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"Sou feliz neste país e com os brasileiros", diz Battisti em Porto Alegre

por Rachel Duarte publicado 24/01/2012 16h24, última modificação 24/01/2012 16h28

Atualmente, o ativista italiano Cesare Battisti trabalha como escritor (Foto: Ramiro Furquim/ Sul21)

Porto Alegre – Passando despercebido por entre os convidados da primeira palestra do Fórum Social Temático 2012, aberto nesta terça-feira (24), em Porto Alegre, o ex-ativista italiano Cesare Battisti foi descoberto por jornalistas que acompanhavam o evento. Battisti assistia à exposição do diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), José Graziano, sobre "A importância da sociedade civil no setor privado para a segurança alimentar e nutricional", no Palácio Piratini. Atendendo a convite dos movimentos sociais organizadores do FST, Battisti ficará em Porto Alegre até quinta-feira (26), quando participará, às 13h, de uma atividade na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O ex-ativista italiano refugiado no Brasil após uma extensa divergência jurídica e política sobre a permanência dele no país, escreveu o romance "Ao pé do muro", enquanto esteve preso no Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal. "É um romance autobiográfico, mas o forte recurso da ficção nele. É a história de um preso político, escrito em primeira pessoa, que conhece outros presos políticos enquanto está na cadeia. Cada personagem abre uma janela para uma região diferente do Brasil, que o protagonista principal não conhecia e mostra as diferentes histórias de vida dos perseguidos políticos até serem presos", explicou Battisti.

Questionado se tinha elementos reais da sua história no livro, o italiano disse que "a ficção é uma realidade diluída, porque a verdadeira realidade seria forte demais para ser digerida". Sobre que verdade ele irá revelar na obra, que será lançada em março no Brasil e na França, Battisti disse que deixa para a interpretação dos leitores a separação entre o real e o imaginário.

O livro "Ao pé do muro" é 15º romance escrito por Cesare Battisti, que também já lançou cinco antologias de contos. A versão em português é da editora Martins Fontes. "Ele é um bom escritor, já li livros dele", elogiou o governador gaúcho Tarso Genro, anfitrião do evento no Palácio Piratini. Vivendo no Rio de Janeiro, ele escreve um novo título, mas guarda segredo. "Estou trabalhando como escritor. Nada mais", resumiu.

Tarso Genro declarou que o caso Battisti foi "um massacre midiático deliberado e coordenado pelo governo Berlusconi". O ex-primeiro ministro italiano deixou o posto no final de 2011, marcando o fim de uma era política no país europeu. O governo conservador de Silvio Berlusconi ameaçou deflagrar uma crise diplomática com o Brasil por não extraditar Battisti e conceder asilo político.

Foi Tarso Genro, quando ministro da Justiça, quem iniciou o processo pela não extradição do italiano. No evento no FST 2012, ele defendeu que a verdade sobre o caso não foi revelada à época. "Colunistas da imprensa nacional brasileira mentiram sobre o que tinha acontecido no caso e falaram inverdades sobre minha atuação no Ministério da Justiça", asseverou nesta terça. "Minha relação com o caso Battisti não está balizada na militância histórica dele, que eu nem conheci. E sim com a aplicabilidade dos princípios dos direitos humanos internacionais e nos princípios constitucionais brasileiros para o caso de refugiados".

Tarso Genro disse que as distorções sobre o caso tiveram influência política do governo italiano, de Silvio Berlusconi. "Um governo mafioso, corrupto e desmoralizado e que felizmente já está sendo substituído. Na época, procuraram submeter a visão do governo italiano ao presidente Lula e ao judiciário brasileiro. Quando o assunto esgotou, o presidente Giorgio Napolitano falou publicamente que o governo italiano não soube conversar com o Brasil, nem apresentar seus argumentos", ressaltou o ex-ministro.

Berlusconi deixou o posto de primeiro-ministro em novembro de 2011, dando lugar a Mario Monti. Além de dar início a uma nova era política na Itália, o sucessor tem como missão convencer o chamado mercado e governos de outros países da zona do euro de que o país será capaz de superar a crise de confiança sobre a capacidade de pagamento da dívida diante de crescentes déficits fiscais com baixo crescimento econômico.

Cesare Battisti disse que não foi recebido pelo governador para audiência e nem está na agenda um futuro encontro. "O governador tem coisas mais importantes do que este caso, que já acabou", disse. Pela primeira vez em Porto Alegre, Battisti disse que fez questão de conhecer o Palácio Piratini e se surpreendeu com o temparatura. "Muito quente", falou.

Tarso Genro disse que, se encontrar Battisti no FST 2012, irá cumprimentá-lo como qualquer outro participante do encontro. "Vou dizer que o presidente Lula fez o que deveria fazer pela Constituição do país em não entregá-lo para os fascistas e corruptos italianos que o queriam no país", afirmou.

Com restrições devido à condição de refugiado, Battisti não pode falar ou fazer política. Não participará da Marcha de Abertura do FST 2012. "Não posso fazer política nem falar sobre meu caso. Só posso agradecer o Lula pelo que ele fez, nada mais. Estou feliz neste país e com os brasileiros", disse Battisti.

Fonte: Sul21