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Conservadorismo e intolerância se apropriam de mobilização em São Paulo

Transporte perde espaço para a bandeira difusa do combate à corrupção, que preocupa aqueles que participaram do início da mobilização, temerosos de que vitória progressista vire avanço conservador
Publicado por Gisele Brito e Tadeu Breda, da RBA
03:33
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Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>Danilo Ramos. RBA <span></span>19h09 <span></span>

São Paulo – “Isso dos vinte centavos foi só para enganar o povo”, acredita Ana Martins, de 20 anos, estudante de Arquitetura. “É muito fácil baixar esses vinte centavos, e aí volta todo mundo para casa. A gente quer mais saúde, educação e menos Copa.” Essa é apenas uma das dezenas de exigências que puderam ser vistas e ouvidas ontem (20) na Avenida Paulista, em São Paulo, durante a passeata que pretendia comemorar a redução da tarifa do transporte público na cidade, anunciada na última quarta-feira. A mobilização, que começou a ser puxada no dia 6 de junho pelo Movimento Passe Livre (MPL), movimentos sociais e partidos de esquerda, massificou-se no começo desta semana e ganhou cores que destoam totalmente das organizações que conduziram o processo.

Temas como combate à corrupção, fim dos impostos, insígnias antipartidárias e críticas à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público, tiveram bastante apelo entre a massa. Também foi possível ver uma série de cartazes contra os gastos públicos com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, que beiram os R$ 30 bilhões, e críticas à má qualidade do sistema de saúde e educação no país. A presidenta Dilma Rousseff (PT) também se tornou alvo dos ataques proferidos por faixas e cartazes. Uma jovem que puxava um bloco com o uso de um megafone pedia que as pessoas fossem à rua “contra o governo”, mas não sabia especificar contra qual administração estava protestando. “Não, a gente não é anarquista. A gente é contra esse governo. Todos os governos corruptos, esses governos que aumentam a passagem do ônibus, que roubam, são corruptos.”

O próprio Movimento Passe Livre (MPL) – organizador dos atos que resultaram na revogação do aumento da passagem de ônibus, trem e metrô na cidade – havia manifestado na manhã de ontem receio de que setores mais conservadores da sociedade tentassem se apropriar das manifestações. Depois da quinta-feira (13), quando houve repressão policial às passeatas de São Paulo e Rio de Janeiro, marchas passaram a ser realizadas em todo o país, mas aos poucos foram surgindo bandeiras e grupos mais heterogêneos, que não tinham a qualidade do transporte público como prioridade.

A mudança na composição do protesto foi tamanha que a mais recente manifestação na Avenida Paulista contou inclusive com a presença de um tucano: o ex-deputado estadual Milton Flávio. Na primeira semana de mobilizações, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e seus aliados se posicionavam radicalmente contra o movimento pela redução, tendo sido o responsável direto pelo endurecimento da PM. “O movimento acabou permitindo que outras insatisfações viessem à tona: contra a corrupção, contra a péssima qualidade dos serviços públicos em função dos impostos altos que pagamos e a opção incorreta de dar circo pra população, fazendo Copa das Confederações, Copa do Mundo e as Olimpíadas, quando o país tem outros desafios a enfrentar”, avaliou o ex-parlamentar. “Essa insatisfação se faz presente.”

A estudante Tatyana Cardoso segurava uma bandeira com alguns pedidos: investigação dos gastos públicos na Copa do Mundo de 2014, saída de Renan Calheiros da presidência do Senado, endurecimento da punição a políticos envolvidos em corrupção e não votação da PEC 37 – que demonstrou não saber ao certo de que se trata. “Não sabia até ontem, mas fui me informar. Querem tirar o direito da justiça de investigar.” Outro jovem que não quis se identificar e usava uma máscara do personagem do quadrinhos V de Vingança também protestava contra a PEC 37 sem ter muita certeza do que se tratava. “Para ser bem sincero, tem uns amigos meus que dizem que não é todo esse mal que estão falando por aí”, disse. “Não tenho conhecimento pra julgar. Escrevi aqui no meu cartaz e vou pesquisar mais sobre o assunto pra ter uma opinião formada.”

Enquanto bandeiras de partidos políticos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais eram arrancadas das mãos de militantes e até queimadas, sob urros de alegria da multidão, skinheads passeavam à vontade com a bandeira do estado de São Paulo. Demonstrações do tipo fizeram com que o estudante Luis Felipe Almeida afirmasse que é preciso tomar cuidado para não transformar uma vitória progressista em um avanço conservador. “O que unifica a gente aqui é uma crítica ao neonacionalismo que surgiu nos últimos atos. Há 20 dias ninguém amava o Brasil tanto assim”.

Mas houve exceções. O bloco encabeçado pelo Passe Livre não foi majoritário, mas manteve o foco na discussão sobre o transporte público de qualidade e com tarifa zero. “Dá para perceber que existem setores conservadores tentando cooptar o movimento”, concluiu o militante do MPL Pedro Brandão, 28 anos. “A pauta da corrupção, que é uma pauta etérea, está sendo colocada como pauta do movimento. Mas a pauta do MPL é o transporte. Lutar pelo transporte é enfrentar uma máfia que existe na cidade, que impede as pessoas de se locomover. O MPL vai continuar enfrentando isso.”

Um pequeno grupo de punks e anarquistas marchou de cara fechada e sem a alegria como os jovens de cara-pintada, porque – lembravam – a polícia continua matando pobre todos os dias. “Quem está acompanhando o movimento desde o começo sabe que é um movimento pela esquerda”, defendeu William José Sega, de 21 anos, que carregava uma bandeira vermelha e preta. “O MPL tem uma tradição de caminhar pela esquerda, uma tradição anticapitalista. Assistir isso que vem acontecendo hoje é temerário. Sim, temos um avanço, uma vitória. Colocamos as pessoas massivamente nas ruas. Porém, com qual discurso? É a prova concreta de quem está vindo pra cima, e muito bem organizado: é a direita.”

De acordo com Pablo Capilé, fundador da rede de coletivos culturais Fora do Eixo, responsável por diversas manifestações de rua desde o ano passado e pelo “Existe amor em SP”, a multiplicidade de pautas, algumas conflitantes com outras, representa um aprendizado. “A celebração do povo na rua é uma delícia”, opina. “Cria o hábito de estar na rua para aprofundar os debates. Aqui temos um baile de posicionamentos, todos entendendo juntos o que está acontecendo.”

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