Truculência

‘Não houve agressão, houve defesa’, diz Polícia Militar de São Paulo

Ao todo, 232 pessoas foram presas, muitas antes mesmo de o ato começar pelo crime do 'porte de vinagre'. Centenas foram agredidas, e o trabalho da imprensa, cerceado

Jennifer Glass/Fotos do Ofício
MPL

PM nega que tenha havido uma ação contra os profissionais de imprensa

São Paulo – Para a Polícia Militar do Estado de São Paulo, “não houve agressão” contra os 20 mil manifestantes que protestaram ontem (13), em São Paulo, contra o aumento da tarifa de transporte público, na qual centenas de pessoas foram agredidas e 232 presas. “A polícia se defende e defende a ordem”, disse o assessor de imprensa da corporação, major Marcel Lacerda Soffner, à RBA, ecoando as palavras proferidas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que rejeitou a ideia de que tenha havido truculência.

“A polícia está exercendo seu papel constitucional e os manifestantes também, mas devem fazer isso dentro da lei brasileira. Deve ser uma manifestação legítima, ordeira e pacífica. Os métodos utilizados não foram legais. O problema foi o a violação da ordem, o vandalismo, com resistência na via pública”, disse o major Soffner.

Os manifestantes presos foram conduzidos para averiguação nos 1º, 4º, 6º, 8º e 78º Distritos Policiais, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Deste total, a Polícia Civil registrou 32 Boletins de Ocorrência e seis Termos Circunstanciados, envolvendo 84 pessoas. Quatro pessoas foram indiciadas por formação de quadrilha, incitação ao crime e dano qualificado. Hoje (14) elas foram transferidas do 2º DP para a Penitenciária de Tremembé II, no Vale do Paraíba.

De acordo com o assessor, havia um acordo entre a PM e o Movimento Passe Livre (MPL) para que as vias principais da cidade, no caso a Rua da Consolação, na zona central, não fossem interditadas. O movimento, no entanto, nega a informação. “Em momento nenhum nos comprometemos a não obstruir vias. O que fazemos é negociar com a polícia para tentar inibir a violência”, diz a militante Érika de Oliveira.

Os militantes deixaram o Teatro Municipal pelo calçadão da Rua Barão de Itapetininga, seguiram até a Praça da República e de lá para a Rua da Consolação. Ao chegar no cruzamento desta com a Rua Maria Antônia, depararam com um bloqueio de motocicletas da PM, o que impediu a passagem dos manifestantes, que caminhavam pacificamente contra o aumento na tarifa – reajustada no último dia 2 de R$ 3 para R$ 3,20.

O único itinerário possível era subir a Rua da Consolação em direção à Avenida Paulista. Ainda assim, a Polícia Militar insistia que os manifestantes dessem marcha a ré e finalizassem o protesto na Praça Roosevelt, menos de meia hora depois de iniciado.

O grupo permaneceu parado esperando o resultado da negociação entre membros do MPL e o comando policial. Foi quando a Tropa de Choque apareceu pelas ruas laterais e encurralou a linha de frente da passeata, lançando bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo para dispersar a multidão.

“Mas a força militar já estava em operação antes do ato”, lembrou Érika, referindo-se a batidas policiais realizadas no centro de São Paulo, durante a tarde. A polícia militar reconhece que revistou uma série de pessoas, “devido à circunstância”, segundo major Soffner. “Havia denúncias de pessoas com martelos, pedras, coquetel molotov e soco inglês”, disse. “A PM não quer esse tipo de ação, temos que garantir a liberdade de manifestação do pensamos, mas pode partir para a radicalização e a baderna.”

Pelo menos cinco jornalistas que cobriam o ato foram agredidos, entre eles a repórter da RBA Gisele Brito. O assessor de imprensa da PM nega que tenha havido uma ação contra os profissionais de imprensa. “Queremos garantir a ordem. As ações não são direcionadas, mas há um risco eminente da própria reportagem, por estar presente no momento do conflito.”

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