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Cultura de paz

São Paulo aposta agora em 'tolerância' para reduzir homicídios por motivos fúteis

Ao todo, 30% dos assassinatos no estado são derivados de razões banais. Especialistas em segurança alertam que se trata de uma medida complementar, que não resolve sozinha o problema
por Sarah Fernandes, da RBA publicado 27/05/2013 16h04, última modificação 27/05/2013 16h14
Ao todo, 30% dos assassinatos no estado são derivados de razões banais. Especialistas em segurança alertam que se trata de uma medida complementar, que não resolve sozinha o problema
Eduardo Anizelli/Folhapress
violência

Só este ano pelo menos 490 pessoas já foram assassinadas por motivos fúteis. Em 2012 foram ao menos 1.500

São Paulo – Pressionado por uma escalada nos índices de violência, o governo de São Paulo aposta agora em um programa que visa a reduzir o número de assassinatos praticados por motivos banais. O estado aderiu hoje (27) à Campanha Conte Até 10, lançada em novembro pelo Conselho Nacional do Ministério Público, que visa a incentivar uma cultura de tolerância no cotidiano para evitar homicídios provocados por brigas de trânsito, desentendimentos entre vizinhos e desavenças familiares.

Atualmente 30% dos boletins de ocorrência de homicídios registrados no estado são derivados desse tipo de conflitos, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Só este ano pelo menos 490 pessoas já foram assassinadas por motivos fúteis. Em 2012 foram ao menos 1.500 vítimas.

O governo paulista produziu 10 mil cartazes publicitários da campanha, com mensagens de paz de atletas que lutam profissionalmente, como o lutador de MMA Anderson Silva e os judocas campeões olímpicos Sarah Menezes e Leandro Guilheiro. Além disso, serão veiculadas propagandas na televisão e um jingle em emissoras de rádio.

“Há uma faixa de homicídios que são fruto da intolerância, cometidos em um momento de descontrole. O objeto é influir nessa faixa de crime para fazer com que pessoas reflitam mais e valorizem a tolerância”, afirmou o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, em discurso durante a manhã, no lançamento da campanha, no centro de São Paulo. “A campanha não resolve sozinha o problema da violência, temos a faixa de crimes de outra natureza, para a qual o tratamento é diferente.”

A especialista em violência Jacqueline Muniz, que é professora do mestrado em Antropologia da Universidade Cândido Mendes, concorda. “A iniciativa é interessante porque a população também participa na prevenção da violência. Ela tem o papel de conscientizar. Mas ela precisa vir acompanhada de outras ações, como uma intensificação da campanha de desarmamento, que precisa de um esforço maior”, avaliou.

A professora avaliou, ainda, que se os conflitos cotidianos fossem resolvidos com mais agilidade na justiça os crimes poderiam ser evitados. “Precisaríamos de postos de justiça itinerantes, que atuassem nos bairros, para mediar os conflitos e ajudar a resolvê-los sem violência.”

A coordenadora de Justiça e Segurança Pública do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, lembra que a campanha é apenas uma parte de um conjunto maior de ações de prevenção da violência. “É uma medida complementar para mudanças de comportamento, não uma solução milagrosa. É preciso outras ações, como a retirada de armas de fogo de circulação e um maior esforço em esclarecer os casos e punir os responsáveis.”

O secretário de Segurança admite que, sozinho, o programa não resolve a questão (Marcelo Camargo. ABr)Segundo a conselheira do Conselho Nacional do Ministério Público, Tais Schilling, responsável pela campanha, entre 2010 e 2013 o número de inquéritos policiais finalizados no país passou de 8% para 27%, principalmente em investigações cometidas até 2008, em um esforço para esclarecer os casos mais antigos. Nos próximos meses o projeto entrará em sua terceira fase, que visa a agilizar a investigação de crimes mais recentes.

“Ao lado de medidas de execução penal, de buscar a responsabilizar os autores dos crimes, nós também temos de trazer a sociedade para esse debate, dividindo entre ela e o Estado a responsabilidade pela diminuição da violência”, avaliou. “As ações têm de ser combinadas: temos de continuar o desarmamento, mas junto com isso temos de trazer a reflexão do quanto podemos ajudar a controlar a violência com atitudes de maior tolerância.”

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