

“Esse acidente só ocorreu por causa da irresponsabilidade da Siemens e da Alstom em conjunto com os governos tucanos”, disseram, pelo carro de som. Antes de deixarem a região, os manifestantes escreveram no asfalto: “Empresa corruptora, fora!” “Essa empresa desde muito tempo vem explorando e matando os trabalhadores de todos os países. Essa empresa, que enriqueceu com trabalho forçado nos campos de concentração nazista, ainda hoje continua matando a população com seus cartéis sujos e imundos em parceria com governos corruptos, como o PSDB em São Paulo. Eles só pensam em enriquecer em cima do sofrimento do povo.”

Hidrelétricas

A maioria dos manifestantes que escracharam a Siemens e a Alstom pertencia ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que realiza seu encontro nacional na cidade de Cotia, região metropolitana de São Paulo. Apesar de atuar na articulação de indígenas, quilombolas e pequenos agricultores que perdem suas terras devido à construção de usinas hidrelétricas no interior do país, o MAB foi às ruas na manhã de hoje pois acreditam que os mesmos cartéis que superfaturam preços no metrô e na CPTM também operam no fornecimento de turbinas e outros equipamentos para a geração de energia.

“Exigimos que denúncias apontadas há alguns anos, de formação de cartel também na área de construção de usinas hidrelétricas, sejam retomadas e investigadas, porque há sérios indícios de que há conluios no fornecimento de turbinas e componentes para as usinas”, explica Robson Fornica, membro da coordenação nacional do MAB. “No limite, esse sistema corrompido, dominado pelas grandes empresas transnacionais, aliadas a políticos que se subordinam e se associam a esses interesses, é o que de fato prejudica o povo brasileiro, encarece o preço do transporte, da energia elétrica e as condições de vida do povo. Queremos mostrar quem são os grandes inimigos do povo.”

As irregularidades apontadas pelo MAB se referem supostas irregularidades no fornecimento de componentes para as usinas hidrelétricas de Itá, em Santa Catarina, e Itaipú, no Paraná. De acordo com o jornal Brasil de Fato, a justiça federal investiga se a Alstom desembolsou R$ 5 milhões em propinas para vencer contratos de centenas de milhões de reais com as empresas de geração de energia. Alstom e Siemens também fazem parte do consórcio que fornecerá turbinas para a usina de Belo Monte, no Pará, cujos custos de construção, em grande parte financiados pelo BNDES, já ascenderam aos R$ 28,9 bilhões.

Amanhã o MAB deve voltar às ruas de São Paulo, desta vez na Avenida Paulista, mas direcionará suas críticas aos novos leilões de exploração de petróleo e à privatização do setor elétrico. “Somos contra a retomada da agenda de privatizações das hidrelétricas que não entraram no processo de renovação das concessões”, explica Fornica. “Isso se estende a usinas da Cesp, Cemig e Copel, todas no Sudeste, cuja concessão venceria em 2014. Temos que lembrar que a privatização apenas encareceu o preço da energia. Só conseguimos reduzir as tarifas com intervenção do Estado, e não pela livre concorrência do mercado.”